Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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FEITOS & DESFEITAS > TV DIGITAL

O novo celular do presidente

Por Nelson Hoineff em 11/03/2008 na edição 476

O presidente Lula foi na terça-feira (4/3) à fábrica da Samsung, em Campinas (SP). Saiu de lá com um celular V820L, preparado para receber o sinal da TV digital. O telefone será colocado à venda em abril, inicialmente só em São Paulo. Ele está apto a receber o conteúdo das sete principais redes de televisão do país. Quem tiver dinheiro para comprar o aparelho dentro de um mês (em um ano o seu preço cairá pela metade) vai acessar a TV aberta da mesma forma com que hoje o faz em casa. É a primeira propriedade da TV digital terrestre que pode fazer sentido para o consumidor brasileiro.

Quando o presidente sintonizar seu receptor, no entanto, corre o risco de se decepcionar. A imagem será boa, mas o conteúdo não será diferente do que ele já deve estar cansado de ver no Palácio da Alvorada. É aí que mora o perigo.

A verdade é que a TV, tal como a conhecemos agora, está perdendo relevância com espantosa velocidade. Envelheceu sem se dar conta disso. Quando tenta ser ‘jovem’ torna-se com freqüência patética. Os ‘nativos digitais’ não querem saber dela há muito tempo. Perceberam que têm o direito de escolha, o que era impensável para seus pais.

Há controvérsias, é claro. O ministro das Comunicações, Helio Costa, por exemplo, acredita que a televisão brasileira é um modelo para o mundo. Falando na quarta-feira (5/3), no Acel Expo Fórum, em Brasília, ele revelou que ‘a televisão na Europa é ruim; é horrível. O povo europeu odeia televisão. E isso não acontece no Brasil. A nossa televisão é muito boa’. E sentenciou: ‘O nosso conteúdo como está hoje é muito atrativo’.

Não é o que acham os jovens e, em escala crescente, o resto da população. Por isso a internet consolida-se rapidamente como o principal meio de informação da sociedade. O Brasil tem hoje 40 milhões de internautas. A eles se somarão mais 5 milhões até dezembro. Isso está bem longe do pequeno nicho ao qual até ontem a internet era associada. Cerca de 40% dessas pessoas está na classe C. A internet deixou de ser coisa da elite. Chegou aonde só a televisão e o rádio chegavam. A televisão não tem opções. Ela e todas as formas de distribuição de produto audiovisual têm que suportar uma convivência incômoda.

180 graus

Não é a substituição de um receptor de TV por um monitor de computador que estabelece a diferença entre a televisão de ontem e a televisão de amanhã. É a maneira como o usuário é capaz de interagir com a tela que está na sua frente, de encontrar nela o que efetivamente está procurando. As pessoas aprenderam a procurar – o que é muito diferente de escolher entre o que lhes é oferecido.

Temos que admitir que, no século 21, não é muito normal que uma pessoa saudável esteja procurando o Faustão, o Gugu ou assemelhados. O público mostra isso todos os dias, empurrando a programação tradicional para patamares de audiência muito inferiores aos que ela operava há menos de cinco anos. Transmitir essa mesma programação em alta definição não vai fazer muita diferença. O público também sinalizou isso. As transmissões digitais, que começaram em dezembro no ano passado, simplesmente não decolaram.

O que pode fazê-las decolar? No topo da lista está a mobilidade e a portabilidade. Se o presidente Lula fosse de ônibus para o trabalho, já poderia ver televisão enquanto se acotovelasse entre os outros passageiros. Isso faz um bocado de diferença. O momento de ver televisão não é mais o espaço entre a hora que um trabalhador chega em casa e a que ele vai dormir. É o tempo em que ele está no transporte ou fazendo um lanche. Tal possibilidade representa uma guinada de 180 graus no que o público e o mercado entendem por ‘horário nobre’ – que gera 80% da receita de qualquer rede de televisão aberta.

Anseios diferentes

A televisão aberta, a televisão fechada e, agora, todos os mecanismos emergentes de distribuição de conteúdo audiovisual falam com segmentos distintos da sociedade – e o que falam é bastante diferente. Não há nada de errado nisso. Na verdade, o que as emissoras mais temem é justamente o que poderá salva-las: a transformação do modelo de negócios praticado há 60 anos. Durante todo esse tempo, a televisão domesticou sua audiência. As novas gerações disseram que não querem ser parte disso. O que elas estão demonstrando é que públicos plurais demandam modelos plurais de construção de conteúdo.

A capacidade de transmissão para receptores móveis e portáteis é um exemplo paradigmático. Demanda novas formas de conteúdo, mas vai além disso. Exige fontes bastante diversificadas de produção e mecanismos que atendam a elas. É um sintoma do que acontece com todas as outras possibilidades de provimento de conteúdo audiovisual.

O novo celular que o presidente tem no bolso é semelhante aos gadgets que todos os brasileiros terão. São brasileiros de idades diferentes, níveis educacionais diferentes, classes sociais diferentes, anseios diferentes. Diante da possibilidade de opção, eles não têm razão alguma para estar querendo consumir a mesma coisa.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/01/2010 Fernando Ferrari

    E aí, nenhum comentário da Capa da Veja e da Época??
    Já descobriram quem copiou quem??
    Isto não seria um caso de espionagem??
    Fico no aguardo.

  2. Comentou em 12/03/2008 Edson Yamada

    Voltamos ao ponto inicial da história quando esperávamos qual seria o padrão a adotar no Brasil. O modelo escolhido era o mais criticado por restringir a produção de novas fontes e privilegiar as emissoras já existentes. E dizem que o pior defeito foi o fator determinante da escolha já que o ministro era um egresso de uma dessas emissoras.

  3. Comentou em 12/03/2008 Koala Mineira

    AO ‘MAX SUEL’. Já fz algum tempo…. vi uma entrevista do FHC, mostranto o acervo que adquiriu durante seus mandatos, os mais variados presentes que ganhou… Mostrou inclusive o projeto do Museu q iria criar… Não sei em que pé está isso… Mas p/ começar um acervo com um celular fica meio complicado, não???

  4. Comentou em 12/03/2008 Nilton Bergamini

    Enquanto a mídia não se der conta de que a maioria de sua programação está se tornando alienada e irrelevante, vai continuar perdendo audiência e espero que perca muita grana com isso. Pois só assim vão parar de subestimar o telespectador e implantas qualidade, tanto técnica quanto intelectual.
    Também não gosto de entrar nesse tipo de assunto pois é dar ‘pano pra manga’ e atenção pra quem não merece. Mas o Sr. engenheiro Max Suel sempre distoa o comentário do assunto principal. Sempre querendo criar polêmica onde e nem como deve haver. Ou age de má fé ou simplismente não há interpretação de texto na faculdade de engenharia.
    Tem que ter muita paciência…

  5. Comentou em 12/03/2008 Luciano Prado

    Max Suel , SP-SP – Engº – Não tarda, vão te internar. Para de escutar o PIG.

  6. Comentou em 11/03/2008 Max Suel

    Ô Tiago de Jesus ….. você não faz juz ao nome que recebeu. Que maldosinho. Tudo tem uma medida. Se o nobre pres Lula visita uma loja da H. Stern joalheiros ele pode receber um anel de brilhantes de presente ? As perguntas são pertinentes. Um jantar não se compara com um presente.

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