Sábado, 23 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1025
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FEITOS & DESFEITAS >

O que esperar de Larry Rohter

Por José Paulo Lanyi em 04/11/2008 na edição 510

Larry Rohter tornou-se nosso conhecido em 2004 por uma improvável conjunção de deméritos. Correspondente do New York Times no Brasil, ganhou os holofotes ao classificar o presidente Lula de ébrio, desses que bebem para esquecer e que, em seguida, bebem para lembrar, para então esquecer de novo e recomeçar do zero. O título em português daquela sua matéria: ‘Hábito de beber de Lula se torna preocupação nacional’.

O apetite etílico do presidente parecia ser tal que estaria perturbando o sono do lúcido e atento povo brasileiro. Esse foi o quinhão de malevolência do repórter.

Lula decidiu reagir e o fez qual um trôpego de botequim: deu a ordem de expulsar o americano do país. O gesto foi uma chuveirada que acabou por despertar aqueles que lhe creditavam, ingênuos, o bastião histórico da democracia.

Ambos se mereceram

Rohter fustigara o mandatário com uma reportagem sensacionalista. Pois, ainda que fosse verdadeira a sentença de que o presidente tinha lá a sua predileção por aqueles recreios que demandam copos, garrafas e, sobretudo, líquidos, o texto acabou indo longe demais ao afirmar que se tratava de um problema crônico que estaria consternando os cidadãos. Isso era, evidentemente, falso.

O povo brasileiro tinha outros desafios com que se ocupar, como sobreviver e, assim mesmo, pagar impostos. Não estava dando a mínima para as libações presidenciais, que, devo dizer, a bem da justiça, quase não chamavam a atenção. Lula não era um Boris Ieltsin. Os russos haverão de concordar comigo.

A matéria tilintou mal para o repórter, que, sem o menor senso de proporção, guindara os bastidores à condição de fatos de interesse da massa. Saiu no NY Times, para desespero dos provincianos, como poderia ter sido nos britânicos The Sun ou Daily Mirror, dado o parentesco no tratamento jornalístico a uma questão dessa natureza.

O presidente Lula não gostou, claro, mas perdeu a sobriedade ao ordenar a expulsão do jornalista. Ambos se mereceram, e a vida seguiu, cada qual a seu modo. Lula foi reeleito e Rohter continuou por aqui a escrever sobre o Brasil.

Brasileiros supersticiosos

Em março deste ano, porém, o jornalista deixou a sua função de correspondente e voltou para os Estados Unidos. Agora, lança uma obra que nos brinda com o seu olhar acerca do país. A revista Veja (edição 2085, de 5/11/2008) publicou trechos do livro. Deu no New York Times (Editora Objetiva), diz a revista, é uma compilação sobre cultura, sociedade, política, Amazônia e economia/ciência. ‘Cada uma delas traz as melhores reportagens do autor sobre o tema, introduzidas por um comentário geral, com uma visão mais pessoal e opinativa do que era permitido ao repórter em sua cobertura cotidiana’ [ver íntegra aqui, para assinantes].

A julgar por este trecho da resenha, de grande potencial humorístico, as matérias de Rohter eram menos pessoais, por assim dizer, e objetivas. Desta vez, sim, teremos a sua ‘visão mais pessoal e opinativa’. Resta, também, tentarmos entender o que mais o repórter americano teria hesitado permitir a si mesmo, em sua metodologia jornalística singular.

Tentemos com outro exemplo: nesse mesmo ano de 2004, que chamarei, metaforicamente, de fatídico, Rohter escreveria um artigo em que relataria ao seu leitor:

‘Nada como uma sexta-feira 13 para enervar as pessoas em países de todo o mundo. Mas, entre os brasileiros, o mês de agosto inteiro inspira temor – e para aqueles que acreditam em tal superstição, os augúrios deste ano podem ser especialmente desfavoráveis.’

