Quarta-feira, 25 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº984
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FEITOS & DESFEITAS > MORTO EM VIDA

O mundo da imprensa, à própria imagem

Por Lúcio Flávio Pinto em 15/04/2008 na edição 481

Os jornais paraenses cultivavam o mau hábito de não respeitar colunas e artigos de terceiros, nem mesmo quando o material, devidamente assinado, lhes é repassado pelas agências de notícias. Quando alguma nota ou comentário desagrada o dono do jornal, costuma ser suprimida sem dó nem piedade – e sem a autorização do autor. A exclusão integral da coluna ou do artigo é uma violência menor, mas a retirada de um tópico constitui o cúmulo da infração ética e moral.

Os tempos, porém, passaram a mudar. O Liberal, que me tem como morto em vida, vetando minha existência em suas páginas (interditada em qualquer espaço dos demais veículos das Organizações Romulo Maiorana), foi obrigado a reproduzir referências a mim feitas pelos colunistas Elio Gaspari e Miriam Leitão. A empresa tentou obter autorização para a podagem nos textos, mas foi advertida para as conseqüências do ato. Além da perda das colunas, uma reprimenda da agência do jornal O Globo, elo das Organizações Roberto Marinho, que incluem a TV Globo, madrinha e medianeira da televisão dos Maiorana. As colunas saíram tal como foram escritas, constituindo-se em exceção nas páginas de O Liberal, meu túmulo toponímico (ainda simbólico, felizmente).

O Diário do Pará também praticou essas extirpações, que lhe acarretaram perda de colunas (como a de Cláudio Humberto, que se passou para o rival e nele se mantém). Mas nos últimos tempos o jornal tem feito um evidente esforço para conviver com as matérias desfavoráveis ao seu dono, o deputado federal Jader Barbalho. Recentemente, o Diário reproduziu, tal como no original, nota de abertura do ‘Informe JB’, do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, tratando o líder do PMDB paraense por ‘famigerado e enrolado’.

Universo fechado

‘Repórter 70’, principal coluna de O Liberal, de pronto chamou logo a atenção dos seus leitores, tanto para o conteúdo do ‘Informe’ quanto para a circunstância de a nota ter sido ‘reproduzida integralmente pelo jornal que a publica diariamente’. O objetivo do adverbial redator dos Maiorana era constranger o concorrente, atingindo sua sustentação política.

O leitor atento do ‘R-70’, porém, podia ser levado a fazer uma pergunta automática: um comentário contra Romulo Maiorana Júnior, o principal executivo das ORM, sairia nas páginas de O Liberal, com as características das críticas feitas pelo JB a Jader Barbalho, acatadas pelo Diário? Onde há algum arremedo de pluralismo: nos veículos do ex-governador ou nos do ex-quase-futuro imperador da mídia? Alguém já leu, viu ou ouviu um ai que fosse contra Rominho nas páginas do jornal da casa ou nas suas emissoras de rádio e de televisão?

Como os Maiorana costumam achar que o que não aparece nos seus veículos não existe no mundo, tomam esse universo fechado e controlado por amostragem do todo. Era o método de Maria Antonieta para sondar a realidade – até chegar à guilhotina. Deseja-se que, no caso dos Maiorana, a surpresa não chegue a tanto.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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