Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > BRASIL VISTO DE FORA

O inferno da minoria maioral

Por Mônica Carvalho, de Porto (Portugal) em 10/11/2009 na edição 563

Estou fora do Brasil há apenas dois anos e meio, mas já me impressionam algumas idéias de quem está no país.


Um exemplo. Após ler o editorial de quarta-feira (4/11) do Estadão, indicação do senador Cristovam Buarque, fico espantada com o modo como Lula e a possível reeleição do PT, através de Dilma Rousseff, ameaçam uma ‘minoria’, até porque foi justamente essa ‘minoria’ que, indiretamente, ‘permitiu’, pode-se dizer, a primeira vitória de Lula. Lembro-me perfeitamente que o próprio Fernando Henrique Cardoso, nas entrelinhas, conduzia a esse processo. Até mesmo os veículos de comunicação pareceram incrivelmente levantar bandeira branca ao evitarem criticar demasiadamente o candidato petista em 2002. A questão foi que o candidato, após eleito e reeleito, cresceu de tal forma que saiu do controle dessa ‘minoria’. Sobre isto, recordo inclusive uma entrevista de Franklin Martins à Caros Amigos, após a reeleição de Lula, em que afirmava que a ‘era da pedra no lago’ teria acabado.


Para mim, é evidente que, até o primeiro mandato de Lula, havia certo controle sobre o que se fazia no governo. Contudo, após a reeleição, no jogo do poder Lula passou a ter mais vantagem. Agora, a antiga ‘minoria’ padece incrivelmente do ‘mal’ de ser minoria de fato, diante de um apoio popular que, supostamente, extrapola qualquer controle que antes poder-se-ia exercer mais facilmente. Vejo que o suposto receio do avesso da democracia ou de um regime autoritário, expressado em outros canais, para além do editorial do Estadão, parece mais um desejo de que isto assim se dê. De fato, a maioria dos da minoria, que hoje reclamam, colaborou em anteriores governos autoritários. Logo, não creio que, para esta minoria, a democracia seja realmente o melhor dos mundos.


A encarnação do anticristo


Democracia pressupõe imprevisibilidades, na medida em que a escolha é feita pela maioria, como consequência de uma disputa em que, no mínimo, duas partes querem o mesmo, mas só uma ganha. Por princípio, a disputa democrática deveria envolver estratégia, negociação, inteligência, bom discurso e ganhos para todas as partes envolvidas, pois mesmo os que perdem, podem ganhar conforme a pressão política que são capazes de exercer. Porém, a história do Brasil vinha seguindo sempre a cartilha da alternância do poder que, como numa ladainha, chegava sempre ao mesmo lugar, sempre ocupado pela minoria. É como se, no Brasil, fazer política fosse a repetição em larga escala da frase ‘Sabe com quem você está falando?’


Diante do atual cenário, acho que uma coisa é boa: a minoria talvez comece a perceber que deve aprender a fazer oposição, já que, até então, não sabia exatamente o que isso era. Portanto, agora precisa gastar muito mais que saliva, tinta e bytes para convencer milhões de votantes que, ao invés de Lula ser a encarnação do anticristo, serão eles, os da minoria, os mais capazes de governar para a maioria.

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Pesquisadora, doutora em Comunicação e Cultura

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