Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > PÁGINAS DA VIDA

O parto do simulacro

Por Ismar Capistrano Costa Filho em 23/01/2007 na edição 417

Nos últimos dias do ano de 2006, estava de visita a um velho amigo na escaldante cidade de Mossoró (RN). Enquanto minha esposa se aprontava para sairmos pela noite, deparei-me, na televisão, com uma cena inusitada. A novela Páginas da Vida, da Rede Globo, apresentava um parto num de seus capítulos. Logo percebi a realidade do fato quando notei a falta de corte, o tempo da cena e o tamanho da seqüência. Não demorou muito para outros telespectadores se juntarem para assistir comigo e confirmarem a veracidade do fictício.


Passei então a lembrar não somente de outras intervenções televisivas deste tipo, como os reality shows, mas também de tantos outros filmes, minisséries e novelas sobre fatos reais. Até a década de 1990, as telas continham, geralmente, reflexos do contexto histórico. Assim, Casablanca, O Vento Levou, Rocky e Rambo mostravam, no máximo, alguns costumes, comportamentos, hábitos e relações sociais comuns numa determinada época. Hoje, as telas ousam tentar resignificar os acontecimentos históricos.


Não são as lições de História que fazem os jovens recordarem, por exemplo, de Alexandre, O Grande; da Guerra de Tróia, de Lutero ou de Leonardo DaVinci. São filmes e best-sellers que dão o entendimento desses fatos.


Passado, presente


O Código de DaVinci foi um caso que comprometeu a compreensão – principalmente de jovens e adolescente – sobre a história, necessitando até de esclarecimentos de autoridades, como o papa e cardeais, bem mais reais do que os cavaleiros templários, mas menos confiáveis para esses públicos do que os personagens.


Atualmente, uma das estratégias para a boa vendagem da ficção é ser baseada em fatos reais. Será que realmente vivemos o simulacro, profetizado por Jean Baudrillard, onde os signos que não correspondem à realidade ganharam vida e se separaram definitivamente da realidade criando um mundo complementar tão poderoso quanto o vivido?


Longe do fatalismo do teórico francês, sabemos que o choque com a realidade pode provocar fissuras irreparáveis até para espetacularização midiática. Todavia, quando se trata do simulacro de fatos históricos, podemos estar trilhando um caminho irreversível na construção de falsos referenciais para nossas memórias e alterando, assim, os significados de nosso presente.


Essa talvez seja uma estratégia tão real, como os filmes hollywoodianos, de resignificar o passado para modificar o presente.

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Jornalista, assessor de comunicação, professor de ensino superior e mestrando em Comunicação na Universidade Federal de Pernambuco

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