Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > LEI ROUANET

O linchamento de Maria Betânia

Por Caetano Veloso em 29/03/2011 na edição 635

Não concebo por que o cara que aparece no YouTube ameaçando explodir o Ministério da Cultura com dinamite não é punido. O que há afinal? Será que consideram a corja que se ‘expressa’ na internet uma tribo indígena? Inimputável? E cadê a Abin, a PF, o MP? O MinC não é protegido contra ameaças?


Podem dizer que espero punição porque o idiota xinga minha irmã. Pode ser. Mas o que me move é da natureza do que me fez reagir à ridícula campanha contra Chico [Buarque] ter ganho o prêmio de Livro do Ano. Aliás, a Veja (não, Reinaldo, não danço com você nem morta!) aderiu ao linchamento de Bethânia com a mesma gana. E olha que o André Petry, quando tentou me convencer a dar uma entrevista às páginas amarelas da revista marrom, me assegurou que os então novos diretores da publicação tinham decidido que esta não faria mais ‘jornalismo com o fígado’ (era essa a autoimagem de seus colegas lá dentro). Exigi responder por escrito e com direito a rever o texto final. Petry aceitou (e me disse que seus novos chefes tinham aceito). Terminei não dando entrevista nenhuma, pois a revista (achando um modo de me dizer um ‘não’ que Petry não me dissera – e mostrando que queria continuar a ‘fazer jornalismo com o fígado’) logo publicou ofensa contra Zé Miguel [Wisnik], usando palavras minhas.


Política do corinho


A histeria contra Chico me levou a ler o romance de Edney Silvestre (que teria sido injustiçado pela premiação de Leite derramado). Silvestre é simpático, mas, sinceramente, o livro não tem condições sequer de se comparar a qualquer dos romances de Chico: vi o quão suspeita era a gritaria, até nesse pormenor. Igualmente suspeito é o modo como Folha, Veja e uma horda de internautas fingem ver o caso do blog de Bethânia. O que me vem à mente, em ambas as situações, é a desaforada frase obra-prima de Nietzsche: ‘É preciso defender os fortes contra os fracos.’ Bethânia e Chico não foram alvejados por sua inépcia, mas por sua capacidade criativa.


A Folha disparou, maliciosamente, o caso. E o tratou com mais malícia do que se esperaria de um jornal que – embora seu dono e editor tenha dito à revista Imprensa, faz décadas, que seu modelo era a Veja – se vende como isento e aberto ao debate em nome do esclarecimento geral.


A Veja logo pôs que Bethânia tinha ganho R$ 1,3 milhão quando sabe-se que a equipe que a aconselhou a estender à internet o trabalho que vem fazendo apenas conseguiu aprovação do MinC para tentar captar, tendo esse valor como teto. Os editores da revista e do jornal sabem que estão enganando os leitores. E estimulando os internautas a darem vazão à mescla de rancor, ignorância e vontade de aparecer que domina grande parte dos que vivem grudados à rede. Rede, aliás, que Bethânia mal conhece, não tendo o hábito de navegar na web, nem sequer sentindo-se atraída por ela.


Os planos de Bethânia incluíam chegar a escolas públicas e dizer poemas em favelas e periferias das cidades brasileiras. Aceitou o convite feito por Hermano [Vianna] como uma ampliação desse trabalho. De repente vemos o Ricardo Noblat correr em auxílio de Mônica Bergamo, sua íntima parceira extracurricular de longa data. Também tenho fígado. Certos jornalistas precisam sentir na pele os danos que causam com suas leviandades. Toda a grita veio com o corinho que repete o epíteto ‘máfia do dendê’, expressão cunhada por um tal [Claudio Julio] Tognolli, que escreveu o livro de Lobão, pois este é incapaz de redigir (não é todo cantor de rádio que escreve um Verdade tropical). Pensam o quê? Que eu vou ser discreto e sóbrio? Não. Comigo não, violão.


Vício arraigado


O projeto que envolve o nome de Bethânia (que consistiria numa série de 365 filmes curtos com ela declamando muito do que há de bom na poesia de língua portuguesa, dirigidos por Andrucha Waddington), recebeu permissão para captar menos do que os futuros projetos de Marisa Monte, Zizi Possi, Erasmo Carlos ou Maria Rita. Isso para só falar de nomes conhecidos. Há muitos que desconheço e que podem captar altíssimo. O filho do Noblat, da banda Trampa, conseguiu R$ 954 mil. No audiovisual há muitos outros que foram liberados para captar mais. Aqui o link.


Por que escolher Bethânia para bode expiatório? Por que, dentre todos os nossos colegas (autorizados ou não a captar o que quer que seja), ninguém levanta a voz para defendê-la veementemente? Não há coragem? Não há capacidade de indignação? Será que no Brasil só há arremedo de indignação udenista? Maria Bethânia tem sido honrada em sua vida pública. Não há nada que justifique a apressada acusação de interesses escusos lançada contra ela. Só o misto de ressentimento, demagogia e racismo contra baianos (medo da Bahia?) explica a afoiteza.


Houve o artigo claro de Hermano Vianna aqui neste espaço. Houve a reportagem equilibrada de Mauro Ventura. Todos sabem que Bethânia não levou R$ 1,3 milhão. Todos sabem que ela tampouco tem a função de propor reformas à Lei Rouanet. A discussão necessária sobre esse assunto deve seguir. Para isso, é preciso começar por não querer destruir, como o Brasil ainda está viciado em fazer, os criadores que mais contribuem para o seu crescimento. Se pensavam que eu ia calar sobre isso, se enganaram redondamente. Nunca pedi nada a ninguém. Como disse Dona Ivone Lara (em canção feita para Bethânia e seus irmãos baianos): ‘Foram me chamar, eu estou aqui, o que é que há?’

