Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > SILÊNCIO DA MÍDIA

O presidente da Philips e o Piauí

Por Fabio Pereira em 28/08/2007 na edição 448

O repúdio a declarações e gestos infelizes de auxiliares do presidente Lula durante o desenrolar da chamada crise área criou a idéia de que a imprensa brasileira não teria tolerância aos ditos ‘atos falhos’ de homens públicos. O ‘relaxa e goza’ da ministra do Turismo, Marta Suplicy, e o ‘top-top’ do assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, foram os episódios mais emblemáticos desta nova era no jornalismo brasileiro.


Pois bem, temos então uma imprensa que vilaniza todos aqueles que de alguma forma ocupam postos importantes na sociedade brasileira e, em um lapso, se manifestam publicamente de forma grosseira? Não! Não temos. Semana passada o presidente da Philips, Paulo Zotollo, um dos líderes do movimento oposicionista ‘Cansei’, criado após a tragédia de Congonhas, disparou, em entrevista ao jornal Valor Econômico: ‘Não se pode pensar que o Brasil é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado’ e, pasmem!, nenhuma indignação na grande imprensa.


Zottolo se desculpou – é claro –, pois não é de bom tom para um executivo de uma multinacional holandesa expressar o que pensa sobre um estado pequeno de uma região que fornece mão-de-obra barata para os grandes centros urbanos do país. Até aí, tudo dentro da formalidade. O que é de se estranhar é o silêncio, a tranqüilidade com que essa declaração foi recebida pelos jornalistas dos veículos que ultimamente têm se empenhado em bombardear comentários ‘impróprios’ de pessoas públicas – claro!, desde que sejam do PT ou do governo Lula.


Nefasta declaração


Só para lembrar: a Philips está patrocinando o movimento ‘Cansei’, articulado por setores da elite paulistana em oposição ao governo Lula. Mas, aí não teríamos um caso de interferência na soberania nacional? Vocês lembram quando o presidente venezuelano Hugo Chávez disse que o Senado brasileiro era papagaio dos Estados Unidos? Quanto ódio nossos jornalistas dispararam, com editoriais, comentários, xingamentos… Claro, tudo em nome da soberania do país, não é?


E agora? Uma empresa estrangeira pisa em solo nacional e patrocina um movimento político que tem um slogan golpista: Fora Lula! Seu diretor revela sua face nazista e ninguém diz nada! Não tem repercussão! Por quê? Onde está a fúria eloqüente do Alexandre Garcia, do Arnaldo Jabor, da Miriam Leitão, da Dora Krammer? Onde colocaram a língua? Não responderei, pois poderei estar cometendo um ato falho.


E o Ali Kamel, homem forte do jornalismo da Rede Globo? Não disse que o grande fluxo e a variedade de anunciantes garantem à grande imprensa o equilíbrio e a chamada independência? Ora! Será que a Philips holandesa ameaçou não anunciar mais na Globo se a emissora descesse o sarrafo no seu representante no Brasil? Se a resposta for sim, a teoria da independência do Kamel está errada.


Será que se o teor da declaração de Zottolo fosse usado por Lula ou alguém de seu governo ou do PT teria o mesmo desprezo? Acho que o vídeo postado pelo repórter Luiz Azenha no YouTube responde o que a maioria dos nossos jornalistas faria se soubesse que a nefasta declaração fosse dada por algum membro do governo ou pelo próprio presidente.

******

Jornalista, Camaçari, BA

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/04/2009 Luis Guilherme Pontes Tavares

    Prezados editores, grato pela publicação do artigo ‘O estilo gonzo no Brasil’. Até mais. Abraço, Luis Guilherme

  2. Comentou em 01/09/2007 Ricardo Camargo

    Parabenizo os serenos comentários do Sr. Fábio CArvalho, da Sra, Alexandra e digo, em relação ao Sr. Thiago Conceição, que pare, não com a ‘vigarice’ – expressões plebéias são de estranhar em quem exige de mim o comportamento de um cavalheiro -, mas sim que verifique que suas manifestações em relação à minha pessoa não passam de transferÊncia, no sentido freudiano do termo. Não dirigi nenhum adjetivo ao sr. durante toda a discussão, mas procurei, antes, mostrar a fonte das minhas conclusões e o porquê de isto não implicar logicamente uma adoção de uma postura anti-capitalista. Agora, o sr. se alimenta de espetáculos e vive cercado em seu mundo de guerra fria. Vá em frente e dê o seu show.

