Terça-feira, 25 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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O porco leva a fama

05/05/2009 na edição 536

A influenza norte-americana, nome correto, segundo a OMS, para a gripe suína, demonstra a fragilidade do sistema de saúde pública no mundo globalizado. A desigualdade de condições de vida entre os países de Primeiro e Terceiro Mundo é a principal causa dos riscos de uma pandemia de proporções catastróficas.

Vale lembrar que em plena Idade Média quase um terço da população da Europa sucumbiu à peste bubônica, apelidada de peste negra. Naquele tempo, as distâncias entre vilas e cidades eram bem maiores que hoje. Com as facilidades de transporte e o aumento do intercâmbio comercial, sem falar na superpopulação das grandes metrópoles, as possibilidades de propagação de doenças como a gripe espanhola, ocorrida no início do século passado, tornaram-se bem maiores.

O curioso é que, no Brasil, morrem milhares de pessoas todos os anos, vítimas de dengue, febre amarela, subnutrição, bala perdida e acidentes automobilísticos. Enquanto a mortandade permanece nos grotões e nas favelas, as autoridades nem se abalam. O problema da nova gripe é que ela desembarca nos aeroportos internacionais, frequentados principalmente por pessoas ricas e de classe média, formadoras de opinião. Se a doença chegasse de ônibus ou a bordo de um pau-de-arara, certamente não haveria motivos para pânico.

Superpopulação e desigualdade

Enquanto isso, na África, a Aids avança a cada dia, vitimando principalmente mulheres e crianças. O continente, que sempre foi explorado pelos países ricos e imperialistas, paga o preço da omissão internacional. Afinal, quem se importa com a morte de um bando de negros e pobres do Terceiro Mundo?

Tão grave quanto o risco de uma pandemia é, na verdade, a desinformação. A gripe que agora ameaça o mundo tem muito pouco de suína e provavelmente evoluiu da chamada gripe aviária, que recentemente vitimou mais de mil pessoas em vários países, principalmente na Ásia. Também naquele continente as condições de vida da maioria das populações são precárias e oferecem todas as condições para o surgimento de epidemias de todo tipo.

Os organismos internacionais e os governos de países em desenvolvimento deveriam instituir políticas públicas de controle da natalidade e de melhoria das condições sanitárias da população. Afinal, em grandes metrópoles como São Paulo, Cidade do México ou Bombaim, pessoas pobres ou miseráveis vivem amontoadas, disputando espaço com ratos e baratas.

Boa parte dos problemas enfrentados pela humanidade resulta da superpopulação, concentração demográfica, ignorância e desigualdade social. Tanto é verdade que a gripe aviária e a nova epidemia que ameaça o mundo se originaram em regiões densamente habitadas, onde as condições de vida são as piores possíveis.

Repetindo informações

Contudo, em vez de espalhar o pânico, como vem ocorrendo nestes dias, os órgãos de imprensa deveriam alertar e orientar as pessoas, sobretudo as mais humildes, sobre como se precaver. Duas coisas chamam especialmente a atenção no momento. Os sintomas da nova gripe têm semelhança com a dengue e o resfriado comum. Afinal, como distinguir uma coisa da outra? Por outro lado, o nome gripe suína parece impróprio e já começa a causar prejuízos aos produtores e comerciantes de carne de porco. Com isso, um importante setor da economia mundial – já fragilizada pela crise – corre o risco de amargar sérios prejuízos e contribuir para o aumento do desemprego em vários países.

No Brasil, enquanto o governo tenta tranquilizar a população – como se uma epidemia internacional de gripe pudesse ser apenas mais uma ‘marolinha’ –, a imprensa se limita a repetir informações, pouco acrescentando ao que já se sabe sobre os recentes casos de contaminação, ocorridos principalmente no México e nos Estados Unidos. Em vez de gripe suína, a nova doença poderia se chamar gripe Obama, pois coincide com o centésimo dia de governo do simpático novo morador da Casa Branca.

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Jornalista e escritor

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