Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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FEITOS & DESFEITAS >

O linchamento dos movimentos sociais

Por Carlos Eduardo Gomes Marchetti em 22/04/2008 na edição 482

É a luta de classes, estúpido!

Numa clara intenção de fortalecer o discurso favorável ao agronegócio, os ‘colonistas’, numa cajadada só, promovem o linchamento de toda e qualquer luta dos movimentos sociais no campo e ainda defendem o projeto de desenvolvimento/dominação do agronegócio.

Por trás de tudo isso, buscam estabelecer as bases de um modo de produção específico que atendam a tal projeto. Além da sempre atual luta pela reforma agrária, os movimentos sociais pelejam para impedir a nova jogada do capital: institucionalizar o cultivo de sementes transgênicas.

No texto-base que serviu de incentivo para este artigo, Denis Lerrer Rosenfield reforça o que foi dito no texto ‘Campo vermelho‘, publicado no Estado de S.Paulo (18/2/2008).

Rosenfield inicia assim o seu texto:

‘O ano de 2008 se revela pródigo, pelo menos em invasões e em iniciativas do MST que procuram pôr em questão a moderna produção agrícola.’

Ao longo do artigo, Rosenfield esquece-se que essa mesma moderna produção agrícola brasileira mantém uma postura exploratória em relação aos trabalhadores do campo, apropriando-se da produção de maneira tão rústica que nos lembra as primeiras manifestações do capitalismo em nosso país.

Questionamentos e golpes

Ainda no próprio texto podemos identificar a separação que ainda rege a disputa política no Brasil:

‘O processo eleitoral faz, portanto, parte de um contexto mais amplo, o do prosseguimento do governo Lula na perspectiva do fortalecimento desses `movimentos sociais´ e de suas propostas de radical transformação revolucionária da sociedade.’

Não é à toa que Rosenfield dedica uma parte de seu texto a explicar os objetivos do governo tucano em equacionar (leia-se: criminalizar) os conflitos.

Seguindo sua cartilha neoliberal, o ‘colonista’ faz o seguinte questionamento:

‘Pergunta-se: será que os produtores agrícolas deveriam dar ao Estado e aos ditos movimentos sociais o resultado de seu próprio empreendedorismo, de seu próprio trabalho? Exige-se isso dos setores industriais, financeiros, de serviços e comerciais? Tais índices são aplicados aos assentamentos?’

Primeiro, o empreendedorismo referido não passa de mera exploração do capital, ou será que o autor não conhece a situação dos trabalhadores das grandes propriedades canavieiras, por exemplo?

Segundo, os setores industriais, financeiros, de serviços e comerciais são combatidos constantemente com a mesma envergadura. Afinal, por que discutimos o golpe dado à CPMF, a manutenção do superávit e os altos lucros dos bancos?

‘Agronegócio é o responsável’

Como se não bastassem as pontuações de Rosenfield, eis que aparece uma pérola em seu texto:

‘O Estadão estampou, há alguns dias, em manchete de sua primeira página, o desmatamento realizado por assentados. As provas são abundantes. O MST, quando desmata, esconde e, no entanto, não deixa de alardear a sua defesa do meio ambiente.’

São desconcertantes as afirmações acima. Quer dizer, então, que devemos condenar o MST pelo desmatamento que realiza? E os madeireiros? E os latifundiários? E as empresas de celulose? E os exploradores da mão-de-obra barata e escrava do campo? Nenhuma menção, afinal, para o PIG (Partido da Imprensa Golpista), a culpa é inexoravelmente do governo e seus supostos aliados.

Sem tardar, o ‘colonista’ parte para o ataque ao dirigente do MST Roberto Baggio e cita o trecho abaixo, reproduzido de uma recente entrevista cedida por este (Baggio) à revista Sem-Terra para, em seguida, qualificar o discurso dos movimentos como miopia ideológica:

‘O agronegócio brasileiro é o grande responsável pela violência, pela contratação de jagunços, milícias armadas, assassinatos de trabalhadores, ameaças à biodiversidade, pressão sobre o Poder Judiciário, destruição da natureza, pelos níveis de pobreza….’

Sócio-torcedor

Sinceramente, não há razão para o questionamento. Não há nenhuma surpresa na passagem destacada pelo ‘colonista’. Afinal, não se trata de situações evidentes da ação do agronegócio sustentado pelo capital?

No entanto, como é de praxe dos representantes desta mídia que aqui se coloca em xeque, não poderiam faltar ataques a outros líderes da América Latina, como Fidel e Chávez. Porém, aquilo que Rosenfield chamou de ‘luz chavista’, poderia ser entendido (pela esquerda) como representação da luta pela terra e contra a exploração histórica prevalecente.

Se as camadas populares dialogam sob a alcunha de entidades representativas e se articulam sobre os mesmos interesses, culpe a História, Rosenfield. Afinal, o capital não faz o mesmo?

Enquanto filósofo, Rosenfield não passa de um ‘colonista’ com carteirinha de sócio-torcedor do PIG.

******

Estudante de Jornalismo, Universidade Fumec, Belo Horizonte, MG

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