Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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O governador e a pesquisa do Datafolha

Por Célio Teixeira em 07/04/2009 na edição 532

Não é novidade falar no esforço de blindagem que a Folha de S.Paulo historicamente faz em defesa do governador de São Paulo. Sobre isso existem inúmeros artigos em sites especializados na internet.

No entanto a conquista do prêmio de ‘Veículo mais Admirado’ do país em 2008, uma promoção do jornal Meio & Mensagem, deve ter acendido uma luz vermelha na direção da empresa. Lá fica claro que apenas 56,3% dos votantes reconheceram a independência editorial do jornal na hora de votar. Para um veículo que se orgulha de sua independência editorial esse é um péssimo indicativo.

Infelizmente, a publicação da última série de pesquisas Datafolha demonstra, mais uma vez, o esforço descomunal do jornal em torno dos interesses do governador de São Paulo, José Serra, que, desta vez, ultrapassou muitos limites.

Nos dias 16, 17, 18 e 19 de março, o Datafolha colocou em campo a sua mais recente pesquisa e no dia 20 já tinha todos os resultados em mãos.

Na sexta (20/3), foi divulgada a primeira parte desta pesquisa. E o texto da matéria, sobre as intenções de votos para a presidência da República, em 2010, começa assim: ‘O governador paulista, José Serra, mantém ampla liderança em todos os cenários em que aparece…’

No dia 21, a Folha dá destaque para uma matéria que tem o seguinte título: ‘Sem Aécio, Serra tem 40% dos votos em Minas Gerais’.

Justificando a queda

No domingo, dia 22, foi divulgada a parte da pesquisa com intenção de votos para os governos dos principais estados brasileiros. O texto da matéria dá destaque para a seguinte análise: ‘Datafolha diz que favoritismo de Alckmin está ligado a recall das eleições’.

A mesma edição do jornal chama a atenção para o dado da pesquisa que diz que Anastasia, vice de Aécio, ‘fica em 3° e não passa dos 5%’.

Na quarta (25/3), um dos dias de menor veiculação do jornal, mais um pedaço da mesma pesquisa foi divulgado: o ranking de governadores. Aécio permanece como governador mais bem avaliado do país. O jornal fez então um contorcionismo jornalístico para dar o resultado, que não podia deixar de ser dado, de forma a mostrar que o primeiro lugar de Aécio não é, na verdade, muito bom.

O jornalista Luiz Antonio Magalhães, do blog Entrelinhas, percebeu os malabarismos da Folha para construir a manchete sobre o ranking liderado pelo Aécio e registrou o seguinte comentário: ‘Bem, só faltou o jornal pedir por favor ao governador paulista para publicar essa quedinha de 3° para 5° no ranking e ainda mais por dar a liderança absoluta e inconteste de Aécio Neves.’

Eu anotei o que me chamou mais a atenção nessa série de reportagens e nessa matéria em particular.

Começo pela manchete da capa da avaliação dos governadores onde a Folha se apressa em justificar a queda da posição do Serra na pesquisa, informando, logo abaixo da manchete da primeira página, que ‘apesar da avaliação de José Serra (SP) ter melhorado, ele cai da 3ª para a 5ª posição’ e dá o seguinte destaque na chamada da capa: ‘O índice de aprovação à gestão Serra subiu cinco pontos (de 49% para 54%) e sua nota passou de 6,5 para 6,6. Mesmo assim, ele caiu do terceiro para o quinto lugar.’

‘Explicando’ o desempenho

Alguém consegue imaginar o jornal oferecendo um tratamento tão cuidadoso a outro governante? A Folha criou para Serra o conceito de ‘caiu pra cima’.

O texto da matéria vai pela mesma linha. O que deveria ser uma reportagem sobre a avaliação de governos estaduais – 10 governadores são citados – se transforma, sem mais nem menos, em reportagem sobre as eleições de 2010, sempre com o objetivo de enfraquecer o desempenho de Aécio e de fortalecer o de Serra.