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Cantor, compositor e escritor

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/04/2011 André Morin

    Infelizmente, no mundo inteiro, matérias sem fundamento e cheias de falsas informações são publicadas para vender mais exemplar. Betânia é parte viva da história da música brasileira. Sempre se mostrou correta. Mais respeito com uma artista do nível dela, por favor!

  2. Comentou em 31/03/2011 MARCOS PROFESSOR

    NÃO QUESTIONO A CAPACIDADE DE NINGÉM, MAS PENSO QUE A NECESSIDADE QUE EXISTE PARA AS CRIANÇAS BRASILEIRAS NÃO É POESIA E SIM EDUCAÇÃO BÁSICA, ENSINAMENTOS SOBRE RESPEITAR O PRÓXIMO, MATEMÁTICA, PORTUGUÊS. QUE TAL TRANSFERIRMOS ESSE DINHEIRO, QUE É CAPTADO ATRAVÉS DESSES PROJETOS, PARA EDUCAÇÃO? PORQUE NÃO ENTENDO COMO UMA VERBA QUE É DESTINADA PARA A CULTURA DA POPULAÇÃO SEJA USADA PARA PRODUZIR UM CD E DEPOIS O MESMO AINDA SER VENDIDO. PORQUE É QUE NINGUÉM ENTREVISTA OS PROFESSORES DE EDUCAÇÃO BÁSICA PARA SABER COMO E ONDE DEVE-SE APLICAR UMA VERBA DESTINADA A CULTURA OU EDUCAÇÃO?

  3. Comentou em 29/03/2011 Rogério Rodrigues de Alcântara

    Entendo que a questão exposta no texto não é a captação do 1.3mi em sí pois – como bem explica Caetano – ela não ocorreu. Mas sim a maneira com a informação é apresentada, manipulada e descontextualizada.

    O que Caetano defende não é o projeto em sí, mas sim, que a informação seja transmitida de forma clara, para que o público possa fazer um juizo correto dela. Ou seja:

    1 – Ao invés de afirmar que a Bethânia já embolsou os 1,3 mi, deixar claro que na verdade o projeto foi apenas considerado apto a tentar captar os recursos; Veja bem: não captou! E sim foi considerado apto a captar. Percebem?

    2 – Ao invés de afirmar que o 1,3 mi é o valor do projeto quando, esclarecer que é o TETO do que pode vir a ser captado – permitido pela lei.

    e 3 – Ao invés de afirmar que o projeto consiste em simplesmente ‘ligar a webcam e recitar poemas em casa’, deixar claro que envolve viagens diárias em regiões pobres do brasil a fora, equipe, logística de transporte de equipamento, manutenção e etc.

    Ficou claro o real cerne da questão?

    Em tempo, deixo claro que não sou a favor do projeto – mesmo por que não o lí na integra. Mas sou terminantemente CONTRA a manipulação da informação de maneira suja feita por certos meios de informação – formadores de opinião – que, em seu afã ganhar audiência, cruxifica qualquer um, impossibilitando uma defesa justa e digna.

  4. Comentou em 29/03/2011 Ricardo Nascimento Pereira de Souza

    Quanto às cutiladas de Caetano a Folha e Veja (e até os chiliques temperamentais), tudo bem…(Lobão deve ser desafeto antigo, o tabefe foi certamente desferido pela iconoclastia do músico independente). Se toda a discussão engendrada sobre a validade dessa lei de incentivo cultural se deu somente agora quando a bocada foi para o colo de Bethânia e sequazes, creio que isso surgiu por 2 motivos evidentes: 1)Bethânia chama a atenção devido à relevância cultural de seus feitos e 2)o R$1,3 milhão captados em exorbitância para os nossos padrões sociais levando-se em conta nosso descalabro social e o poder aquisitivo da população brasileira. Quanto ao valor, Gaspari na referida Folha afirma que para a intérprete ficará a bagatela de R$600 mil… que, no fim das contas, sai do bolso do contribuinte, uma vez que a empresa patrocinadora consegue isenção, na maioria esmagadora dos casos, de 100% nos tributos ao leão e publicidade nobilitante visto que atrela ao nome uma causa cultural.
    A lei Rouanet, embora imperfeita em sua natureza, é um dos poucos, senão único, meio de incentivo à cultura neste país de agruras e monstros como Faustão, BBB e congêneres. Há muito o que caminharmos nos liames jurídicos para o enaltecimento de nossos maiores patrimônios: educação e cultura. Mas… fica uma coceira… quanto tempo, horas semanais, Bethânia vai trabalhar para merecer os 600 mil?

  5. Comentou em 22/03/2010 aline fernandes ribeiro fernandes

    preciso do numero para entrar em contato

  6. Comentou em 18/08/2009 Ivanilton Cedraz

    É assustador o quadro politico que se observa no Legislativo Nacional, seja Senado Camara Federal ou Estadual e Camara de Vereadores o que se vê é um completo desrespeito com os eleitores e eles chegam a afirmar que estão se lixando com a opinião pública, Vale a pena continuarmos com essa farsa?

  7. Comentou em 19/04/2007 Hidaiana Rosa

    Gostaria de saber mais sobre esse tema, que hoje, está influenciando vários fatores ambientais! Como fazer?

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