Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > IMPRENSA PARAENSE

O ovo da serpente

Por Lúcio Flávio Pinto em 12/08/2008 na edição 498

Quem podia supor que um jornal do porte de O Liberal publicaria a foto de uma cabeça separada do resto do corpo pela explosão de um carro, que se acidentou em uma das perigosas estradas do Pará? Pois isso aconteceu, no paroxismo da guerra da imprensa por leitores e anunciantes. O fato é grave. E é uma advertência ao futuro.

Decidi escrever o presente artigo para a primeira página desta edição como o escreveria num jornal verdadeiramente pessoal: na primeira pessoa do singular. A decisão me veio enquanto contemplava uma das três fotos da capa do caderno de polícia de O Liberal de 28/7. A primeira fotografia, a maior, pegava em close o rosto sem vida de Jacilene Holis. Ela era uma das quatro ocupantes de um EcoSport que voltava de Salinas para Belém, três dos quais (o namorado dela e uma amiga) morreram quando o automóvel se chocou de frente com um Vectra, que ia na direção contrária. Há hematomas e sangue no rosto de Jocilene, mas, como ele está quase intacto, sua expressão é normal. Abaixo, ao lado, a foto do carro que a transportava, destruído.

As imagens são de causar impacto, mas não discrepam da hemorragia desatada em que se transformaram as páginas policiais da imprensa paraense. A lancinante foto ao lado é que me causou arrepios. Só não me fez chorar porque o estupor e a indignação foram maiores. Dentro do Vectra calcinado, no lugar do motorista, vê-se apenas a cabeça de um esqueleto, atirada ao assoalho nu, despido de tudo que ornamentava o veículo pela ação do fogo. Olhei diversas vezes, em estado de choque, até me convencer que um jornal do porte de O Liberal, durante longos anos o dono do mercado, que se declarava o maior do Norte e Nordeste do Brasil, se permitira publicar aquela foto macabra, nojenta, imunda, sórdida.

Não se tratava de um corpo despojado da sua pele ao longo de dias, meses ou anos, descoberto por acaso. Aquele resto de ossos ainda devia estar quente. Poucas horas antes (talvez duas ou três), a dona daquele corpo era uma jovem bonita, cheia de vida, que atendia pelo nome de Roberta Freitas, de 27 anos. O crânio resistira a uma forte explosão, seguida de incêndio feroz: a parte superior da sua arcada dentária fora preservada, o que permitiu a identificação da moça que dirigia o carro, um Vectra novo, comprado havia menos de um mês. Roberta foi a primeira a ser enterrada.

Texto frágil

As famílias de suas quatro acompanhantes, jovens e bonitas também, tiveram que conviver ao longo da semana com a sofrida e penosa identificação dos cadáveres. Apenas mais uma delas tinha algum dente para a reconstituição da arcada. As três últimas tiveram que ser identificadas pelo DNA de algum resto de tecido que sobreviveu ao acidente. Já não podiam mais ser vistas como seres humanos: eram despojos de uma tragédia.

Foi a maior do sangrento final de verão de 2008 e uma das mais chocantes dos últimos tempos no Pará: 17 pessoas perderam a vida em acidentes nas estradas paraenses, praticamente metade na colisão entre o Vectra e o EcoSport. Das oito vítimas, sete eram mulheres, na faixa entre 20 e 31 anos. No mesmo dia do acidente, que aconteceu quando a tarde do último domingo do agitado julho nas praias começava a declinar, o Diário do Pará publicou no tablóide Top uma página com quatro fotos de Roberta, em todas elas de biquíni, sorridente e desinibida.

Roberta era ‘a musa verão 2008’. As razões, explicava o colunista Robson Lima, amigo da bela mulher e responsável pela sua escolha: ‘A musa fez muitos marmanjos babarem e deixou as garotas com aquela pontinha de inveja por tamanha beleza’. Em Salinas, onde curtiu as férias, Roberta ‘dançou muito nas barracas mais badaladas’ e, ‘como não podia deixar de ser, arranjou o seu namorado de verão’.