  3. Comentou em 31/08/2007 Thiago Conceição

    Fábio Carvalho, a acusação de comunista foi feita apenas contra o Ricardo Camargo e alguns outros (como o Marcelo e Gustavo Morais) e mais ninguém. Alguns deles são comunistas confessos, outros negam embora os seus comentários sempre dão a impressão do oposto. O Piauí é insignificante se comparado a São Paulo. Por quê?
    Tem pouco impacto na economia brasileira e historicamente influenciaram muito pouco a realidade atual do Brasil. Isso não é ofensa e tampouco ataque, é apenas a verdade. Deduzir que isso significa ‘o valor da vida humana’, assim como o comunista Gustavo Morais faz, é uma simples mentira. Comparar isso com o ‘relaxa e goza’ da ministra é um disparate, pois o que ela disse nem chega perto de ser verdade, é apenas a demonstração do descaso com o caos aéreo.

  4. Comentou em 30/08/2007 Thiago Conceição

    Ricardo Camargo, o problema é que você tenta convencer os demais através da verbosidade e de uma retórica tortuosa ao invés de ser objetivo. Será vício da profissão? Parece-me até que você deseja passar uma impressão aos demais de que é mais do que realmente é, enquanto tenta confundir quem quer que seja seu interlocutor no momento. Atribui-lhe afirmações esdrúxulas para construir uma lógica que lhe seja favorável, e assim consiga convencer os outros do impossível. Um humilde brasileiro como eu que estuda latim nas horas vagas e lê um livro ou outro de vez em quando pode ver isso, talvez você não esteja fazendo certo? Voltando ao assunto, todos nós sabemos que ninguém convence ninguém aqui e que há muitos militantes do PT e de partidos de esquerda interessados apenas em fazer a sua opinião prevalecer. O Piauí é irrelevante se comparado a São Paulo. São Paulo é muito mais significativo para a história do Brasil do que pinturas rupestres, e esse foi único sentido adotado tanto por mim quanto pelo presidente da Philips quando citou o Piauí na entrevista. Todo o resto é invenção sua. Eu chamei apenas você de comuna, e mais alguns outros que aqui freqüentam (como o Marcelo, o Célio, etc). Todo o resto também é invenção sua. Hoje em dia a ONU até diz como o governo brasileiro deve usar o território, como o caso da reserva indígena, e ainda ‘se irritam’ se há hesitações em obedecer.

  5. Comentou em 30/08/2007 Ricardo Camargo

    Por outro lado, como não existe um poder supranacional, com força de imposição sobre todos os Estados soberanos, não se pode esquecer que as regras do Direito Internacional seguem, muito mais, o princípio considerado regra de ouro do direito liberal, que é o da necessidade de observar rigorosamente os pactos livremente celebrados – ‘pacta sunt servanda’ -. E, para que os tratados internacionais se considerem válidos, é necessário que sejam celebrados por sujeitos dotados de soberania – qualquer manual elementar de Direito Internacional diz isto -. A idéia da Paz Perpétua, pelo estabelecimento de um Governo mundial, provém de Kant – o livro com este título (A Paz Perpétua) foi traduzido para o português pelas Edições 70, de Lisboa -. E Kant não tinha a menor simpatia pela ‘plebecula abiecta’, defensor que era do voto censitário. A adjetivação como instrumento de ‘argumentação’ não passa de um recurso de afirmação de fé, sem força de convencimento para além do momento em que proferida. Desta vez, pelo menos, não estamos no campo perigoso da ‘mutatio controversiae’, como ocorreu em outra ocasião, referida pelo Sr. Cério. Estamos, pelo menos, debatendo o mérito das proposições – e ‘proposição’, conceito da lógica formal, como se sabe, não é sinônimo de ‘proposta’ -.

  6. Comentou em 29/08/2007 Ricardo Camargo

    Respeitado opiniões, que me assegurem o direito de as ter: (1) frases infelizes, tanto de integrantes de Governo quanto de integrantes de empresas privadas cujo poder ultrapassa – de acordo com o que a própria ONU entende, a ponto de haver elaborado um Código de Conduta das Empresas Transnacionais, consoante estudo elaborado em 1986 pelo Prof. Luiz Olavo Baptista, da USP – a possibilidade de submissão a um único regime jurídico, são igualmente graves, igualmente ofensivas, igualmente denegatórias da dignidade da pessoa humana – o conceito deve ser buscado em Kant, clássico do liberalismo, a propósito – e hão de ser avaliadas de acordo com a doutrina construída pela Suprema Corte dos EUA no caso Shelley v. Carr; (2) na obra dos dois juristas anti-comunistas Carlos Alberto de Melo Lacerda e Lauro Lacerda Rocha, na qual a relevância do Piauí sob o ponto de vista, p. ex., da arqueologia – dois sítios importantes ali se localizam, Sete Cidades e São Raimundo Nonato – é destacada (Comentários ao Código de Mineração. Rio de Janeiro: Forense, 1983); (3) o espaço de manifestação do pensamento do Presidente da Philips, em qualquer veículo de comunicação social, dificilmente será sonegado. Claro que isto não lhe dá imunidade, como aquelas que são asseguradas, desde a Revolução de Cromwell, aos Parlamentares ou que são asseguradas ao advogado. Liberdade pressupõe responsabilidade (Kant).

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem