Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > TROPEÇOS JORNALÍSTICOS

O portal e seus problemas com a matemática

Por Walter Falceta Jr. em 09/03/2010 na edição 580

Praticamente desapareceram as confrarias de leitores dedicados à caça de erros gramaticais. Já não constitui mérito apontar isso e aquilo num mar de agressões à língua pátria. Os raros detetives de equívocos podem, no entanto, divertir-se com as trapalhadas da imprensa brasileira ao lidar com temas científicos. Após o terremoto no Chile, por exemplo, as matérias sobre alterações na rotação do planeta ofereceram prato cheio aos físicos.

Nas redações juniorizadas, no entanto, a moda é brigar com a matemática. Em 5 de março, a página principal do UOL serviu como pérola a seguinte manchete:

‘Custo dos alimentos dobra em um ano, diz IBGE’

A rigor, significaria que o preço de um certo conjunto de coisas de comer teria registrado acréscimo de 100% em doze meses. O custo de uma compra aleatória teria saltado, por exemplo, de R$ 100,00 para R$ 200,00. Isso, porém, não ocorreu. Pelo menos, não no Brasil. Na matéria, cravou-se outro título, tão equivocado quanto. Escreveu-se lá:

‘Preços dos alimentos dobram em fevereiro, diz IBGE’

Alarmismo compensa corrosão de prestígio

Trata-se de um segundo erro. E quem não ler a matéria pensará que esta é a hora do fim do mundo. Imaginará, por exemplo, que entre janeiro e fevereiro de 2010 o preço de um pacote de biscoitos subiu, em média, de R$ 2,00 para R$ 4,00. Inflação, portanto, de 100% ao mês. Na verdade, a inflação para os produtos alimentícios do primeiro bimestre de 2010 foi, segundo o próprio jornal, de 2,10%, ante a taxa de 1,02% registrada na soma de janeiro e fevereiro de 2009. Portanto, o que ‘dobrou’ foi a taxa de inflação no período comparativo escolhido pelo repórter, e não o preço dos alimentos.

Isso é continha básica. Coisa que dona de casa conhece, criança esperta conhece, mas que a grande imprensa brasileira parece desconhecer. Talvez porque hoje o impacto político do texto alarmista, mesmo que baseado no erro, compense a corrosão do prestígio de profissionais e veículos de imprensa.

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Jornalista, São Paulo, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/03/2010 Elcio Machado

    Esta não é da matemática, é do direito: quase sem exceções, repórteres, apresentadores e comentaristas dizem que fulano, bêbado, que atropelou alguém, será processado por ‘homicídio doloso, quando há a intenção de matar’. A figura é outra: trata-se de dolo eventual, quando o agente (o bêbado) assume o risco de que sua conduta possa levar alguém à morte. Não há propriamente intenção de matar, mas sim a assunção do risco de que isso aconteça.

  2. Comentou em 13/03/2010 Elcio Machado

    Esta não é da matemática, é do direito: quase sem exceções, repórteres, apresentadores e comentaristas dizem que fulano, bêbado, que atropelou alguém, será processado por ‘homicídio doloso, quando há a intenção de matar’. A figura é outra: trata-se de dolo eventual, quando o agente (o bêbado) assume o risco de que sua conduta possa levar alguém à morte. Não há propriamente intenção de matar, mas sim a assunção do risco de que isso aconteça.

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