Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > PUDORES DA MÍDIA

O palavrão também é filho de Deus

Por Gabriel Perissé em 17/07/2007 na edição 442

Nelson Rodrigues dizia que palavrão também é filho de Deus. E Adélia Prado explicava que a palavra ‘desgraçado’ era, em sua família, verdadeiro palavrão, muito pior do que o inocente ‘filho da puta’. Porque ser desgraçado é ter perdido a graça de Deus, é estar a um passo do inferno. Já um filho da puta, como tantos por aí, pode preceder no Reino dos Céus aqueles santos que pecam pela vaidade de serem santos…

O pudor da mídia recorre às reticências para camuflar o palavrão. Escândalo farisaico, certamente, mas é uma prática. Na Revista Época de 9/7 (ed. nº 477), por exemplo, transcreve-se entrevista de Oscar Niemeyer à revista Casa e Jardim na qual lhe perguntaram que significado via em completar 100 anos de idade: ‘Esse negócio de centenário é uma m… Não há vantagem alguma em fazer cem anos.’

Talvez haja algumas vantagens, sim. Uma delas é superar falsos pudores e empregar a palavra merda numa entrevista, sem medo do que hão de pensar os outros. E, afinal, o que haveríamos nós outros de pensar, se empregamos este e mais cabeludos palavrões no dia-a-dia? Seria a mídia lugar imaculado, no qual o palavrão é visto como grosseria aos delicados ouvidos dos leitores?

O modelo de self-made man

No caso de merda, seria difícil encontrar termo mais adequado em certos contextos. Tom Jobim explicou a um jornalista a profunda diferença entre morar nos Estados Unidos e no Brasil. Morar nos Estados Unidos é bom, mas é uma merda. Morar no Brasil é uma merda… mas é bom!

E, de mais a mais, os palavrões podem ganhar sentidos positivos. ‘Fodido’ é, segundo os dicionários, palavra chula com a qual designamos quem está perdido, sem saída, em péssima situação financeira, arruinado. No entanto, é também elogio em determinadas circunstâncias. Ele é ótimo, ele é fodido!

‘Merda’ tem conotação irônica no mundo teatral. Dizer este palavrão antes de a cortina se abrir é desejar sucesso a todos. Mas Niemeyer usou a palavra no seu significado popular, como o fez em outra entrevista, para o Correio Braziliense (18/3/2007). O jornalista Ricardo Miranda não usou as reticências, ao registrar o que o arquiteto declarou sobre o modelo de self-made man da cultura norte-americana: ‘O sujeito quer ser o vencedor. Isso é uma merda!’

O palavrão, na hora certa, é a palavra mais santa.

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Doutor em Educação pela USP e escritor www.perisse.com.br

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