Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ENTRE ASPAS > CASO BORIS CASOY

O preconceito e os outros preconceitos

Por Sandro Vaia em 07/01/2010 na edição 571

Companheiros e companheiras, às armas: está decretada a luta de classes. Ou melhor: a volta da luta de classes. Nunca vi tantas almas boas em semelhante transe de apaixonado delírio pelos garis, essa notável e humilde classe trabalhadora, que um membro da elite desalmada e corrupta e da imprensa golpista ultrajou e ofendeu.


Deixaram vazar o áudio de um comentário privado de Boris Casoy sobre uma cena de um telejornal da Band, no final do ano, com uma saudação de ano novo de dois garis, que o apresentador achou de gosto duvidoso, e isso se tornou um ruidoso caso político. Claro: um direitista escabroso (como costumam ser os direitistas) tripudiando sobre a classe trabalhadora é assunto para mil concertos de violino. O fato de que Boris parecia mesmo era estar criticando a edição da reportagem produzida por seu próprio jornal, e não as pessoas dos garis, passou a ser questão secundária.


‘Vergonha’, ‘ódio de classe’, ‘arrogância’, ‘prepotência’ – gritaram indignados os politicamente corretos, em crise de aguda histeria.


Meu bom Ricardo Kotscho, o jornalista isento, do alto de sua imparcialidade congênita, disse que não foi apenas uma frase infeliz, e ‘quem o conhece, sabe que Boris disse exatamente o que pensa’ (ver ‘O verão dos borrachudos, das chuvas e do Boris‘).


Nas entrelinhas


Vida que segue. O sangue da indignação escorre das veias abertas dos blogueiros e dos comentadores de blogs. Nunca se viu tanto amor aos garis e tanto ódio a esses jornalistas venais, reacionários, direitistas, vendidos. Alguns chegam a murmurar, sottovoce, a palavra proibida – judeu! – para estigmatizar ainda mais o jornalista. Diante da impossibilidade de derrubar de novo a Bastilha e libertar de novo os oprimidos, tarefa que os franceses já se encarregaram de executar há séculos, os apedrejadores da honra alheia não deixaram Boris sobre Boris. Foram buscar até supostos antecedentes políticos de quatro décadas atrás para calcinar o chão que ele pisou – e que ele ainda pisa. Como se sabe, a remissão dos pecados está interditada para certas espécies de almas.


Tudo muito bem, tudo muito justo – é a liberdade de expressão em pleno uso, os leitores manifestando sua indignação contra o preconceito; por acaso existe coisa mais politicamente incorreta que o preconceito ?


Quando você vai ler as entrelinhas, encontra lá o sotaque hipócrita de sempre: os mesmos que querem a imprensa sob ‘controle social’, os mesmos cafetões da ‘justiça social’, da ‘igualdade’, os mesmos agentes de todas as bondades – os batedores de bumbo de sempre.


Frase infeliz


Aí você, que também odeia todos os preconceitos – contra os pobres, contra os garis, contra as minorias – pensa um pouco e pergunta: e onde estava toda essa indignação quando, em outra gravação vazada por acidente, Lula disse que Pelotas era um pólo exportador de veados?


Ah, mas isso era apenas uma centelha do notável senso de humor que um presidente da República nunca antes teve neste país.


O de Boris Casoy é um preconceito odioso porque ele, além de judeu, é de direita. O de Lula é apenas finíssima ironia, a manifestação de um elevado espírito jocoso, porque além de ser de origem pobre e nordestino, ele é de esquerda – ainda que de uma espécie falsa como uma nota de 3 reais. Aí pode. De direita é injúria. De esquerda é piada.


Para terminar, só uma pergunta para o Ricardo Kotscho: para quem o conhece bem, a frase de Lula sobre Pelotas foi apenas uma frase infeliz ou ele disse exatamente o que pensa? Ou foi apenas uma piada do chefe, da qual sempre é conveniente rir?


***


PS: antes que alguma peregrina alma torturada venha a dizer que estou aqui defendendo o preconceito, deixo um aviso: sou contra todos os preconceitos, inclusive – e principalmente – o da indignação hipócrita e seletiva da correção política caolha – aquela que enxerga um lado só.

