Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DO ESTADÃO

O linchamento dos movimentos sociais

Por Carlos Eduardo Gomes Marchetti em 22/04/2008 na edição 482

É a luta de classes, estúpido!

Numa clara intenção de fortalecer o discurso favorável ao agronegócio, os ‘colonistas’, numa cajadada só, promovem o linchamento de toda e qualquer luta dos movimentos sociais no campo e ainda defendem o projeto de desenvolvimento/dominação do agronegócio.

Por trás de tudo isso, buscam estabelecer as bases de um modo de produção específico que atendam a tal projeto. Além da sempre atual luta pela reforma agrária, os movimentos sociais pelejam para impedir a nova jogada do capital: institucionalizar o cultivo de sementes transgênicas.

No texto-base que serviu de incentivo para este artigo, Denis Lerrer Rosenfield reforça o que foi dito no texto ‘Campo vermelho‘, publicado no Estado de S.Paulo (18/2/2008).

Rosenfield inicia assim o seu texto:

‘O ano de 2008 se revela pródigo, pelo menos em invasões e em iniciativas do MST que procuram pôr em questão a moderna produção agrícola.’

Ao longo do artigo, Rosenfield esquece-se que essa mesma moderna produção agrícola brasileira mantém uma postura exploratória em relação aos trabalhadores do campo, apropriando-se da produção de maneira tão rústica que nos lembra as primeiras manifestações do capitalismo em nosso país.

Questionamentos e golpes

Ainda no próprio texto podemos identificar a separação que ainda rege a disputa política no Brasil:

‘O processo eleitoral faz, portanto, parte de um contexto mais amplo, o do prosseguimento do governo Lula na perspectiva do fortalecimento desses `movimentos sociais´ e de suas propostas de radical transformação revolucionária da sociedade.’

Não é à toa que Rosenfield dedica uma parte de seu texto a explicar os objetivos do governo tucano em equacionar (leia-se: criminalizar) os conflitos.

Seguindo sua cartilha neoliberal, o ‘colonista’ faz o seguinte questionamento:

‘Pergunta-se: será que os produtores agrícolas deveriam dar ao Estado e aos ditos movimentos sociais o resultado de seu próprio empreendedorismo, de seu próprio trabalho? Exige-se isso dos setores industriais, financeiros, de serviços e comerciais? Tais índices são aplicados aos assentamentos?’

Primeiro, o empreendedorismo referido não passa de mera exploração do capital, ou será que o autor não conhece a situação dos trabalhadores das grandes propriedades canavieiras, por exemplo?

Segundo, os setores industriais, financeiros, de serviços e comerciais são combatidos constantemente com a mesma envergadura. Afinal, por que discutimos o golpe dado à CPMF, a manutenção do superávit e os altos lucros dos bancos?

‘Agronegócio é o responsável’

Como se não bastassem as pontuações de Rosenfield, eis que aparece uma pérola em seu texto:

‘O Estadão estampou, há alguns dias, em manchete de sua primeira página, o desmatamento realizado por assentados. As provas são abundantes. O MST, quando desmata, esconde e, no entanto, não deixa de alardear a sua defesa do meio ambiente.’

São desconcertantes as afirmações acima. Quer dizer, então, que devemos condenar o MST pelo desmatamento que realiza? E os madeireiros? E os latifundiários? E as empresas de celulose? E os exploradores da mão-de-obra barata e escrava do campo? Nenhuma menção, afinal, para o PIG (Partido da Imprensa Golpista), a culpa é inexoravelmente do governo e seus supostos aliados.

Sem tardar, o ‘colonista’ parte para o ataque ao dirigente do MST Roberto Baggio e cita o trecho abaixo, reproduzido de uma recente entrevista cedida por este (Baggio) à revista Sem-Terra para, em seguida, qualificar o discurso dos movimentos como miopia ideológica:

‘O agronegócio brasileiro é o grande responsável pela violência, pela contratação de jagunços, milícias armadas, assassinatos de trabalhadores, ameaças à biodiversidade, pressão sobre o Poder Judiciário, destruição da natureza, pelos níveis de pobreza….’

Sócio-torcedor

Sinceramente, não há razão para o questionamento. Não há nenhuma surpresa na passagem destacada pelo ‘colonista’. Afinal, não se trata de situações evidentes da ação do agronegócio sustentado pelo capital?

No entanto, como é de praxe dos representantes desta mídia que aqui se coloca em xeque, não poderiam faltar ataques a outros líderes da América Latina, como Fidel e Chávez. Porém, aquilo que Rosenfield chamou de ‘luz chavista’, poderia ser entendido (pela esquerda) como representação da luta pela terra e contra a exploração histórica prevalecente.

Se as camadas populares dialogam sob a alcunha de entidades representativas e se articulam sobre os mesmos interesses, culpe a História, Rosenfield. Afinal, o capital não faz o mesmo?

Enquanto filósofo, Rosenfield não passa de um ‘colonista’ com carteirinha de sócio-torcedor do PIG.

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Estudante de Jornalismo, Universidade Fumec, Belo Horizonte, MG

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/04/2008 Carlos Eduardo Marchetti

    Uma ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) contra um deputado do PMN apurou que mais de 42 agricultores trabalhavam no engenho da família em condições subumanas.

    No ano passado o Ministério do Trabalho registrou as condições de trabalho na Fazenda Pagrisa, no Pará, onde foram resgatados 1.108 trabalhadores sujeitos à trabalho escravo no local.

    Há 3 anos, Maria de Oliveira, Superintendente do Incra de PE afirmava que a prática da monocultura da cana ocupava 5% dos 40% de terras agricultáveis no Nordeste.

    Em 2007 uma operação de fiscalização do MPT, encontrou cerca de 400 trabalhadores em situação degradante em uma usina de álcool na região de Navaraí (MS). Cerca de 150 trabalhadores eram indígenas.

    Não era objetivo desse artigo discutir as ações do governo federal na área agrícola, mas sim a criminalização dos movimentos ligados à área. Se é visível a ação do governo na questão agrária (como você mesmo diz) bastaria a imprensa notíciá-la, não é mesmo? Essa é a questão, ela não noticia. Por que a imprensa iria confrontar (em termos de debates), numa matéria jornalística, a ação de uma ocupação de terras com os incentivos governamentais via Pronaf por exemplo? Pelo simples fato de que o debate – sobre qualquer tema -não a interessa. Sua opinião pública é forjada.É hegemônica.

  2. Comentou em 27/04/2008 Cyrano Miname

    ‘…ou será que o autor não conhece a situação dos trabalhadores das grandes propriedades canavieiras, por exemplo?…’ , o autor Marchetti certamente desconhece. A gigantesca maioria dos empregados no setor sucroalcooleiro tem garantidos os direitos trabalhistas.
    Já o termo ‘grandes propriedades canavieiras’, é revelador, o conhecimento do autor Marchetti sobre o tema vem unicamente da literatura que conta a história do período colonialista português, regionalizada no nordeste das grandes propriedades canavieiras.
    Todo o texto caracteriza a falta de seriedade dos que tem a responsabilidade de fabricar o ‘conhecimento’ dentro dos ‘movimentos sociais’. são meros fabricantes de textos sem a menor ligação com a realidade, com os fatos verdadeiros, e mesmos com a história.
    O próprio presidente Lula tem divulgado aos quatro ventos a imensidão de terras agricultaveis para produção de alimentos, a gigantesca maioria delas recusada pelos movimentos sociais, principalmente por estarem em regiões ricas, progressistas, com todos os recursos, aonde grandes brasileiros vão, por iniciativa própria, tocar a vida e construir o seu futuro, porém longe dos problemas e repercursão que ocorrem nas invasões de terras produtivas, mas, e daí? qual integrante de movimento social dispensa uma boa briga por uma terrinha valorizada. Terra para quem precisa produzir não é assutno do MST e companhia.

  3. Comentou em 26/04/2008 João Humberto Venturini

    Excelente o artigo de Carlos Eduardo. Esse Rosenfield reflete o pensamento autoritário da extrema-direita hj no país. Escrevi isso na seção dos leitores da Folha de S. Paulo e foi publicado um dia após um outro artigo dele criminalizando o MST e a imprensa por ter dado espaço ao Plinio Arruda Sampaio defender os movimentos sem-teto ter sido publicado. Não adianta, essa galera doutrinada pela gde imprensa não pensa e a cada reportagem distorcida para desfavorecer os movimentos sociais só reforça o preconceito e ódio deles. O filósofo é um deles e têm amplo espaço na mídia para dizer tais baboseiras, mas outro q defenda no mázimo têm umas linhas na parte dos leitores, mas isso na Folha pq o Estadão, sem chance. Esse jornal é o mais conservador de todos.

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