Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

FEITOS & DESFEITAS > CASO MARCELO SILVA

O preconceito e a novela da vida real

Por Norma Couri em 16/12/2008 na edição 516

A imprensa brasileira desta semana deixou a impressão no leitor de que tudo aconteceu porque Suzana Vieira, de 66 anos, cometeu a heresia de se apaixonar por um homem 28 anos mais moço. Ficou no ar a pergunta, ‘também, o que ela queria?’

Ninguém se lembrou de contar que não só os atores, mas empresários, políticos, engenheiros, economistas, banqueiros ou qualquer pessoa do sexo masculino tem o cacoete de, ao subir na vida, trocar a companheira poucos anos mais nova por outra novinha em folha e muito mais jovem. A situação quase sempre é idêntica porque não é incomum que essa mocinha venha de um extrato social e cultura inferior, e que o deslumbramento aconteça em cima da capacidade de muscular o dinheiro do novo companheiro, e não pelos seus músculos corporais ou espirituais.

Citaram Liz Taylor, a princesa Caroline, Britney Spears e até Norma Desmond, vivida por Gloria Swanson no filme Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, em 1950. Mas se esqueceram do barão australiano da imprensa Rupert Murdoch, recém-casado com Wendy, 37 anos mais nova; do dono das torres mais abastadas de Nova York, Donald Trump, casado pela terceira vez com a modelo slovena Melanie, sete anos mais velha que seu primogênito; e de uma série de colunáveis que exibem troféus, pitéus, ninfetas em relações de pouquíssima duração. ‘Sobre o que será que eles conversam?’, pergunta Bárbara Gancia na sua coluna da Folha de S.Paulo da sexta-feira (12/12).

Usou como tapete e subiu de vida

A surpresa é sempre uma Marilia Gabriela com um Gianechini que, insinuavam, todos ‘sabiam que não ia dar certo’. Ou Ana Maria Braga com homens mais jovens. Mas o que intrigou não foi a cabeça de Nelson Motta, ao se casar com a deslumbrante e mais velha Costanza Pascolatto. O que intriga, já que essas relações acabam, é a pergunta da mesma Bárbara, na mesma coluna: ‘O que as maduras querem?’

O preconceito é antigo e não chegaria às capas de revista se a trama da novela da vida real não ultrapassasse a da TV Globo ou do Big Brother, que hoje qualifica culturalmente grande parte da população. Ou o caso Suzana Vieira-Marcelo Silva não comoveria tanta gente, não mereceria capas na melhor imprensa do país, nem cairia na boca do povo, virando talk of the town.

Não sei quantos vão reagir ao fato de Suzana ter sido envolvida em matéria de droga quando a overdose foi no outro, como reagiram quando a Veja anos atrás, quando vinculou na capa a morte de Elis Regina a uma viagem sem volta.

Também, quem mandou? – um subtexto, uma leitura subliminar perguntava. Ninguém nega que Suzana tenha caído num enredo de fazer inveja a qualquer noveleiro, envolvendo ex-policial, quebradeira em motel com prostituta, traição, telefonema da outra contando tudo à mulher oficial, tentativa de reabilitação e um chute clássico com gritaria no pobretão que a usou como tapete e subiu de vida. Ou que Suzana tenha seguido o estereótipo da mulher que malha, estica, corta, lipoaspira, dança, exibe beleza ao mesmo tempo em que coloca em foco sua conquista, tal como os homens fazem.

Queria o quê?

Tudo bem que ela não precisava declarar que obedece ao homem quando ele manda calar a boca e que o lugar do chefe do casal é sempre ‘ele’. Mas essa submissão não acontece apenas com mulheres mais velhas. Acontece com muitas mulheres apaixonadas.

Agora, é preconceito citar a diminuição da libido na menopausa e o fato de uma mulher de 66 anos só conseguir mesmo um rapaz mais novo se for celebridade ou engordar a conta bancária do outro. Preconceito assimilado por homens e mulheres numa sociedade na qual, segundo a pesquisa divulgada pelo PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), em 10 anos (1996 a 2006) cresceu 36% o número de relacionamentos de mulheres mais velhas do que seus parceiros.

‘Também, queria o quê?’ devia ser tema de matérias, estudo dos psicanalistas que opinaram sobre o desfecho Suzana x Marcelo. E merecer teses acadêmicas sobre em quanto tempo o interesse cultural da maioria dos leitores brasileiros passou a ter uma atriz global como pivô. E quantos anos se passaram desde que as mulheres dos anos 60 resolveram tirar o sutiã, tomar pílulas e virar a mesa.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/12/2008 alfredo sternheim

    Bem observado, Norma. Não adiantou muito a revolução das mulheres nos anos 60; ainda predomina a idéia de que elas não têm direito a uma vida sexual de livre escolha, sem limiotes de idade ou classes. Jane Austen, se estivesse viva, poderia escrever várias versões de Orgulho e Preconceito. É impressionante a ironia que cerca a maioria daquelas que se unem a homens bem mais jovens. Mas o contrário também rende certa bazofia e críticas de comportamento. embora em menor escala. Claro, a imprensa tem homens como proiprietários e muitos com o rabo preso nessa aárea, ou seja, trocaram esposas por amantes bem jovens. Porém, é só lembrar: nos anos 40, quando o genial Charles Chaplin, com mais de 50 anos, uniu-se a Oona O´Neill (uns 18), filha do dramaturgo Eugene O´Neill, também sobraram comentários perversos. Mas o tempo provou a verdade do amor entre ambos. A união gerou uns cinco filhos (a talentosa atriz Geraldine C haplin, entre outros) e foi até a morte dele no natal de 1977. A atração amorosa não precisa ser lógica e essa falta de convencionalismo precisa ser respeitada.

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