Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA E LUCRO

O movimento dos sem-verbo

Por Nilson de Carvalho Lattari em 11/09/2007 na edição 450

Nos três artigos anteriores, abordamos a mídia, ou a informação, sobre enfoques diferentes: a informação como uma mercadoria, a informação como manipuladora da ‘vontade geral’, e a forma de expressão na narrativa do debate político entre opositores de opinião.

A comunhão destes três assuntos tem uma razão de ser. No mundo business, a técnica na venda de produtos cada vez mais é o fato marcante. No mundo da sobrevivência capitalista, o lucro, como forma de sobrevivência se torna, como é sabido, o objeto de desejo que está por trás de qualquer programa de excelência.

Os programas empresariais embalados pelos japoneses, como o sistema S, nada mais foram do que procurar encarecer os produtos produzidos em alguns países asiáticos (conhecidos como ‘tigres’), que passaram a copiar as mercadorias japonesas de sucesso e consagradas. Para compensar os baixos custos da mão-de-obra, foram criados mecanismos de busca de qualidade e de condicionamentos de parcerias que pudessem compensar esses custos, obrigando uma melhora na qualidade e assim procurar um nivelamento de preços.

A preocupação ambiental, por exemplo, não era um lugar-comum nas empresas. A guinada ecológica deu-se pelo esclarecimento da população, que viu na preservação do planeta um motivo de busca de qualidade. Essa conscientização do público que adquire produtos, e por ser de uma fatia de renda maior, tornou-se o libelo diferencial das empresas, interessadas em seus balanços.

Público especializado

O mercado, portanto, detecta movimentos, se antecipa aos desejos do consumidor, mas tudo visando a nada mais nada menos do que preservar lucros e fatias de mercados.

Numa linguagem moderna de competição, qualquer vendedor, de qualquer produto, de qualquer empresa, precisa respirar metas. Ao ouvir uma conversa, uma notícia, uma leitura, um comentário político ou econômico, deverá sempre o profissional atento se perguntar: minha empresa pode ganhar dinheiro com isso? Eu poderia ganhar dinheiro com isso?

Nesse ambiente de negócios em que vivemos, somos vendedores em potencial. Já nascemos vendedores ou, pelo menos, manipuladores estratégicos visando a atingir o objeto de desejo. Para vender algo, necessitamos saber primeiro o que o nosso cliente quer. Estratégicos no poder de barganha, quando choramos no berço e pedimos colo. Quando mentimos para enganar a professora e conseguir uma nota melhor. Quando partimos para nossa primeira conquista amorosa e procuramos saber tudo sobre o nosso objeto de desejo – qual o nome, onde mora e, principalmente, do que gosta.

Neste ponto, saber do que nosso objeto de desejo gosta, nos adaptamos, aprendemos a discutir com propriedade aquele assunto, nos tornamos defensores dele, mesmo a contragosto, porque precisamos daquilo, aquilo é o que queremos.

Portanto, o nicho de mercado é a meta que queremos alcançar. Com a informação se dá o mesmo. Como vimos, a informação seria uma commoditty, um produto básico. E, na maioria das vezes, é vendida de acordo com a vestimenta que o cliente quer. De uma forma discreta, com uma diagramação elegante, visando a atingir um público selecionado, de poder aquisitivo e com grande capacidade de informação (aí, incluímos a dita ‘grande imprensa’). De uma forma popular, com uma diagramação chamativa, colorida, com manchetes exageradas (aí, incluímos os jornais mais populares). Para um público mais especializado, mais depurado (aí, incluímos os nanicos ou mesmo os jornais específicos de negócios, por exemplo). Ou seja, assuntos são mais preparados do que outros. Uma evolução importante do câmbio ou a invasão policial e a prisão de um traficante tem níveis de interesse diferentes, em cada um dos jornais.

Espelho político

Portanto, a mesma informação é preparada para cada tipo de clientela e embalada de forma diferente.

Na formalização da conquista, os desejos extrapolam determinados limites na abordagem. Isto fica exacerbado quando o vendedor procura formar a ‘vontade’ do consumidor partindo do pressuposto de que seu produto é bom e o comprador não o aceita por ignorância ou má vontade.

A postura de dentro para fora da mídia, detentora do produto informação, ajudou a construir com o tempo que o consumidor do produto, o leitor, o ouvinte ou o telespectador é um ser que estaria sempre pronto a aceitar os argumentos propostos, levando a mídia assim a acreditar que era dona dessa ‘vontade’.

Muitas vezes, ela apenas enumerava, suprimia fatos, a fim de construir uma ‘verdade’, ignorando as discussões, certamente acaloradas, que se desenvolviam nas ruas.

Na década de 70, em pleno regime militar, dois jornais, no Rio de Janeiro, disputavam a opinião das ruas: o Jornal do Brasil, pelos opositores, e O Globo, pelos conservadores. Pelo menos assim os dois jornalões eram apresentados à platéia.

Nas patrulhas ideológicas, o JB era visto como a leitura in e O Globo como a leitura renegada. As platéias se dirigiam aos seus periódicos no intuito de se retro-alimentar de argumentos para as discussões. O público lia, assim, o próprio espelho político.

