Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > PEC DA CORRUPÇÃO

O jornalismo da Globo e da Cultura

Por Rafael Mantovani em 02/06/2015 na edição 853

Tem-se falado repetidamente a respeito de corrupção política. A questão primordial, para ao menos amenizá-la, é o fim do financiamento privado de campanha, que, apesar de proibido por lei, é realizado na prática. A OAB já havia entrado com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade contra as doações de empresas no Supremo Tribunal Federal. Em abril de 2014, seis ministros votaram a favor da ação (ou seja, contra o financiamento de empresas a candidaturas) e um contra. O ministro Gilmar Mendes fez um pedido de vista da ação e travou a decisão no Supremo.

No dia 27 de maio, um dos temas de votação da reforma política foi o tal financiamento empresarial: tratava-se de constitucionalizar o direito de empresas privadas financiarem partidos. Para que o texto entrasse para a Constituição, seriam necessários 308 votos. A questão foi colocada em pauta e 264 deputados votaram a favor. Mesmo sendo a maioria, não foi um número suficiente para mudar a Constituição. Eduardo Cunha (PMDB-RJ), por meio de regimentos internos estabeleceu nova votação e o placar foi diferente: 330 votos a favor, ou seja, o suficiente para constitucionalizar o direito de empresas financiarem partidos. Com razão, os partidos de esquerda batizavam a emenda de PEC da Corrupção, pois trata-se da constitucionalização da maior causa de corrupção do país.

Este ano houve algumas manifestações de enormes proporções que levantavam diversas reivindicações. Uma delas era contra o PT, pedindo-se o impeachment da presidenta pelo fato de o partido, no imaginário social de um número cada dia maior de brasileiros, estar associado ao partido corrupto por excelência. Para “especialistas” das maiores redes de comunicação, a corrupção é quase um privilégio do Partido dos Trabalhadores, o que é absolutamente falso. A corrupção é o fenômeno mais democrático entre os grandes partidos, sem excetuar o PSDB, que se apresenta (e convence) como o partido da honestidade, embora abundem muito fartamente (com o perdão da redundância) grandes indícios de muita corrupção no governo FHC, Azeredo, Geraldo Alckmin e – o mais novo a entrar na lista – de Beto Richa. Além de diversos outros fatos como, por exemplo, o PSDB ter sido o partido com mais candidaturas a prefeituras em 2012 barradas pela lei da Ficha Limpa, assim como tudo indica que foi o partido que mais recebeu dinheiro de proprietários de contas do HSBC, sendo Aécio Neves o maior beneficiário. Mesmo assim, os mais revoltosos dos movimentos contra os “corruPTos” têm hostilizado até Aécio Neves, por desistir do pedido de impeachment.

O “papo das elites”

Mas voltemos à votação do dia 27 de maio para ver como se posicionaram esses dois partidos, PSDB e PT. Na primeira votação, a bancada do PT seguiu a orientação do líder Sibá Machado e, dos 63 deputados do PT, à exceção de uma abstenção, todos votaram contra o financiamento empresarial de campanha. Da bancada do PSDB, Max Filho também votou contra. Entretanto, todos os demais 46 votaram pela constitucionalização do direito de empresas fazerem doações a partidos. O “partido da corrupção”, PT, votou em massa contra a constitucionalização da corrupção. O “partido da honestidade”, PSDB, a favor. Entretanto, conforme já mencionado, os votos a favor não tinham sido suficientes e Eduardo Cunha chamou nova votação. Nesta, o PT votou de acordo com a primeira; e o PSDB, também. Max Filho votou contra e duas abstenções tucanas da votação anterior se tornaram votos a favor do texto.

E como foi a cobertura do Jornal Nacional no dia seguinte, 28/05? No dia 27 haviam sido votados três assuntos: o “distritão”, o financiamento empresarial de campanha e o fim da reeleição. A cobertura deu ênfase ao fato de a votação sobre o financiamento ter sido tumultuada, que se votou duas vezes e decidiu-se pela constitucionalização das doações empresariais. Fez-se algum comentário a respeito de como os partidos se posicionaram? Não. A ênfase do jornal foi dada à votação pelo fim da reeleição, que tem sido uma das mudanças políticas apoiada cada vez por um número maior de pessoas. E quem foi o entrevistado para dar uma declaração a respeito? Um deputado do PSDB, falando sobre os ganhos políticos com a decisão. A mensagem que se quis passar foi que o PSDB é o grande responsável pelos avanços na reforma política? Aparentemente, sim.