Erros de julgamento e preconceitos

Assim se iniciava a sua antropologia informal. Aquela que, inspirada em uma meia-dúzia, ou em meio milhão de supersticiosos, generaliza a sua conclusão para um universo de mais de 180 milhões de pessoas. Para isso bastou ouvir um ou outro escritor, um ou outro historiador e pessoas do povo, como a dona Jaci:

‘`À medida que os dias passam sem que ocorra algum desastre, fico mais e mais tensa, esperando que o pior aconteça´, confessa Jaci Medeiros, 68, uma operária aposentada que nasceu em 2 de agosto, mas que teme este mês porque foi nele que morreram o marido e o irmão. `É somente quando chega setembro que eu finalmente começo novamente a relaxar.´’

O editor do Times também endossaria esta inquietante conclusão indutiva, apoiada em dados empíricos observados sob uma ampla variedade de condições: ‘Supersticiosos, brasileiros temem mês de agosto. Fatos históricos e crendices abundantes estigmatizam o período.’

Há quem defenda esse tipo de abordagem como apropriada para features, aqueles artigos mais ‘leves’ em que se busca, com o apoio de recursos estilísticos diversos, uma maior aproximação diante de uma personagem ou determinada manifestação cultural, uma perspectiva mais humana ou pessoal, sem preocupações temporais.

Nada contra, respondo, desde que, ao privilegiar o gênero, não se incorra em erros de julgamento e em preconceitos.

Asserções falhas

Ressalto que não pretendo cometer aqui o mesmo equívoco que me permito criticar. Não quero dizer que o trabalho de Larry Rohter deva ser rejeitado em bloco. Busco apenas, em consonância com os exemplos que apresentei, sugerir cautela diante de afirmações como estas do artigo da Veja:

** ‘Goste-se ou não, um repórter inquieto e um estrangeiro que conhece o Brasil melhor do que muitos brasileiros’;

ou:

** ‘Larry Rohter é um repórter inquieto, um representante da melhor tradição americana da liberdade de imprensa. É bom que o galo cante sem precisar da autorização do mandante da ocasião.’

O primeiro enunciado falha em sua tentativa de atribuir credibilidade ao jornalista. Ser um repórter inquieto e conhecer o Brasil melhor do que muitos brasileiros são asserções que, ainda que possam ser verdadeiras, não apóiam uma conclusão como: ‘Por isso, Rohter merece o nosso crédito’, ou ‘Logo, Rohter é um jornalista cuidadoso que busca ser fiel aos fatos’.

Luz amarela acesa

Da mesma forma, ser um ‘representante da melhor tradição americana da liberdade de imprensa’ é uma proposição contextualmente vazia. Além de também não apoiar as conclusões subliminarmente sugeridas, nada acrescenta, apenas afirma um senso comum jornalístico: repórteres gostam e precisam de (alguma) liberdade para trabalhar. Afirmar que alguém valoriza a liberdade de imprensa é insuficiente para refutar as críticas ao seu trabalho jornalístico.

O texto da revista embaralha duas noções: o pressuposto da liberdade de imprensa em um regime democrático e a boa conduta jornalística. Mas a primeira não depende fundamentalmente da segunda, e vice-versa.

Nesse sentido, que se tenha claro: o conceito geral de liberdade de imprensa rejeita a prática da expulsão sumária de um jornalista. Exercer o senso crítico é um direito assegurado ao profissional. Mas este também tem os seus deveres, como o de buscar, na medida do possível, em face das dificuldades naturalmente inerentes à prática de noções como imparcialidade, a mais rigorosa expressão das verdades de um determinado fato.

Ao menos nas duas reportagens aqui citadas, os métodos jornalísticos de Rohter revelaram-se ‘demasiado pessoais’ ou ‘excessivamente elásticos’. Mais do que isso: resultaram em exageros e incorreções.

A luz amarela permanece acesa.

******

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