Uma paz relativa

O mais esclarecido possivelmente lia o opositor, porque ao invés de se ler no espelho procurava saber o que o outro lado pensava. Portanto, um instrumento de defesa construído com independência.

Esse processo presentificou cada vez mais o público cativo, aquele que consumia toda a literatura específica para cada tipo de pensamento. Ou seja, era o que chamaríamos hoje de tribos. Alimentar este público com palavras, discursos prontos e, principalmente, a propagação de literaturas afins, favorecia um comércio próspero.

O emprego de uma narrativa que visava a mostrar o lado maligno da oposição foi o processo empregado, se bem que, voltando a falar da década de 70, tudo o que fosse possível apurar de mal do outro lado era o embasamento firme para persuadir o público que vivia no ‘limbo’ da informação.

Naquela época tudo se justificava, tendo em vista que o objetivo da oposição era enfraquecer a ditadura – e, pelo outro lado, seu fortalecimento. Eram objetos de desejo divididos em uníssono. Havia comunhão de pensamentos, o que facilitava o trabalho dos articulistas de ambos os lados.

Havia uma paz relativa, com as fatias de mercado bem definidas. Afinal, tudo de mal era atribuído a uma situação ditatorial e, por outro lado, a oposição ainda não estava no poder e, portanto, ainda imaculada em termos administrativos no governo federal.

Mercado certo

Chegamos, enfim, a uma tentativa de explicar o que ocorre hoje no mercado da mídia. A geléia geral política, definida por Ulisses Guimarães, finalmente se desfez. A oposição, no sentido de oposição em relação à década de 70, foi distribuída por partidos com diferentes ênfases ideológico-administrativas.

Como a classe política, o público se definiu e se rearranjou aderindo a diversas facções. Essa divisão exigiu desse público uma procura por discursos com os quais se identificasse.

O mercado da informação partiu assim para uma distribuição de produtos que pudessem satisfazer esse mercado de consumo. As discussões das ruas foram procurando os seus ‘líderes’, aqueles que se dispusessem a ‘vender’ um discurso que se adequasse às necessidades do público sem-verbo. Ou seja, o público que sentia alguma coisa de certo ou errado, mas, por insuficiência intelectual, ou de acesso às mídias, não podia sentir na telinha ou na página do jornal que seus sentimentos se pudessem agregar a outros com a mesma linha de pensamento e, finalmente, se sentisse como pertencente a um grupo de pensamento.

Com oportunidade, alguns profissionais de imprensa percebem esse mercado consumidor e se prontificam a colocar a serviço desses grupos a habilidade discursiva e o pano de fundo da mídia impressa, televisionada ou a radiofônica e, mais presentemente, a internet. Foi por esse motivo que a idéia da interatividade entre público e mídia tomou fôlego dos últimos tempos. Público cativo, mercado certo.

Gato por lebre

O profissional de imprensa, mais que rápido, percebe os nichos de mercado que afloram na interatividade e a necessidade de expressão desses grupos.

Lógico que o movimento dos sem-verbo significa mercado consumidor seleto e definido nas suas ideologias. A mercadoria-informação torna-se um forte produto de venda agregada. O grupo de descontentes com o Brasil como país que nunca vai dar certo, uma eterna bagunça, o grupo dos que acreditam, os otimistas, o grupo de apoio à situação e o grupo da oposição e mesmo aqueles que não se interessam por política, os famosos alienados. Todos eles passam a significar dinheiro.

Os leitores passam a se tornar fiéis de determinados colunistas, blogs, sites. E por que não vender o que eles desejam?

A demonização da narrativa passa a ser o fio condutor da propaganda discursiva. Quanto mais um blog é alimentado por opositores e simpatizantes que se xingam mutuamente e não levam a lugar nenhum, o colunista da vez preocupa-se em alimentar seu público com argumentos fortes. Por outro lado, o público que procura uma informação mais distanciada das discussões acaloradas, perto dos argumentos elucidativos ou da informação ‘limpa’, distante das linhas ideológicas, também é um mercado consumidor potencial. Tudo é lucro. O público vai às compras, procurando a marca, o produto que lhe interessa consumir.

Portanto, não é difícil imaginar que um profissional de mídia, identificando um determinado grupo de pensamento, como, por exemplo, o que gosta de menosprezar o Brasil como nação, de menosprezar os políticos, de enxergar corrupção em todo lugar, ou mesmo de enxergar o otimismo em todo lugar, incorpore um personagem que possa dar voz e razão a estes grupos.

Vendido o personagem, o consumidor compra a idéia porque ela se identifica com o seu modo de pensar. Tem o seu cheiro e lhe proporciona argumentos não imaginados para interagir com outros pares ou opositores e quanto mais o personagem é odiado ou amado, mais o dono dele pode auferir lucros como um vendedor que satisfaz o objeto da conquista fazendo o seu público vibrar e ouvir a música que gosta. Multiplicando essa audiência por livros, conferências, podemos crer que se trata de um mercado promissor. O problema é comprar gato por lebre e parar de pensar.

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Aposentado, pós-graduado Estudos Literários, Juiz de Fora, MG

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