Roberta provou, segundo o colunista, que ‘beleza e simpatia podem muito bem caminhar juntos’. Não merecia que sua imagem final (aquela que se costuma considerar como a que fica na memória) fosse a de um crânio de caveira, separado do resto do corpo e destroçado, como os corpos das quatro amigas, pela inacreditável explosão do veículo. O que ganhou O Liberal com essa cínica demonstração de desprezo pela dignidade do ser humano? Vendeu mais jornal? Vendeu mesmo?

A força chocante da imagem contrastava com a fragilidade do texto. Mal apurado, ele dizia que os cinco passageiros do Vectra constituíam uma família, ‘incluindo pelo menos uma criança’, e que as vítimas ‘não tinham sido identificadas’. O concorrente Diário do Pará não só identificou as cinco jovens como publicou as fotos (em vida) de todas, obtidas no orkut, o canal de relacionamento na internet, além de catadas no próprio arquivo do jornal .

Prática viciada

Graças a esse ‘furo’ inicial, o Diário manteve uma cobertura melhor e mais humana do acidente nos dias seguintes, embora cometesse uma ‘barriga’ monumental: anunciou a morte da nona vítima da colisão, Daniele Oliveira de Campos, a única que sobreviveu no EcoSport, justamente quando ela travava uma luta feroz pela vida na UTI do Hospital Metropolitana graças a aparelhos, que mantinham suas funções vitais. Ameaçado de processo pela família, o jornal tratou de atribuir o erro de informação a uma fonte ligada à própria família, que cedera imagens no dia do acidente.

O jornal da família Barbalho pagava também o preço pela sofreguidão que a imprensa paraense manifesta diante de fatos de previsível impacto perante a opinião pública, sobretudo os trágicos. Nesses momentos, os jornalistas mal conseguem evitar que os personagens dos acontecimentos os encarem como predadores, sejam abutres ou hienas. É uma questão nacional e internacional permanente e já teve suas fases agudas. Na maioria dos veículos de comunicação a definição editorial mais sensata permitiu que a cobertura fosse feita sem exageros de sensacionalismo, mantendo certo padrão ético.

A própria imprensa do Pará parecia estar seguindo essa saudável tendência quando, não por acaso a partir da disputa mais acirrada entre os dois grupos dominantes da comunicação local, o dos Maiorana e o dos Barbalho, houve uma regressão aos piores momentos do passado – e, mais do que isso, superando tudo de ruim que já se vira. Todos justificam o sensacionalismo crescente com o argumento de que o público, sobretudo o das camadas ditas mais baixas da população, gosta de sangue e tragédia. Só com essa motivação ele se dispõe a comprar jornais, expandindo a comercialização por essa faixa da população, à qual os impressos têm dificuldade de acesso. Seria o preço inevitável para vender mais jornal, escapando à crise universal dos impressos.

Ainda que esse argumento fosse verdadeiro, devia esbarrar em critérios editoriais mais respeitáveis. As duas corporações de comunicação podiam estabelecer e acatar regras de convivência na selvagem competição na qual vivem hoje. Cadáveres frontais e outras imagens semelhantes podiam ser expurgados das páginas dos jornais por acerto mútuo, em consideração à função cívica, educacional ou cultural que cabe à imprensa desempenhar na sociedade. Sob pena de perder a condição de instituição e se reduzir a um balcão de negócios.

Haveria perda de leitores? Talvez sim, talvez não. Certamente o público atual estreitaria, sobretudo nas faixas C, D, e E, se simplesmente o noticiário policial desaparecesse (só nele o povão é personagem de destaque). Mas não desapareceria, se a imprensa deslocasse seus melhores repórteres para trabalhar nesse setor. Os jornalistas costumam virar o nariz para a reportagem policial, de prática bastante viciada em regra. Mas raros foram os grandes repórteres que não testaram suas qualidades em matérias carimbadas pejorativamente com o sinete policial.

