Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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FEITOS & DESFEITAS >

O jornalismo que sobrevive

Por Alberto Dines em 25/11/2008 na edição 513

Feriadão atípico normalmente termina com pífias edições dominicais, pressupondo que grande parte dos leitores está fora e não quer saber de jornal. Mas, desta vez (domingo, 23/11), a Folha de S.Paulo ofereceu um ‘produto’ capaz de sugerir reflexões e não apenas palavrões. Ficaram visíveis alguns traços do jornalismo dos jornalões: paradigmas, dogmas, rotinas e oportunidades.


Da escolha da manchete (‘Preconceito racial diminui no país’) tira-se a primeira conclusão: nossos editores não se arriscam a manchetear uma edição de domingo com algo tirado da atualidade. Preferem garantir-se com as provisões guardadas na geladeira (ou no freezer) – no caso, um substancioso trabalho do Datafolha comparando atitudes dos brasileiros em 1995 e 2008.


Apesar de publicado num veículo jornalístico, apesar de conter reportagens, entrevistas, enquetes e análises, não chega a ser um trabalho jornalístico avant la lettre, integral e integrado, embora reunido num caderno especial. A valorização do material ‘sociológico’ colhido pelo Datafolha tornou acessório o trabalho da redação da Folha. Acaciana a conclusão de que ‘o preconceito é menor quanto maior for o nível de escolaridade’.


Dimensão ensaística


A matéria mais reporterística (assinada por Frederico Vasconcellos) sequer mereceu uma chamada na primeira página (‘Cinco anos depois, Satiagraha revive embates da Anaconda’, pág. A-4). A esmerada justaposição entre as duas operações da Polícia Federal realizadas no intervalo de cinco anos estabelece pontes inimagináveis, abre perspectivas investigativas ilimitadas.


A matéria foi liquidada pela obrigação de ser ilustrada por um ‘infográfico’ que não ilustrou coisa alguma, repetiu informações e, sobretudo, roubou dela um espaço vital. Um primor de trabalho espremido por convenções e maneirismos que hoje já não fazem mais sentido: o leitor que ainda lê jornais quer ler histórias, o jornalista é um narrador e a ilustração não pode funcionar como gazua roubando seu espaço e sua atenção.


O artigo de Eliane Cantanhêde (‘Pés pelas mãos’, pág. A-2) é um achado e, além disso, desvenda o burocratismo que domina as páginas de opinião esvaziadas de qualquer trepidação criativa. Como a jornalista tem o seu quadradinho, qualquer coisa que venha a escrever ficará ali, confinada.


Não existem mais editores nas redações deste país, capazes de dar um murro na mesa, soltar um palavrão entusiasmado e converter aquela comparação antropológica entre o procurador Luiz Francisco de Souza e o delegado Protógenes Queiroz num texto maior e merecedor de uma chamada?


Aliás, a soma das duas comparações (Anaconda-Satiagraha e Luiz Francisco-Protógenes) dariam ao leitor de um diário aquele ‘algo mais’, aquela dimensão ensaística, capaz de reforçar o jornalismo impresso com ingredientes revisteiros que o jornalismo digital dificilmente conseguirá.


O mesmo jornalismo


O artigo de Janio de Freitas (pág. A-15) afinal mereceu chamada na primeira página (‘Fusão das teles é a transação mais inescrupulosa de que me lembro’) e traz de volta a vitalidade do jornalismo pessoal, opinativo. Alguém decretou que o jornalismo moderno deve ser despersonalizado, esterilizado, desprovido de crença, fervor, e não percebeu que, com isso, retirava da imprensa diária a sua vitalidade, sua razão de ser, sua capacidade de gerar movimento.


Recomenda-se que uma reportagem seja ampla (e não necessariamente neutra), mas um artigo opinativo deve ser opinativo. É evidente que um jornal ou revista não pode ser inteiramente verberativo, veemência cansa (Veja já o descobriu). É evidente também que o leitor tem os seus filtros, sabe escolher a procedência do material com o qual fabricará a sua própria opinião (caso deste texto de Janio de Freitas).


Se o jornalismo impresso deve ser salvo da mumificação tecnocrática imposta por consultores e acadêmicos, convém que lhe devolvam o seu sabor, sua fibra, seu caráter autoral, sua naturalidade.


Sem o querer, por acaso e por força de um feriadão, a edição dominical da Folha demonstrou que o novo jornalismo é, na realidade, o mesmo e infalível jornalismo de antigamente produzido em redações de repente eletrizadas pelo talento individual e pela experiência.

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