Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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FEITOS & DESFEITAS >

O leitor historicamente à margem

Por Rubens Rodrigues Junior em 20/04/2004 na edição 273

O procedimento não é novo, mas as respostas são as mesmas. Antigamente, em qualquer grande veículo de comunicação, como jornais e revistas, publicava-se (alguns ainda publicam) o endereço para o leitor postar sua resposta, sua sugestão, ou ainda qualquer outra coisa para comunicar-se com o veículo, no formato tradicional: cartas para este veículo, endereço, rua tal, número tal etc.

O leitor mais acomodado dificilmente se veria a escrever de punho próprio, datilografar e ainda dirigir-se a uma agência de correio e postar a velha carta: apenas os que se sentiam um pouco desconfortáveis com o veículo o fariam, ou ainda algum outro que se pusesse a reivindicar alguma correção ou, ainda, quem nominalmente fosse citado e quisesse o direito de resposta.

Passou-se o tempo, os veículos de comunicação ganharam uma nova via para divulgação do seu produto – a internet – e praticamente todos têm sua versão impressa e sua versão eletrônica, inclusive de maior penetração, pois rompe qualquer barreira de logística e distribuição do produto, ou seja, o alcance é bem maior do que era anteriormente.

Passado renegado

Seria natural que os veículos repensassem seus procedimentos e desenvolvessem novos meios de comunicação com o leitor – mas não foi o que aconteceu.

A grande maioria limitou-se a colocar simplesmente um endereço eletrônico, seja no editorial, na coluna, ou em alguma sessão. Não vou particularizar, responsabilizar ou citar veículo e jornalista, mas me proponho a sugerir o seguinte exercício: quem já enviou alguma correspondência via e-mail e teve resposta, no mínimo, aceitável?

Posso garantir que muito poucos.

Normalmente o que você recebe é alguma resposta já padronizada, e é nítida a sensação que ela nem chegou ao jornalista ou profissional que deixou o e-mail para contato. Não é difícil perceber que a resposta foi enviada por algum estagiário de comunicação, que normalmente orientado para escolher a melhor resposta padrão para enviar ao remetente, do tipo ‘A coluna agradece a sua participação’, e equivalentes do gênero.

O engraçado é notar que a grande maioria dos colunistas ou escritores destes artigos são vistos quase sempre nos canais de TV ou emissoras de rádio divagando sobre sua luta e participação nos movimentos populares contra a ditadura, que sempre ficaram à margem de grande parte da imprensa livre, e que sofreram na carne a verticalidade dos procedimentos implantados nos grandes jornais, que calavam as suas bocas ou colocavam amarras em suas mãos.

Imposição ao leitor

Ironia do destino ou não, o mesmo acontece com os leitores que emitem a sua opinião, alguns querendo agregar algum valor ao texto do jornalista, alguma errata, alguma sugestão, ou até para questionar e não concordar com o conteúdo da matéria – apenas democraticamente, que é o que o leitor espera de quem escreveu o texto.

Os veículos que têm o canal de ombudsman dão uma resposta um pouco mais satisfatória, mas não resolvem o problema.

Necessário seria obter dos veículos de comunicação e seus jornalistas uma mão dupla na via da informação, ou então que se retire o endereço de e-mail publicado. Que se utilize com critério essa prática, que o leitor obtenha a resposta, e não se banalize tal procedimento. O caminho de mão única deixa o leitor apenas com a opção de aceitar ou desprezar o veículo que lê, sendo sempre o leitor, também cidadão brasileiro, condenado a ficar historicamente à margem.

Que a ditadura que libertou o jornalista não seja agora imposta ao leitor, através de um simples endereço de e-mail, que jamais será lido ou respondido.

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Analista de sistemas, 46 anos, Santos, SP

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