Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > FEMININO NA IMPRENSA

O lugar da mulher é….

Por Ligia Martins de Almeida em 29/03/2005 na edição 322

‘No giro de poucas décadas, a mulher veio competir com o homem em todas as suas atividades. Essa alteração substancial no papel da mulher representou uma queda no que se refere à estrutura familiar, mesmo quando ela não abre mão de sua concomitante missão de mãe ou de esposa. A Família, que a Constituição continua considerando a base da sociedade, já não é a mesma, visto como o seu centro referencial sofreu uma inflexão violenta, alterado que ficou o pólo condicionador por excelência de seu equilíbrio, dependente da perene dedicação materna. Diga-se o que se quiser a respeito, o que se deu foi uma diminuição no amor como vivência e convivência.'(O Estado de S.Paulo, 26/3/05)

O artigo do jurista Miguel Reale, a que o Estadão deu o título de ‘A revolução feminina’ e do qual foi retirado o trecho acima, bem que poderia se chamar ‘Lugar de mulher é na cozinha’. Com a desculpa de pedir maior atenção aos direitos da dona-de-casa, o articulista acaba jogando sobre as mulheres toda a responsabilidade sobre a manutenção da família. Como se os homens, a outra e importante metade dessa parceria que se chama casamento, fossem totalmente incompetentes quando se trata de dar carinho, transmitir valores e criar filhos.

Seria interessante saber se a sociedade concorda com essa visão. E, principalmente, descobrir porque a imprensa não dá o mesmo espaço para as mulheres revelarem seus pontos de vista.

É preciso, sim, debater a questão da família, do trabalho feminino e dos direitos da mulher. Cabe à mídia, em grande parte, provocar e mostrar o resultado desses debates. E também discutir o quanto as mulheres estão preocupadas com o fato de ter que deixar os filhos aos cuidados de terceiros, nem sempre preparados, porque precisam – ou querem – trabalhar e fazer uma carreira.

Convém não esquecer que muitas prendadas senhoras, que teoricamente são exclusivamente do lar, usam os mesmos recursos das mulheres que trabalham (creche, transporte escolar, escola full time) para dedicar seu precioso tempo às butiques, clubes e cabeleireiros.

Enquanto os jornais continuarem aceitando posições unilaterais sobre os direitos e deveres femininos, e enquanto as mulheres aceitarem passivamente as culpas que a sociedade joga sobre elas, vamos continuar com os mesmos problemas.

Não adianta as revistas femininas fazerem matérias tentando diminuir a culpa das mulheres que trabalham e deixam os filhos aos cuidados de terceiros; os reportagens que mostram exemplos de mulheres que abriram mão da carreira para criar filhos, optaram por trabalhar em casa, ganhando menos, e que se sentem em paz porque estão cumprindo seu dever.

Coisas de mulher

Esta é mais uma daquelas áreas em que a imprensa falha na sua responsabilidade social. Em vez de culpar as mulheres em editoriais, ou buscar paliativos para a culpa em matérias melosas, seria preciso enfrentar o problema real: homens e mulheres precisam trabalhar para se sentir realizados, precisam trabalhar para se sustentar e manter a família, têm os mesmos direitos e precisam cobrar, do governo e das empresas, o apoio necessário para seu bem-estar e o bem-estar da família.

Discutir em sociedade o papel de homens e mulheres, seus direitos e deveres, deveria ser tema de pauta dos veículos jornalísticos, e não apenas espaço eventual para que um articulista exponha seu pensamento, mesmo que, eventualmente, não seja o mais sintonizado com a realidade que as mulheres, especialmente das mães que trabalham fora.

O artigo de Miguel Reale é uma excelente sugestão de pauta para a imprensa e uma boa idéia de estudos para sociólogos e antropólogos. Quando ele se refere à família, está usando valores dos tempos em que mulheres eram chamadas de ‘o belo sexo’.

Família em que o homem trabalhava e a mulher, criada para o casamento, ficava em casa cuidando dos filhos.

Faz tempo que não é mais assim.

Os filhos de famílias pobres cresceram acostumados a ver pai e mãe trabalhando fora e nem por isso perderam os valores tradicionais. Mas não parece ser esse o tema de discussão do articulista. Ele se refere especificamente às mães de classe média. Seria, então, o caso de estudar a situação específica desta parcela da população. Campo de pesquisa não falta, já que há uma geração pais e mães na faixa de 30 a 40 anos que foram criados por mães que trabalhavam fora.

Que tal uma grande matéria ou uma pesquisa acadêmica para ver que valores essas pessoas receberam em casa e o que estão passando para seus filhos? Será que foram as mulheres que mudaram ou terá mudado a família?

Não está na hora de repensar as responsabilidades de pais, mães, empresas e governos com as crianças tendo como base um novo tipo de família? A imprensa, que dá espaço ao pensamento tradicional, tem a obrigação de discutir o assunto e mostrar que sempre há mais de uma visão para o mesmo tema.

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Jornalista

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