Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > COBERTURA ELEITORAL

O globo de papel e o papel da Globo

Por Erick da Silva Cerqueira em 26/10/2010 na edição 613

A campanha eleitoral deste ano conseguiu superar todas as outras, desde 1989. São tantas mentiras, baixarias, crises, manipulações, canalhices e jogo de interesses que deixariam Charles Foster Kane (Citizen Kane) envergonhado. Mas o pior é constatar o triste papel exercido pela imprensa ao longo da disputa.

A imprensa brasileira vive a maior crise de sua história. Primeiro os jornalistas foram comparados com cozinheiros, pelo ministro Gilmar Mendes, que desobrigou a obrigatoriedade do diploma para o exercício da função. Depois a internet e as suas redes sociais tornaram-se um grande observatório da imprensa, pondo em xeque a credibilidade das notícias.

A CartaCapital assumiu o seu posicionamento político, saindo de trás da falsa e obscura ‘imparcialidade da linha editorial’. O Estado de S. Paulo fez o mesmo, ainda que tardiamente e como uma resposta ao presidente da República. IstoÉ, Veja e a Folha de S.Paulo ainda não tiveram coragem de assumir o que todos já sabem. O Jornal do Brasil encerrou suas atividades impressas às vésperas de completar 120 anos.

Existiam outras câmeras filmando

A liberdade de imprensa virou tema de campanha. O Estadão acredita estar há mais de 400 dias sob censura e protesta no seu site. Mas usou de dois pesos e duas medidas para censurar e despedir Maria Rita Kehl por publicar aquilo que pensava. A Folha de S.Paulo, outro baluarte da liberdade de imprensa e do humor livre, processou e tirou do ar o site ‘A Falha de São Paulo’.

O Twitter virou um feedback in realtime sobre as opiniões do público em relação às notícias. Exemplo disso são as hashtags #FactsByFolha, #CalaBocaGalvão, #VejaMente, #GloboMente, que figuraram entre as coisas mais digitadas no Twitter em todo o mundo. Mas o pior ainda estava por vir…

Desde o início da campanha presidencial, ficou claramente definido o posicionamento de alguns órgãos da imprensa nacional, qual candidato eles defendiam. As entrelinhas das reportagens foram explicitadas para uma maior compreensão do povo. E apesar de William Bonner considerar que o povo brasileiro é como o Homer Simpson, ou seja, sem capacidade intelectual para entender tudo o que diz o JN. Desta vez, o tiro saiu pela culatra. E veio de arma-branca. Uma bolinha de papel.

A notícia de uma agressão ao candidato José Serra, durante uma caminhada no Rio de Janeiro, chocou o país na noite da quarta-feira, 20/10/2010. O Jornal Nacional noticiou: ‘A atividade de campanha do candidato do PSDB, José Serra, foi interrompida hoje no Rio depois que ele foi agredido num tumulto, iniciado por militantes do PT.’ Porém, havia um problema: existiam outras câmeras filmando no local.

A morte da credibilidade e da imparcialidade

Uma reportagem do SBT deixou a notícia do JN sem sentido. A agressão sofrida teria sido o arremesso de uma bolinha de papel contra a cabeça do candidato. O ‘agredido’ foi avisado pelo telefone de que havia sofrido uma agressão, sendo levado para fazer uma tomografia e aconselhado a repousar por 24 horas. A Globo estava desmascarada na tentativa de manipular uma informação com fins explicitamente eleitoreiros. A agressão virou piada na internet. Surgiu o #GloboMente no Twitter mundial. O presidente da República voltou aos tempos de sindicalista e, revoltado, criticou o opositor. A Globo precisava agir rápido. Mas a emenda ficou muito pior que o soneto.

Numa tentativa de provar a agressão (e a sua imparcialidade), a Globo ressuscitou o especialista Ricardo Molina do ostracismo para tentar provar que houve mais que uma bolinha de papel. Foram sete minutos de matéria no maior contorcionismo jornalísticos da história desse país. Molina identificou, em um vídeo produzido pela Folha (logo, acima de qualquer suspeita) que outro objeto semelhante a um rolo de fita larga acertou o candidato no fronto-parietal. Ao final da sofrível tentativa de recuperação da sua imagem, a Globo teria sido vaiada pelos seus próprios jornalistas em São Paulo. Desta vez, eles não conseguiram convencer nem o público interno. Uma frase, dita por uma velha jornalista global aos seus colegas, resume bem esse triste capítulo da história da imprensa brasileira: ‘Sinto vergonha de ser jornalista, sinto vergonha de trabalhar aqui.’ Deprimente…

Mas a vida segue. O Jornal Nacional termina aqui, com um minuto de silêncio em respeito à morte da credibilidade e da imparcialidade do jornalismo das Organizações Globo, sob a tutela do sr. Ali Kamel. Tenham todos vocês uma boa noite!

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Analista de marketing, Salvador, BA

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