Domingo, 13 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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FEITOS & DESFEITAS >

O ministro turrão

Por Richard Jakubaszko em 15/09/2009 na edição 555

Melhor talvez seja chamar simplesmente de teimoso, esse ministro Minc. As alternativas seriam quase xingamentos, como birrento, quem sabe burro ou ignorante. Pois o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, sugeriu esta semana, mais uma vez, seis alterações no Código Florestal atual para valer quando entrar em vigor o novo Código no final do corrente ano. As mudanças propostas por Stephanes incluem a retirada da proibição do plantio de áreas consolidadas em morros, topos e encostas; a soma das reservas legais com APPs (Áreas de Preservação Permanente); a liberação da reserva legal, com o tamanho da propriedade sugerido pelo ministro em até 150 hectares. Com isso calcula-se atingir 95%, ou até mais, do total das propriedades. Além disso, Stephanes propõe a compensação em outras áreas, em obediência à legislação anterior e, por fim, que as penalizações e multas feitas fora do período devam ser automaticamente eliminadas.

Na avaliação do ministro, 70% do território nacional já é caracterizado hoje como reserva de alguma espécie. ‘Devemos atingir 80% em breve e esse território está todo congelado para qualquer atividade econômica.’ Falando frontalmente contra o Ministério do Meio Ambiente a uma plateia formada basicamente por produtores rurais, Stephanes queixou-se de que o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, não aceita mudar nenhum ponto da atual legislação. ‘Pelo Ministério do Meio Ambiente, não se muda nada, mas precisamos de alterações no curto prazo ou teremos sérios problemas pela frente.’

Não sei se o ministro Minc entendeu o que o colega da Agricultura falou, mas apresso-me a ‘traduzir’ a mensagem: vai faltar comida, ou melhor, a oferta de alimentos vai ser drasticamente reduzida e estes vão ficar muito mais caros. Capisce, ministro Minc?

O ‘otimista’ e a hecatombe

Afinal, o que querem os ambientalistas? Preservar tudo? Agora investem até contra o Cerrado, lamentam através da grande mídia que quase 50% desse ‘magnífico’ bioma, com vocação para ser uma imensa savana, portanto um solo degradado, já foi alterado para a implantação de lavouras e pastagens e ‘acusam’ que é tudo para se ter lucro… A mídia concorda com tudo, parece não ter competência para contestar o ministro que tem ideias mais curtas do que as mangas de seus coletes. Neste caso, a omissão da mídia sobre a tentativa de debate do ministro da Agricultura, é inexplicável. Não encontrei nenhuma notinha nos grandes jornais, nem nas TVs.

Ora, lucro agora é pecado? Talvez ganância, mas seria um pecado venial, até porque a acusação é dessas coisas politicamente corretas, para não dizer capenga e infantil, além de rasteira. O ministro Minc precisa saber que se faz agricultura para produzir alimentos e biocombustíveis, além de fibras, e que estas últimas, depois, viram coletes coloridos para enfeitar o sortido guarda-roupa dele. Alguém aí, que esteja lendo este texto, avise o ministro Minc que alimento não nasce na gôndola de supermercado. Alguém aí avise o ministro e seus amigos ambientalistas que para estancar a oferta de alimentos precisaria reduzir antes o número de bocas que gostam de comida porque o planeta está com 6,7 bilhões de almas, ou melhor, bocas famintas, e vamos aceleradamente para 9 bilhões dentro de 25 anos. Alguém aí avise o ministro de que terá de reinventar a roda do crescimento da economia para garantir emprego aos que vão nascer no futuro breve.

Como vão fazer para reduzir o crescimento demográfico não é problema meu. Apenas sei que é preciso fazer isso. Nesse sentido, por vezes me acusam de ‘catastrofista’, mas informo que tenho um amigo, fazendeiro, que se autointitula ‘otimista’ e diz acreditar que a natureza irá nos pregar uma peça inesquecível dentro em breve com uma hecatombe, virose, pandemia ou sabe-se lá o que, que irá extinguir de um só sopro mais de 2,5 bilhões de bocas do planeta, ‘solucionando’ a questão ambiental e mitigando os problemas para daqui a um século e meio, no mínimo.

Pegue o boné e vá para a praia

Sei lá se vai ou não acontecer tal fatalidade, não tenho bola de cristal, mas talvez fosse melhor que acontecesse, o quanto antes, seja pela providência divina, seja pela ação inconsequente da humanidade com o consumismo e com essa estranha mania de, todo dia, três vezes ao dia, ficar engolindo alimento. Que vício idiota esse, não é mesmo? Nessa marcha consumista não vai sobrar nenhuma árvore na Amazônia daqui a uns 50 anos, querem apostar? Pode colocar um exército de milhões de mincs de braços dados nas bordas de toda a imensa floresta, não vai sobrar uma só árvore para contar a história. Até porque primeiro os madeireiros tiram as árvores de lá, e os fiscais do Ibama, subalternos do ministro Minc, não nos esqueçamos, não estão nem aí: ou deixam os caminhões passar, se ficar uma propina, evidentemente, ou a madeira é apreendida para efeito midiático do ministro dos coletes, que adora aparecer na mídia. Jamais vi uma árvore queimada, esturricada pelas queimadas. Porque os madeireiros passam por lá antes disso, uma eterna coincidência…

É, é melhor avisar o ministro Minc que ele é turrão, é birrento, é burro (porque pouco inteligente) e ignorante (no sentido lato de ignorar) das coisas da vida e do campo. Ou então há comprometimento com outros interesses, inconfessáveis, por sinal, porque o que ele vai conseguir com essa birra e teimosia, é colocar um nó górdio no agronegócio e depois será difícil de desatar, para não dizer impossível. Levem em consideração que não afirmei que o ministro é vigarista – ainda não tenho certeza de que ele mereça esse rótulo –, apesar dele achar o contrário em relação aos produtores rurais que plantam a comida que ele come. Mas depois que come tenho certeza de que ele cospe no próprio prato, é claro, caso contrário seria um incoerente.

Já sugeri uma vez, e repito: pegue seu boné, mas não esqueça dos coletes, e vá tomar sol na sua praia do Leblon, senhor ministro da teimosia. Aproveite e relaxe, faça muita passeata em favor da liberação da sua maconha, talvez a única agricultura possível dentro de sua ótica. Aí, a mídia repercute as suas atividades nessa área.

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Jornalista, editor da revista DBO Agrotecnologia, escritor e blogueiro

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