******

Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 08/01/2010 Paulo Abranches

    Caro comentarista radical de esquerda, o que tem a ver com a estúpida frase de Casoy, o fato de ele ser judeu? Informação ultrarelevante, né? O que tem a ver a luta de classes nesse caso? O que tem a ver o Lula com isso? E pra que tanto elogio ao Lula? Sou eleitor do Lula, não sou nem de direita nem de esquerda (antes que falem que sou da direita…) mas acho que seu texto foi muito infeliz e mal redigido. Jornalistas de esquerda: parem de imitaros discursos Lenistas/marxistas!

  2. Comentou em 07/01/2010 Marcelo Rio

    Texto profundo quanto um pratinho de bolo de festinha infantil. Nem acredito que esteja presente num site tão bom quanto este.

    Se queria defender o Boris ( algo difícil ), deveria ter escolhido argumentos e não ironias e comparações patéticas com outro vazamento de aúdio.

    Caro Sandro, você me faz lembrar de um pensamento interessante que ouvi certa vez ‘O médico acha que é Deus e o jornalisa tem certeza’.

  3. Comentou em 07/01/2010 Zé da Silva Brasileiro

    Entre Sandro Vaia e Ricardo Kotscho fico com Cláudio Abramo em ‘A Regra do Jogo’, pag. 110: ‘ O papel do jornalista é o de qualquer cidadão patriota, isto é, defender o seu povo, defender certas posições, contar as coisas como elas ocorrem com o mínimo de preconceito pessoal ou ideológico, sem ter o preconceito de não ter preconceitos’.
    O episódio em questão apenas demonstrou cabalmente a nudez arrogante e preconceituosa do descuidado e decadente Bóris. Ele certamente será rifado, não por ser preconceituoso mas por ter sido descuidado.

  4. Comentou em 07/01/2010 Eduardo Alex

    Caro Sandro

    Realmente, há muito ideólogo de plantão q vive à espera do mínimo deslize de seu antagonista ideológico para desfiar o seu rosário hipócrita de indignação. Mas não dá para colocar todos no mesmo saco, como diriam popularmente.
    Eu fui um dos q ficaram estarrecidos com o ato de Boris, não por delírio pelos garis, mas por indignação ante a hipocrisia revelada por um homem q sempre transmitiu ao telespectador uma outra imagem.
    Me manifestei por blog e pelo espaço cedido por este Observatório pois não suporto preconceito de classe alguma. Para mim não existe diferença quando se está diante de um despautério ou de uma vileza. Seja o autor quem for, à direita ou à esquerda, deve ser criticado com veemência. A hipocrisia que surge em meio à critica, acaba se revelando um efeito colateral inevitável, mas que deve ser isolado. Do contrário, se contamina o todo e gente como Boris acaba como vítima ou mais um q somente fez o q todos os outros fazem. E, insisto, se quisermos uma sociedade vivendo numa cidadania verdadeira, não podemos aceitar comportamentos dessa natureza.

  5. Comentou em 07/01/2010 Silvio Miguel Gomes

    Uma coisa importante que se pode depreender desta celeuma é que um assunto muito restrito, tal como foi o caso do Lula-Pelotas, o caso da criança Sean, caso do Batisti. Alguns falam em ‘massa’. O povão não esteá nem aí para este tipo de celeuma.

  6. Comentou em 07/01/2010 Walber Schwartz

    Sandro, que missão ingrata a que vc se propôs; defender o indefensável e tentar justificar um erro com o outro. Votei contra o PT na reeleição. Sinto-me enojado com o surpreendente mar de lama que correu nos subterrâneos deste governo, tanto quanto dos outros, quando o que se esperava do partido autodeclarado reserva moral da política brasileira era que levasse o nível de corrupção na administração pública a níveis ínfimos. Fiquei revoltado ao ver o tiraniano Ahmadnejad ser recebido com honras no meu país. Mas nada justifica a extrema grosseiria de Borys Casoy. Engraçado que vc levante a bandeira do ‘fim da hipocrisia’ para defendê-lo. Ok, vamos acabar com a hipocrisia então. Que tal começar pelos jornalistas? Que digam o que pensam no ar. E que jamais deem destaque a gente que, na verdade, desprezam. Os garis não se ofereceram à edição, certamente. Foram convidados. Participaram gratuitamente, e nada justifica serem ridicularizados – senão por preconceito, no mínimo por questão de respeito. De resto, por falar em piada pronta, seu texto e seu sobrenome se complementam.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem