Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O ‘maná’ das ajudas

Por Eduardo R. Gomes em 09/12/2008 na edição 515

Não poderia deixar de intitular este comentário sem parafrasear o excelente artigo de Kennedy Alencar, ‘Lula, Serra e o maná das montadoras‘, publicado na Folha Online (22/11/2008), inclusive porque também tenho tentado trazer à baila pontos semelhantes acerca da indústria automobilística ‘brasileira’, como no artigo ‘Dois recordes e um silêncio‘, publicado pelo Instituto Akatu para o Consumo Consciente, em 24/06/2008.

E, antes de entrar no maná dos demais setores e a ausência de negociações e compromissos com o governo, vale a pena lembrar que faz praticamente cinqüenta anos que muitas das montadoras agora beneficiadas com a ‘ajuda’ de RS$ 8 bilhões dos governos federal do PT e estadual do PSDB para os bancos de financiamento dessas empresas, jamais, vejam bem, jamais, ofereceram garantias de mais de um ano dos veículos que aqui produzem, supostamente com a mesma ‘tecnologia de ponta’ das suas matrizes – assim se anunciam. Nem um mês a mais durante esses cinqüenta anos.

Só montadoras francesas e japonesas, que se instalaram mais recentemente no Brasil, dão garantias semelhantes à que oferecem no exterior, a maior parte das vezes nos mais caros veículos.

Isso é sintoma e evidência do principal problema das ‘ajudas’ que o atual governo tem prontamente oferecido a capitalistas aparentemente ameaçados pela ‘crise’, a essa altura, sem dúvida difícil de qualificar.

Privilégios sem respaldo

Muito tem sido noticiado sobre esse assunto, apontando para um panorama de incertezas, especulando-se freqüentemente se o compulsório chegará aos bancos, se os recursos disponibilizados contribuirão para ‘aquecer’ a economia, sem se notar qualquer resposta mais assertiva.

Por outro lado, tem sido pouco explorado no noticiário o porquê um governo e um presidente que tem fortes raízes sindicais aparentemente sequer tenha cogitado de lançar mão de negociações e compromissos transparentes com os diversos grupos privados que têm sido beneficiados, como os banqueiros, a indústria automobilística, o agro-negócio e outros, como os que foram feitos através das Câmaras Setoriais, em 1992, com muito bons resultados para os setores diretamente envolvidos.

Crise, como bem se sabe, é sinônimo de oportunidade e risco. Parece que o governo federal e pelo menos um estadual estão optando por minimizar o risco dos capitalistas, sem explorar as oportunidades que podem ser abertas para o bem-estar social. A democracia, os cidadãos e os consumidores brasileiros, que estão pagando por estes privilégios, concedidos sem qualquer critério respaldado por nossos representantes (além de também sofrer com a inflação e o desemprego derivados da crise), nunca deram esse mandato às autoridades que elegeram.

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Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense

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