Código de conduta

Os bons repórteres em atividade sempre voltam a esses temas, de maior impacto ou que têm maior poder simbólico. Para melhorar essa cobertura, as empresas podem evitar a setorização, que gera mais efeitos maléficos do que benéficos. Conseguirá abordagens melhores na ‘reportagem policial’ através da alternância de jornalistas, recrutados na ‘geral’, e indicando os melhores para participar de coberturas especiais (eles se tornam melhores exatamente por isso).

Muitos jornais perceberam que o acompanhamento sistemático dos registros policiais tem como seu melhor resultado proporcionar uma cobertura de qualidade: só os fatos de maior repercussão social devem merecer publicação mais destacada, com capricho. O Jornal da Tarde, o vespertino de O Estado de S.Paulo, foi um dos que abriu essa trilha pioneira (com Percival de Souza), na qual muitos seguiram e nela se mantêm até hoje.

Mesmo os jornais de inclinação mais sensacionalista em tudo que se refere aos fatos humanos, como os tablóides londrinos, compensam o exagero nos espaços abertos e no enfoque adotado para esse tipo de reportagem com o cuidado na apuração das informações. Só costumam publicar depois de apurar os dados que lhes são repassados. Sabem que a invenção ou mesmo a inexatidão pode ser punida com caros processos de indenização.

Talvez esse seja o caminho que as pessoas devam seguir, conforme ameaçava a família da vítima que teve a morte anunciada com precipitação, para colocar a imprensa diante de responsabilidades que não assume espontaneamente. Quando se trata de jornais, porém, o cidadão comum reluta em tomar tal iniciativa, por receio de represálias. O Ministério Público do Estado, sem avançar um milímetro sobre a liberdade de imprensa, podia convocar os veículos de comunicação para induzi-los a definir um código de conduta sobre o noticiário policial e, em particular, as fotografias de cadáveres.

Esta se tornou uma questão grave no Pará, um dos Estados mais violentos da federação. Seria hipocrisia impedir que a imprensa refletisse esse grau de selvageria, que atinge os paraenses do interior e da capital, das cidades e do meio rural. Na mesma semana da morte das jovens, uma adolescente de 14 matou a facadas seus quatro irmãos menores (de 11, 10, 8 e 6 anos), em Laranjal do Jari, no Amapá.

Desvio de finalidade

Laranjal é o novo nome dado ao velho Beiradão, concentração precária de imigrantes que se formou na margem esquerda do rio Jari, do outro lado da propriedade agroindustrial do milionário americano Daniel Ludwig. O acesso a Monte Dourado, sede dos projetos de celulose e caulim, além do plantio de floresta homogênea, era controlado pela empresa. Só quem ela queria ocupava as casas que construiu, usufruindo os benefícios da cidade fechada, que fica do lado do Pará.

A maioria dos que foram atraídos para o local teve que se contentar em morar sobre palafitas insalubres, que avançavam sobre o rio, e em viver de biscates e nas atividades dependentes indiretamente da empresa. O Beiradão cresceu com o fermento das disparidades sociais e na marginalidade, que se expressava em constantes incêndios e numa escalada de crimes. O fratricídio foi o mais chocante de todos, mas não deverá ser o ponto final dessa série, infelizmente

Ela se manifesta em outros cenários semelhantes, com o epicentro numa grande aplicação de capita feita para possibilitar a exploração de recursos naturais através de tecnologia de ponta, da qual resultam produtos que são comercializados em distantes mercados. Sempre sobra para os que se instalam ao redor, o que explica o poder de atração do Pará como o 3º destino migratório do país. Mas é uma disputa tão acirrada que só os mais fortes (ou os mais selvagens) sobrevivem.

Muitos dos que decidem apostar nesse jogo vêm preparados para tudo e por isso não trazem famílias, pelo menos não na primeira aproximação do alvo. Daí o Pará ser o Estado com a maior população masculina do Brasil: são 500 mil homens a mais, boa parte deles imigrantes condicionados a enfrentar condições adversas.

