Domingo, 17 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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FEITOS & DESFEITAS >

O patrão do jornalista é o leitor

Por Lígia Leal em 07/07/2009 na edição 545

Jucélio Duarte, um dos articulistas mais sérios do jornalismo brasileiro, atua na área desde 1980 e neste tempo trabalhou como editor do Correio Braziliense, repórter da revista IstoÉ e de muitos outros veículos de Comunicação. Em 2003, juntamente com amigos jornalistas, criou o portal ABCPolitiko que, segundo Jucélio, ‘partiu da necessidade de ter um veículo isento para publicar artigos, reportagens, ensaios, entrevistas e outros textos sem a necessidade de se submeter ao direcionamento econômico e político de um veículo de comunicação tradicional’.


E deu certo. Hoje, o portal ABCPolitiko é um veículo de mídia respeitado em todo o cenário nacional e temido pelos ‘homens’ que estão no poder em Brasília. A equipe do portal é formada por jornalistas tarimbados e compromissados com a informação. Humilde e cauteloso em suas respostas a bloguistas, acredita que ainda existam políticos sinceros e dá exemplos. Para ele, a impunidade é preocupante e denuncia que as leis são ‘frouxas’ para os crimes de colarinhos brancos. Mas ainda consegue sonhar com o país livre da corrupção. Idealista e compenetrado na função que exerce no jornalismo, é severo em relação à apatia do povo brasileiro, que se deixa enganar por notícias fabricadas. Vamos conhecer um pouco mais sobre Jucélio Duarte e o portal ABCPolitiko. E no final, dá um furo de notícia para o blog.


***


Quem é Jucélio Duarte?


Nome: Jucélio Duarte


Idade: 52 anos


Veículo de Comunicação em que atua: Portal ABCPolitiko


Estado: Distrito Federal


Cidade: Brasília


Há quantos anos atua na área do jornalismo e como foi o seu começo?


Jucélio Duarte – Atuo no jornalismo há 29 anos. Entrei para uma redação de jornal em 1980, no segundo ano de universidade. Fiz um teste no jornal Opção, em Goiânia (GO), com uma turma de amigos e passei. Não tive dificuldades, pois já escrevia muito e editava um jornalzinho no trabalho, no setor de edições do Senac.


Órgãos de imprensa para os quais trabalhou e trabalha?


J.D. – Jornal Opção, Diário da Manhã e revista econômica Análise, todos de Goiânia (GO), onde fui repórter e editor; repórter e editor do Jornal de Brasília e Correio Braziliense, em Brasília, repórter da revista IstoÉ, coordenador de imprensa da OAB Nacional, coordenador de imprensa do Sebrae Nacional e editor-executivo do Portal ABCPolitiko.


Formação universitária é fundamental


Como foi que o site ABCPolitiko foi criado?


J.D. – Partiu da necessidade de um grupo de velhos amigos jornalistas de ter um veículo isento para publicar artigos, reportagens, ensaios, entrevistas e outros textos sem a necessidade de se submeter ao direcionamento econômico e político de um veículo de comunicação tradicional. É o local onde publicamos de tudo sem nenhuma censura e sem vínculo com governantes de plantão.


A equipe que faz parte do site e suas funções.


J.D. – Os editores-executivos somos eu e o Marco Aurélio Pereira, um jornalista para lá de experiente que já dirigiu várias redações de jornais e assessorou até o vice-presidente da República. Temos como repórteres a Marcella Mota, Ray Cunha, Fabiana Pelles e Daniele Lima Barreto. Na condição de jornalistas-colaboradores e articulistas temos o Tão Gomes Pinto (fundador da revista Veja), Ruy Fabiano, José Nêumanne, Otávio Veríssimo, Adriana Vandoni, Marco Antonio Dias Pontes, José Fonseca Filho, Carlos Zarur (ex-presidente da Radiobras) e Everardo Maciel (ex-secretário da Receita Federal).


Jucélio, com o veto do STF à exigência do diploma para o exercício da profissão, o que muda em sua opinião para a categoria?


J.D. – Acho que não muda quase nada. Para ingresso nas principais redações de jornais, rádios e TVs, o candidato precisa apresentar um bom currículo, conhecer pessoas etc. Para quem está começando, o caminho é o estágio ou seleção feita pelas redações. Em todos os casos, o pessoal exige formação profissional. Então, é preciso ter uma boa formação humanística, política, econômica e de história para enfrentar um mercado cada vez mais competitivo. E a formação universitária é fundamental para essa base.


Exemplos de políticos a serem seguidos


Você acredita que somente a vocação aliada ao talento são as únicas ferramentas para se formar bons profissionais?


J.D. – Acho que não. Como disse antes, é preciso uma boa base de formação para dominar os principais assuntos que marcam cada editoria em um veículo de comunicação. É preciso também conhecer todas as fases do processo de construção de um jornal, da apuração de uma notícia seja para jornal, rádio ou TV, da realização de uma entrevista, a questão ética e moral, o conhecimento humanista, político e histórico. E isso você aprende em uma boa faculdade. Claro que o talento ajuda, mas não é suficiente.


O que mais o preocupa em relação ao futuro do jornalismo no país?


J.D. – Muitos dos profissionais que conheço se preocupam com o futuro dos atuais meios de comunicação como são hoje e o avanço da comunicação instantânea, online. Claro que os atuais veículos diários, rádios e TVs precisam se adaptar aos novos tempos, buscar fatos além da notícia pura e simples e instantânea que domina a maioria dos veículos online. Com mudanças de conceito, pode-se fazer um bom jornalismo. Acho que o jornalismo vai sobreviver a tudo isso, inclusive à questão do fim do diploma.


Os bastidores da política cheiram mal?


J.D. – Depende. Na minha andança profissional, conheci muitos políticos honestos, que não se vergam, ou vergavam, diante das pressões e eventuais irregularidades que permeiam o mundo político. Cito alguns: Marco Maciel, Pedro Simon, Ulysses Guimarães, Mário Covas, Jefferson Péres, Paulo Brossard. São exemplos de políticos que precisam ser seguidos pelos mais jovens, políticos que fazem jus ao termo. Agora, o ambiente atual que vive o Congresso, com as bandalheiras descobertas, prejudica em muito a democracia. No Executivo também há muitas irregularidades com o dinheiro público. Essa política, sim, cheira mal. E é mau exemplo para gerações futuras.


Impunidade e leis frouxas


A importância das fontes seguras.


J.D. – Uma fonte segura pode garantir um bom furo de reportagem. Na informação, ou você confia ou não confia, não existe meio termo. Portanto, uma fonte segura é fundamental para um bom jornalista.


Quais as dicas que daria aos futuros jornalistas?


J.D. – Perseverança. Não devem desistir nunca dos seus sonhos. O começo de toda carreira profissional é difícil, mas à medida em que for construindo uma rede de amigos, a situação tende a melhorar. E, acima de tudo, ler muito: jornais, revistas, livros. E não esquecer de reler seus textos antes de entregar para o editor.


Quais são os itens necessários para se fazer um jornalismo sério?


J.D. – Ética, firmeza de caráter, não se deixar corromper por promessas fáceis, principalmente de políticos. Colocar na cabeça que o seu patrão é o seu público leitor. É a ele que se devem prestar contas.


Em sua opinião, o que alavanca a corrupção em nosso país e por quê?


J.D. – Impunidade. Nossas leis são frouxas em relação aos crimes de colarinho branco, aos corruptos. Você se lembra de algum corrupto na cadeia, cumprindo pena? Então, essa frouxidão desanima a população e incentiva a fraude, a corrupção, a dilapidação do erário público. Se acontecessem punições mais severas a situação poderia ser outra.


A verdade a qualquer custo


O governo Lula tem mostrado eficiência na área social?


J.D. – Sim e não. O grande mérito do governo Lula foi o de reunir em uma mesma cesta os vários benefícios sociais criados por governos anteriores: Vale-gás, Vale-energia, Bolsa-escola, todos entraram na composição do Bolsa Família. Lula também ampliou a base do programa para mais famílias. Só esqueceu do projeto de saída dessas famílias do programa. É preciso ter um amplo programa de emprego e renda que garanta o sustento dessas famílias quando saírem do Bolsa Família.


Você acredita que a irregularidade cometida por congressistas nacionais contra o erário público reverterá em indignação nacional, ou será esquecida pelo povo?


J.D. – Não acredito em indignação nacional. O povo brasileiro só sabe reclamar para os amigos, os vizinhos, da situação de roubalheira nacional. Mas é incapaz de participar de uma mobilização para tirar os corruptos de algum órgão público. E as centrais sindicais, os sindicatos e a UNE (União Nacional dos Estudantes) estão também engordando à sombra do dinheiro público que recebem mensalmente e não fazem nada para mudar a situação.


Até que ponto a imprensa é o primeiro poder?


J.D. – Não creio que a imprensa seja o primeiro poder. Ela apenas tem o dom de levar a informação ao seu público. Mostrar as coisas erradas, apontar envolvidos em irregularidades, descobrir desmandos. Mas não passa disso. Não tem o poder de decisão.


Como driblar a indústria cultural e os interesses econômicos e divulgar a verdade dos fatos?


J.D. – Acho que todo jornalista deve ter em mente que ele deve buscar a verdade a qualquer custo. Seu patrão é seu leitor, seu telespectador. Claro que os veículos são remunerados por publicidade oficial, anunciantes etc., mas isso não deve influir demais na linha editorial de um jornal, rádio, TV ou site.


Forças Armadas são fundamentais na Amazônia


Você acredita que a tendência é que o jornalismo impresso acabe devido ao desenvolvimento tecnológico da web?


J.D. – Como já disse antes, o jornalismo impresso deve se reciclar, buscar outros ângulos da notícia que podem ser explorados. Acabar de vez, acho que não. Vão para o purgatório, mas acho que os que mudarem irão sobreviver.


Algum furo de informação?


J.D. – Lula voltará a disputar uma eleição presidencial em 2014.


Qual a importância da Fenaj para você?


J.D. – A atuação da Fenaj está fora de foco. Ela apenas defende a profissão, mas se esquece que deve ser a líder nos debates sobre essa nova comunicação que está aí: blogs, portais, Twitter, SMS. Ainda não vi a Fenaj participando dessas discussões.


Utopia ou realidade. O Brasil tornar-se a num futuro próximo um país de primeiro mundo?


J.D. – É um desafio muito grande. O fosso das desigualdades sociais no país impede esse avanço. O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de algumas regiões, como o sertão e o semi-árido nordestino, só é comparável aos mais pobres países africanos. Só quando avançar nessas questões sociais o Brasil poderá dar um passo adiante.


Como você avaliaria o papel das Forças Armadas na proteção da Amazônia?


J.D. – As Forças Armadas têm sido fundamentais para garantir a integridade da Amazônia e sua população. Além de assegurar as fronteiras e levar segurança aos povoados mais distantes, ajudam muito na questão social da região.


Cada povo deve construir o seu destino


Como jornalista e cidadão brasileiro, quais as suas maiores preocupações?


J.D. – Que o nosso país não consiga sair do círculo vicioso da corrupção, da compra de votos nas eleições, da politicalha que hoje predomina em todos os segmentos. O sonho é de um país melhor e estamos fazendo nossa parte ao denunciar os desmandos e mau uso do dinheiro público no coração do poder.


A censura aos órgãos de imprensa neste país realmente acabou, ou agora está pior?


J.D. – A pior censura é a econômica e política, praticada pelos veículos que querem agradar aos governantes de plantão. Essa ainda predomina na maioria dos jornais, rádios e TVs. Ela cala a voz do profissional e engana a população.


Você acredita em um jornalismo independente, que seja completamente imparcial?


J.D. – Acredito. Esses veículos são cada vez mais raros, mas existem. Aqui, no ABC Politiko, procuramos dar um tratamento isento a qualquer notícia. Não nos submetemos aos patrulhamentos tanto da esquerda quanto da direita, de quaisquer partidos ou governos.


Medos.


J.D. – De um regime em que não possa expressar minhas opiniões.


Sonhos.


J.D. – De construção de um país melhor, sem corrupção.


Família.


J.D. – O centro de tudo.


Amigos.


J.D. – Para guardar no peito.


Mensagem Final.


J.D. – Cada povo deve construir o seu destino. Todos nós, brasileiros, precisamos fazer nossa parte para que sejamos de fato uma nação grandiosa e sem desigualdades sociais.

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Jornalista e pós-graduada em Língua Portuguesa

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