Veja o que dizem trechos do texto desta reportagem: ‘… hoje líder na corrida para a presidência, Serra…’ e ‘… apesar de um aumento no índice de aprovação do seu governo, Serra…’

E tem mais: informa também, em detalhes, que Serra empatou com Requião e ficou uma posição atrás na pesquisa apenas em função de um critério definido, anos atrás, pelo próprio instituto de pesquisa.

A reportagem dedica oito linhas para comentar secamente o primeiro lugar de Aécio e 20 linhas para informar que Serra é líder na corrida presidencial, aumentou sua popularidade e, na verdade, empatou em 4° lugar. Ainda na capa, nove linhas são dedicadas ao resultado do primeiro lugar de Aécio e 14 para ‘explicar’ o desempenho do Serra.

Fontes ouvidas são serristas

Mas sempre tem mais!

Após uma rápida análise dos outros governadores, a reportagem subitamente se transforma em análise do cenário de 2010, com um foco nítido em enfraquecer o desempenho de Aécio. Veja o que diz o texto: ‘Apesar da confortável liderança – e um índice de aprovação de 77% –, Aécio teria hoje dificuldades de eleger um sucessor. Segundo o Datafolha, o vice-governador e potencial candidato do PSDB em Minas, Antonio Anastasia, tem 5% das intenções de voto e está em terceiro lugar. Até a divulgação do último Datafolha, a popularidade de Aécio em Minas era encarada como ameaça para os defensores da candidatura Serra. Aliados de Serra temiam que sua candidatura fosse objeto de boicote em Minas. Os números do Datafolha – segundo os quais, sem Aécio, Serra tem 40% em Minas – tranqüilizaram serristas.’

E continua: ‘Preocupados com o desempenho de Yeda, os serristas comemoram o cenário do Rio, onde a oposição ameaçaria eventual candidatura de Sérgio Cabral à reeleição.’ Quer dizer, o jornal nem se incomoda mais em disfarçar o fato de que as únicas fontes ouvidas são, como indicado, os serristas. Por que não se ouve também os petistas ou o aecistas?

A verdade já era sabida

A publicação da pesquisa com a avaliação dos governadores, no dia 25, esclareceu a dúvida que muita gente foi acumulando ao ler a Folha durante a semana: por que o jornal estava dando tanta ênfase aos resultados relativos a Minas?

Chamou especialmente a atenção a importância que o jornal deu à informação sobre os 40% de votos que Serra teria m Minas. A Folha considerou essa informação muito importante, mas paradoxalmente, por exemplo, não se interessou em entender porque ele teria essa votação no Estado. As pessoas votam nele porque ele é do partido de Aécio? Os mineiros votam nele porque ele seria o candidato do governador? Se alguma destas questões for real, isso, na verdade, indica que o que temos aí não é índice de intenção de votos do Serra, mas sim, de potencial de transferência de voto de Aécio para Serra.

A Folha também deu especial destaque á intenção de votos do vice-governador Anastasia, mas não se interessou em informar, como demonstram dados na internet, que nas eleições de 1994 Hélio Costa começou a disputa pelo governo de Minas Gerais com os mesmos 45% das intenções de votos e perdeu. Já em 2006, o senador Eliseu Resende começou com 6% nas pesquisas de intenção de votos e em 2008 e o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, começou a campanha com 5%. Em comum a Eliseu e Márcio, foi o decisivo apoio do governador Aécio Neves a suas candidaturas.

Vale ressaltar que o que fica claro é que desde o dia 20 de março a Folha já sabia que Aécio era o primeiro no ranking de governadores. Passou a semana divulgando pedaços de números de pesquisa que tentassem enfraquecer o mineiro e que servissem, como serviram, de argumentos contra ele no dia em que o ranking fosse divulgado.

A propósito, como a Folha sabe que os 41% do Alckmin são recall e os 41% do Serra são de liderança?

Esses questionamentos também foram enviados ao ombudsman do jornal.

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Advogado, Belo Horizonte, MG

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