A violência é um componente dessa cultura, como se pode verificar lendo os jornais que circulam nos pontos de convergência e irradiação desses processos (em Marabá, por exemplo). Ainda assim, a sangria drenada todos os dias pelas páginas da grande imprensa da capital tem um componente de sua própria patologia, que tem pouco a ver com a realidade mais ampla: envolvidos no torvelinho de uma acirrada concorrência comercial, como há muito tempo não se via (se é que já houve alguma em tais proporções no passado), os dois grupos de comunicação aproveitam qualquer possibilidade comercial, indiferentes aos compromissos e responsabilidades para com a opinião pública. Exploram os mais baixos instintos humanos e, ao mesmo tempo, contribuem para que eles se intensifiquem. Dizem-se conseqüência de um mal que estimulam. Tornam-se um elo do ciclo vicioso, que de fato existe, mas não é inevitável.

Como, excetuado por certa pluralidade maior nos segmentos de televisão e rádio, o mercado de jornais foi cindido ao meio, há uma pressão plebiscitária: quem não é a favor passa a ser considerado contra, a não ser que compareça ao caixa de ambos e não resista às convocações. Há acomodação de interesses por baixo de uma conflagração aberta entre os rivais. O resultado é o crescimento das aberrações, o desvio da finalidade dos órgãos de imprensa, o abuso do direito de informar e investidas que assumem a forma clara – mesmo quando não declarada – da chantagem. O ar está ficando irrespirável para as pessoas sérias, decentes, sensíveis e que não abrem mão dos seus princípios.

‘Ânsia desenfreada’

A situação podia ser outra se a mais poderosa das empresas que atuam no Pará cuidasse da sua responsabilidade social com mais do que propaganda, marketing e retórica. Cinco anos atrás, em julho de 2003, a Companhia Vale do Rio Doce ajuizou uma ação de indenização por danos morais contra Delta Publicidade, responsável por O Liberal. A empresa se dizia vítima de uma ‘nítida campanha difamatória, intensa e absolutamente infundada’, promovida contra si pelo jornal da família Maiorana. Durante três meses, sem interrupção, O Liberal publicou 24 matérias contendo ‘fatos inverídicos’ relacionados à Vale, sem ouvi-la e nem acolher as cartas que enviou, no exercício do direito de resposta, ‘com poucas exceções’.

A campanha começou em abril de 2003, três meses depois que Delta Publicidade encaminhou à Vale um boleto bancário no valor de 400 mil reais, que seria a primeira parcela do pagamento – de um total de R$ 1,5 milhão – pelo patrocínio do projeto ‘Andando pelo Pará’, comandado pelo principal executivo da corporação, Romulo Maiorana Júnior (em rápidas visitas ao interior, acompanhado por um séquito de cortesãos, com despesas pagas pelo anfitrião do município visitado). Apesar de não ter aceitação prévia (a Vale não endossou o patrocínio), o título foi levado à execução na justiça, como se a empresa tivesse se recusado a honrar o compromisso (tratava-se de um título frio, sem lastro).

Em maio, enquanto os veículos do grupo Liberal desenvolviam a campanha contra a Vale, como se defendessem os interesses do Estado contra um agente predador, a Delta Publicidade cobrou da antiga estatal patrocínio para um campeonato de futebol e vôlei amador que promoveria. Valor da iniciativa: R$ 6 milhões.

A paciência dos dirigentes da mineradora, a segunda maior do mundo, parecia ter chegado ao fim. Por isso, promoveram a ação indenizatória, na qual destacavam a contradição: ‘a despeito de tão graves e criminosas acusações’ que fazia quase que diariamente à Vale, O Liberal pretendia ‘auferir alguns milhões de reais’ dessa mesma empresa, pintada como execrável e criminosa para os leitores do jornal, ‘tendo-a como parceira na promoção e divulgação de evento esportivo’, de desproporcional insignificância para o valor comercial que lhe foi atribuído.