No Jornal da Cultura não foi diferente. Afinal, a Cultura está para o PSDB assim como a Record está para a Igreja Universal. Tanto é assim, que no começo de 2014, o diretor de Jornalismo da emissora, William Corrêa, quase foi demitido por ter criticado a equipe de outro profissional que autorizou mais tempo para Geraldo Alckmin em uma entrevista. Quando Corrêa mencionou que não queria que Alckmin participasse mais de telejornais, o governador não gostou e William Corrêa quase foi para a rua.

No dia 28, a bancada do jornal estava composta por Felipe Pondé e Cacá Rosset. Ambos se posicionaram a favor do fim da reeleição. Segundo Rosset, porque ainda estamos em uma “democracia infante”. E o exemplo dado por ambos foi o terrível (péssimo, segundo Pondé) primeiro mandato de Dilma Rousseff, mas que mesmo assim conseguiu a reeleição. Em seguida, disseram que eram contra a obrigatoriedade do voto e Pondé ridicularizou a teoria – correta, por sinal – de que, caso fosse facultativo, só a classe dominante iria às urnas. Segundo Pondé, é “o papo das elites”… Ou seja, bobagem.

Uma política rasteira de ódio

Na reportagem a respeito da doação empresarial, também mencionou-se que foi tumultuada e que tinha havido uma segunda votação por uma manobra de Eduardo Cunha. Em seguida, falou Aldo Fornazieri, cientista político pela FespSP, que afirmou ser um retrocesso. A reportagem seguiu falando que a sociedade não está sendo escutada pela câmara nas decisões a respeito da reforma e terminou mostrando que os deputados não estavam tão interessados assim no futuro do país, afinal, alguns foram até flagrados assistindo a um filme pornográfico. Cacá Rosset, que jurava estar engraçadíssimo naquele dia, disse que tinha “certeza que o que os atores estavam fazendo no filme é exatamente o que os políticos fazem com a população brasileira”. Alguma menção a respeito dos partidos que aprovaram o financiamento empresarial? Nenhuma.

O papel que a grande mídia tem feito é um desfavor à democracia brasileira. Há uma preferência explícita dos meios de comunicação por determinados partidos. Luciana Genro, em um debate ocorrido na USP no dia 20 de maio, disse que o PT vem sofrendo as consequências de não ter enfrentado os interesses da Rede Globo quando chegou à presidência (assim como entrou em instituições corruptas e, por isso, também se corrompeu – no que ela tem razão). O seu argumento foi que a classe dominante prefere governar com os seus filhos legítimos. Não é o caso do PT, oriundo de uma tradição de esquerda. Dessa forma, a grande imprensa tem procurado blindar os governos e os escândalos de corrupção do PSDB, que é, em grande medida, oferecido como o partido dos bons moços da política, os sérios de verdade. Os dados a respeito das investigações das corrupções tucanas são subexploradas pela grande mídia. Sem contar os aspectos pessoais controversos, mas não politicamente irrelevantes, do senador Aécio Neves que parecem ter sido abafados pelo jornal O Estado de Minas em tempos passados, assim como o curioso enriquecimento de Fernando Henrique, que possui um apartamento em Paris no valor de 11 milhões de euros; fato que tampouco ganhou muito destaque midiático. Por outro lado, bombardeia-se o Partido dos Trabalhadores, como se a corrupção fosse exclusividade sua, o que, obviamente, reforça o ódio de classes. Ao terminar de assistir aos grandes telejornais, a pergunta que o telespectador se faz é a seguinte: “Por que os homens de bem não estão no comando máximo do país?”

Bem, esses referidos homens de bem, os que estão na Câmara ao menos estavam todos ocupados em constitucionalizar a corrupção. Mas o telespectador não soube disso. Dessa forma, o que as grandes emissoras se ocupam em fazer não é noticiar a Política, com P maiúsculo, mas sim, fazer crescer o “Fora Dilma”, uma política rasteira do ódio. Comprovação disso é a ausência da vinculação de qualquer análise da votação da Emenda Constitucional 182/07, a mais importante contra a corrupção. E que foi o grande vexame, na reforma política, do partido da ordem e da moralidade. Moralidade inexistente, mas que continua sendo assegurada simbolicamente.

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Rafael Mantovani é sociólogo

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