Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > IMPRENSA LOCAL

O quarto poder a serviço do governo

Por Raphael Ferreira Godoy em 20/07/2010 na edição 599

Todo jornalista por formação – e até aqueles que se dizem jornalistas – já se deparou com a máxima de que a imprensa é o quarto poder, uma referência aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, que ditam os rumos de um país. De um ponto de vista mais pontual e menos abrangente, temos as cidades com seus três poderes constituídos e a imprensa. Dentro desta perspectiva, cabe ao quarto poder vigiar e denunciar quando um destes três outros poderes faz algo que vai contra o bem-estar da sociedade. Assim, os moradores daquela cidade poderiam estar sempre cientes daquilo que seus representantes políticos estão fazendo de certo e de errado. Mas, infelizmente, não é assim que as coisas funcionam em muitas cidades, principalmente as cidades do interior.

Em João Monlevade (cidade situada a 100 km de Belo Horizonte), o que se vê é uma imprensa suja, comprada e sem perspectivas de melhoras. Em 2008, o vereador reeleito Robertinho do DVO, usando a tribuna da Câmara Municipal, disse que ‘a imprensa de João Monlevade é comprada’. A declaração do edil teve uma enorme repercussão e jornalistas protestaram na Câmara. Os donos dos jornais começaram uma caça implacável ao vereador, mas, no fim, ele se reelegeu.

O problema todo é que o vereador tinha razão, ele sabia do que estava falando. Quando começaram as campanhas eleitorais, foi percebido o posicionamento quase declarado de três jornais diferentes: Bom Dia, A Notícia e Monlevade. O Bom Dia partiu em defesa do candidato Gustavo Prandini (candidato do PV/PT, que venceu as eleições), o A Notícia fez o que pode para tentar emplacar o candidato da situação, Dr. Railton (PDT), e o Monlevade apoiou a candidata Conceição Winter (PMDB). Com a vitória de Prandini, os peemedebistas se alinharam aos petistas e pevistas e formaram o novo grupo da ‘situação’, enquanto pedetistas e peessedebistas formaram a nova oposição.

Avisos de licitação tinham preferência

Desenhado o novo cenário legislativo e executivo, mudou-se o tom das notícias dos dois principais jornais – Bom Dia e A Notícia. Enquanto o primeiro era só críticas em relação ao governo anterior, o segundo vendia a imagem da gestão pública perfeita. Mudou o governo, mudou o posicionamento; agora A Noticia critica o governo e o Bom Dia o defende. É neste ponto que começa o grande prejuízo para toda a população. Os dois jornais fogem à regra da imparcialidade e emitem suas opiniões em forma de verdades absolutas, o que sempre dá início a uma briga de manchetes tentando provar quem realmente está noticiando a verdade.

Os donos dos jornais trocam farpas em seus blogs e sites, sempre dizendo que o outro feriu a ética e a moral, dizem que o jornal A ou B é manipulador, enfim, uma briga tão simples de resolver como a guerra entre Israel e Palestina. Um acusa o outro de ser beneficiado pelo governo atual ou anterior e por aí vai. O fato é que contra números não há argumentos. Se forem observados os gastos públicos com publicidade durante os oito anos de mandato do ex-prefeito Carlos Moreira, fica clara a distribuição favorável em relação ao jornal A Notícia, observando-se o mesmo na atual administração – fica evidente a preferência pelo jornal Bom Dia.

Acontece que, no fim do ano de 2008, para compensar os meses sem publicidade do Executivo nos jornais por causa das eleições, a prefeitura despejou anúncios em diversos jornais da cidade. Não precisa ser gênio para deduzir e acertar que o jornal Bom Dia não teve nem uma linha de publicidade publicada em seu jornal. Até mesmo as publicações legais de avisos de licitação eram preferencialmente divulgadas no jornal A Notícia.

Por alguns zeros a mais

Com o novo governo, todas as publicações legais foram para o Bom Dia. Seguindo a tendência, as capas do Bom Dia passaram a ser coisas do tipo ‘Prefeitura faz e acontece’, enquanto as do A Notícia eram coisas do tipo ‘Prefeitura faz tudo errado e coisa pior vem por aí’.

Cada jornal procura dar ênfase naquilo que é melhor a seus interesses. O jornal A Notícia pode até ficar sem receber suas verbas públicas, mas não se preocupa com isso porque daqui a dois anos pode ser que o candidato apoiado por ele saia vitorioso nas eleições. O Bom Dia aproveita enquanto pode, pois daqui a dois anos isso pode acabar.

Dentro desse quadro mal pintado, quem perde é a população, que não pode contar com uma imprensa limpa e informativa. Os cidadãos menos esclarecidos ficam em meio a tiros cruzados dos jornais, rádios e informações desencontradas. Se alguém tentar avaliar o governo baseado apenas nos jornais, dificilmente conseguirá fazê-lo devido ao grande número de meias verdades. Se avaliar apenas pelo Bom Dia, a nota é 10. Se avaliar apenas pelo A Notícia, a nota é 0.

Enfim, apesar de João Monlevade possuir uma excelente faculdade de Jornalismo e profissionais capacitados para trabalhar em qualquer grande jornal do país, a cidade nunca conseguirá ter uma imprensa confiável. Tudo por culpa de uma mídia que se vendeu por alguns zeros a mais na conta bancária.

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Jornalista e analista de marketing, João Monlevade, MG

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