A Vale requereu o reconhecimento da ação a má-fé do grupo Liberal e uma punição com efeito inibidor e reparador, considerando ‘a ânsia desenfreada do réu em veicular matérias injuriosas, impondo-lhe um desestímulo ao reiterado desrespeito aos direitos fundamentais das pessoas mencionadas em suas matérias’. Quando a iniciativa foi revelada, O Liberal a anunciou em manchete com duas colunas e com letras maiúsculas na primeira página da edição de 29 de julho de 2003: ‘Vale abre processo contra O Liberal por defender o Pará’.

Omissões e conivências

A empresa, responsável por 85% do comércio exterior do Pará (o quarto maior do Brasil) e com capacidade de investimento 10 vezes maior do que a do governo do Estado, foi a primeira que reagiu a essa tentativa de intimidação e chantagem por parte daquele que era, na época, o maior grupo de comunicação do Norte do país. Mas acabou seguindo o exemplo do Banco da Amazônia e da Rede/Celpa, alvos de pressões semelhantes: cedeu e fez um acordo informal com os Maiorana, acertado durante jantar num dos restaurantes mais caros do Rio de Janeiro.

Tanto a ação monitória de Delta Publicidade quanto o pedido de indenização da Vale do Rio Doce dormem até hoje o sono artificial dos injustos em duas varas do fórum cível de Belém. As palavras do passado foram esquecidas em troca de argumentos sonantes de ambos os lados. A Vale passou a despejar grandes volumes de publicidade nos veículos do grupo, nos quais nunca mais foi publicada qualquer matéria que pudesse contrariar os agora ‘parceiros’.

No palco da pantomima ficam os desnorteados e impotentes cidadãos paraenses. Alguns deles, como os jornalistas, têm papel mais direto a desempenhar. A categoria, atormentada por más condições de trabalho, salários reduzidos e mercado restrito, prefere abstrair-se do cenário, como se nada houvesse a fazer senão transferir a questão para a conta do inevitável, ainda que indesejável.

Alimentado por omissões e conivências, cresceu um organismo doentio, que, como os seres anaeróbios, dispensa o oxigênio da verdade para se desenvolver, nutrindo-se da poluição que se espalha pelas páginas dos jornais. O que se viu na cobertura do acidente no último fim de semana do veraneio de julho foi a face mais vil desse organismo. Mas não a única. Ela voltará a se exibir se o panorama da imprensa paraense não se tornar mais saudável, ético e honesto.

***

Os números dos jornais

Não procede a informação de que O Liberal estaria em entendimentos para voltar a se filiar ao Instituto Verificador de Circulação, do qual se desligou há quase três anos para evitar uma nova auditoria. Na anterior, o IVC constatou que a vendagem real do jornal era inferior à metade dos números declarados pelo editor. Na véspera da chegada dos auditores a Belém, O Liberal pediu sua desfiliação, como nunca acontecera em meio século de existência do IVC, a mais respeitável fonte de informações sobre a circulação de jornais no Brasil. A atitude deve ter sido tomada porque a venda do jornal dos Maiorana permanecia em queda.

O Diário do Pará continuará a ser o único jornal associado ao IVC no Pará, mas a publicação de Jader Barbalho não usufrui dessa condição como podia por não divulgar os resultados das auditorias que o instituto tem feito. Ao invés dos resultados da apuração realizada pelo IVC, que mensura a quantidade de exemplares que o público efetivamente compra, o Diário prefere divulgar as pesquisas do Ibope, que apenas medem índices de leitura. A contradição sugere que parte significativa da tiragem do jornal é cortesia ou não se enquadra nas exigências do IVC sobre comercialização.

O que pode significar que o Diário tem maior tiragem do que O Liberal, mas a vantagem é menor quando se trata de jornais vendidos. E que em ambos os casos a vendagem é menor agora do que algum tempo atrás, considerando-se a posição que então o líder ocupava. Ou que tudo que apregoam é pouco mais do que fantasia.

