Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA ESPORTIVA

O perigo da verdade absoluta

Por Marcelo França Santos em 04/10/2005 na edição 349

Sei que há coisas muito mais sérias a se cuidar no país, mas como futebol mexe com o humor de tanta gente, acho que vale a pena tocar no assunto. Tivemos, nesses últimos 10 dias, um caso claro do quão arrogante, prepotente e ditatorial é a imprensa esportiva brasileira. O árbitro Edilson Pereira de Carvalho foi flagrado vendendo resultados de jogos da série A. Imediatamente, os jornalistas esportivos de TV e jornal assumiram que a única solução aceitável era a anulação dos 11 jogos apitados por esse árbitro.

Não quero sequer discutir a tese defendida pelos jornalistas e posteriormente ratificada pelo Sr. Luiz Zveiter, do STJD. Não vou entrar no mérito da questão, embora entenda que neste caso sequer haja obediência à lei.

O que me deixou atônito foi, primeiro, a certeza com que essa tese foi defendida desde o início. Entendo que o jornalista tenha direito a opinião, inclusive de defendê-la. Mas me assusta que o jornalista entenda tratar-se da verdade a sua opinião. Não pode. A verdade não pertence a ninguém. Aspectos dela estarão presentes nas diferentes versões para cada situação da vida que nos é apresentada.

Apenas eufemismo

Em segundo lugar, e mais sério, está o fato de que nenhum programa esportivo ou coluna esportiva em jornal tenha permitido que outras teses fossem defendidas. Assumiram tratar-se da ‘única solução aceitável’ (frase repetida por vários deles) e não deram espaço para que outras pessoas se manifestassem sobre o caso, apresentando outras soluções.

Para não ser desonesto, o programa Arena Sportv (do canal pago Sportv) trouxe, na sexta-feira, um advogado que defendeu uma alternativa considerada por ele a ideal. Que ninguém tenha saído convencido pelo tal advogado ainda se entende. Mas a conseqüência desse programa foi apenas a de mudança de discurso. De única solução aceitável, passamos a ter a menos pior!

Ora, isso é um eufemismo. A menos pior é, obviamente, a melhor e, portanto, a única aceitável. E, mesmo assim, foi apenas esse programa que apresentou alternativa. Todos os demais defendem seu ponto de vista pessoal e atacam qualquer alternativa, fazendo de seus programas e colunas espaço e tempo para venda de uma única verdade.

Maioria contrária

É muito perigoso quando a imprensa não dá margem a outras interpretações da verdade. Faz-me lembrar a definição de democracia versus ditadura. Democracia é aquele sistema em que se permite que todos exponham sua opinião, antes que decisões sejam tomadas. Ditadura é aquele regime em que a opinião de uma meia-dúzia prevalece sobre a dos demais que, sequer, têm a oportunidade de se expressar.

Senti-me tremendamente oprimido nesse caso. Escrevi vários e-mails aos programas esportivos. Pedi encarecidamente que pelo menos discutissem a alternativa que propunha. E fui solenemente ignorado. Assim como a mim, ignoraram muitas outras pessoas que discordavam da verdade da imprensa. Instalou-se uma verdadeira ditadura na imprensa esportiva brasileira, em que meia-dúzia de jornalistas determinam a verdade sobre o esporte brasileiro. Quando há discordância entre eles, ainda temos algum debate. Mas quando todos concordam, sai de baixo, ninguém mais tem voz.

Todas as pesquisas de opinião sobre o caso apresentaram maioria contrária à opinião geral da imprensa. Juntem-se as torcidas dos times que se beneficiaram com a anulação e verão que somam muito mais torcedores do que as restantes. Ou seja, não é apenas a manifestação do amor clubístico e, sim, a maioria da população brasileira entendendo que a tese da imprensa está errada. Por que não se deu voz a essa maioria é algo que não entendo.

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