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A crítica do jornalismo

A crítica da mídia não é fenômeno tão antigo no Brasil quanto em outros países, mas já há publicações que a empreendem de forma sistemática há alguns anos, como a Folha de S.Paulo, a TV Cultura de São Paulo e a revista eletrônica Observatório da Imprensa. O que distingue o Jornal Pessoal desses e de outros veículos preocupados em criticar a linguagem jornalística ‘é o fato de que ele não só faz a crítica da mídia, isto é, denuncia os erros jornalísticos, a falta da verdade dos fatos, a inexistência de uma ética voltada para o social, o descaso com o cidadão; enfim, a falta de sintonia entre o que diz e o que faz na prática a grande imprensa, mas mostra, também, por meio de seu fazer jornalístico focado na região [amazônica], que é possível realizar jornalismo comprometido eticamente com a sociedade. Uma metalinguagem que tem a força dupla do Fazer e do Dever ser jornalismo’.

Com base nessa diretriz, Célia Regina Trindade Chagas Amorim desenvolveu sua tese, ‘Jornal Pessoal: uma metalinguagem jornalística na Amazônia’, que recebeu nota 10 dos cinco integrantes da banca examinadora na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. José Amélio Pinheiro, Mônica Rugai Bastos, Laurindo Leal Filho, Cecília Almeida Salles e Jorge de Albuquerque Ferreira conferiram à pesquisadora paraense o título de doutora em comunicação e semiótica, com avaliação positiva ao seu trabalho, de quase 300 páginas. Nelas, Célia Amorim mostra que o JP ‘faz jornalismo e se impõe também com um instrumental analítico-crítico, indicando como se deveria fazer jornalismo’. Em linguagem de rua, mata a cobra e mostra o pau. Critica o modo de fazer jornalismo da grande imprensa (o jornalismo ‘tecno-informacional moderno’), revelando suas falhas e fraquezas, e põe em prática o modo alternativo de fazer jornalismo que apregoa, submetendo-se por sua vez à crítica do público. Uma imprensa ‘voltada efetivamente para o cidadão’, garante Célia, que demonstrou a hipótese da sua tese analisando em detalhes 10% de 400 edições do Jornal Pessoal, 350 das quais ‘apresentam metajornalismo de forma explícita’.

Nota máxima

O lugar desse tipo de jornalismo, primo já distante dos alternativos que combateram o Estado autoritário no período da ditadura militar (1964-1985), é assegurado, por contraditório que possa parecer, em plena democracia, por dar prioridade a ‘temáticas de interesse público que a grande imprensa paraense omitiu, manipulou, forjou, porém, ao mesmo tempo, mostrando ao leitor o porquê de tal tratamento jornalístico’.

O perigo que afronta o jornalismo na democracia já não é a censura do Estado, retirada das redações, ‘mas as insistentes estratégias comercial, autopromocional; enfim, publicitária, que cerceiam a atividade em sua função maior de informar’, constata a nova doutora. Ela fez sua pesquisa como ‘uma tentativa de dizer Não a este tipo de pensamento `midificado´’ que tem distanciado a imprensa do cidadão. A tentativa foi muito bem-sucedida, conforme reconheceu a banca examinadora ao dar nota máxima ao seu trabalho.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal, Belém, PA

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PRIMEIRAS EDIçõES > RORIZ vs. CORREIO BRAZILIENSE

O ovo da serpente

Por lgarcia em 25/09/2002 na edição 191

RORIZ vs. CORREIO BRAZILIENSE

TT Catalão (*)

Os lamentáveis episódios de infâmia e agressão porque passa o Correio Braziliense no horário eleitoral usado pela campanha(?) do governador do Distrito Federal Joaquim Roriz tem antecedentes seculares na história do autoritarismo. As constrangedoras cenas ? inclua-se as ofensas pessoais a Ricardo Noblat e família ? revelam o quanto ainda estamos sujeitos a recaídas nazifascistas em pleno "período democrático", para não falar da malfadada e caricata "era da globalização". Serve para demonstrar o quanto ovo da serpente sabe migrar e se mantém perfidamente potencial pronto para re-eclodir em qualquer período histórico.

O uso da intimidação tem antecedentes graves na conduta do governo contra o Correio e, em trágica coincidência, os ataques de 17 de setembro de 2002 repetiram-se após o discurso inflamável de 17 de setembro de 1999 que nos levou a responder com a capa "Para que serve um jornal", no dia 19. O governador usava da sua habitual virulência verbal para, em palanque, incitar a população para "fechar o jornal". O ato assumia proporções mais graves pelo fervor cego e messiânico com que as legiões de apoio irrestrito a Roriz: uma centelha pode atiçar uma tragédia. O mesmo risco que correu o tal "crioulo petista" ? um rapaz negro que foi acusado pelo governador, em comício, como "infiltrado" pelo PT ? quando a possibilidade de um linchamento não ocorreu por milagre.

Até que, ante as denúncias dos irmãos Passos sobre as escandalosas grilagens de terra, comprometendo círculos tão próximos ao governo que beirassem a promiscuidade, uma blitzkrieg de ofensas e destemperos foi dirigida ao Correio, no melhor estilo dos déspotas antigos que matavam os portadores de más notícias, como se o emissor fosse o culpado da desdita.

Caem as máscaras

Três anos depois o Correio não fechou, cresceu e está sob novo ataque. O jornal criou um vitorioso modelo de interatividade com os leitores ? um sistema ativo de opinião, compromisso, troca e envolvimento ? nada comparável a uma estratégia marqueteira de "ouvir o leitor para aperfeiçoar o produto". Colunas como Desabafo, Correio DO Brasiliense, Cartas e Grita Geral recebem centenas de correspondências diárias com desdobramentos concretos no cotidiano dos leitores. Sem censura de temas ou filtragem ideológica de posições. O Conselho de Leitores vai bem obrigado, na terceira gestão.

Como reconforta perseguir utopias mesmo sob aparentes "derrotas??. Como é mais forte a compostura moral de quem tem a consciência limpa quando a lama transborda. A primeira linha publicada pelo revolucionário Hipólito da Costa, no seu Correio Braziliense, clandestino e perseguido de 1808, foi: "O primeiro dever do homem em sociedade é ser útil aos membros dela". E a síntese máxima da capa "Para que serve um jornal" (19/9/99) é "um jornal serve para servir".

A honrosa proximidade, entre 1808 e 2002, da imprensa-serviço-público deve mobilizar os leitores para que o jornal seja cada vez mais DO brasiliense. Senso de propriedade não é posse, mas comprometimento. Entre vários atributos, sabemos que um jornalista não é um funcionário comum, no sentido mecânico da função obediente. Um jornalista assume valores que, se forem feridos, mesmo sob risco, ele seguirá a incerteza mas se manterá coerente ? perca o emprego, as benesses e até o "prestígio".

Em nossos dias, quando um jornal, por ser produto, vive sob a ameaça permanente de fazer da notícia mercadoria, a postura do jornalista, ser humano e político Hipólito é fundamental. Perguntar sempre para que serve o jornal, como ele é servido, quais são seus serviçais e o quanto ele pode ser manipulado pelos que queiram servir-se dele. Hipólito vive. Nem tudo que se imprime em papel-jornal é jornalismo. Nem todos que escrevem em jornal, mesmo diplomados, são jornalistas. Talvez estejamos devendo uma nova capa: "Para que serve um jornalista?"

A cidade que tem em seu imaginário as utopias libertárias da fraternidade (até do cósmico pelas raias do místico) agora tem um choque de maturidade onde o confronto com a sordidez, a traição e a mentira certamente a deixará mais forte para o futuro. Ou não haverá mais futuro possível se perdermos nossos mínimos valores éticos. "Liberdade de imprensa" é redundância, como "educação integral"; não sobrevie uma se faltar a outra. As rupturas rompem para anunciar o novo. Corruptos corrompem para manter a treva. Vivemos um tempo de ciclos encerrados: caem todas as máscaras, mesmo as mais caras!

(*) Editor de Pesquisa e Informação do Correio Braziliense

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