Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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O que ler depois das eleições

Por Deonisio da Silva em 07/10/2008 na edição 506

Ir à banca e não ao banco (muito embora o primeiro seja sinônimo do segundo, quando usado no coletivo) tem dessas surpresas agradáveis: a Revista de História, da Biblioteca Nacional, traz matéria sobre o maior escritor que o Brasil já teve e assim dá um toque todo especial à efeméride do centenário de sua morte. A chamada de capa é ‘Machado de Assis como você nunca viu’.


Todos sabemos que Machado de Assis teve poucos leitores. Mas o que os autores extraem de informações já disponíveis é a grande novidade do dossiê, sem contar aquelas curiosidades trazidas por olhares diferenciados, quase estranhos ao ofício, como o do economista Gustavo Franco, examinando as relações de Machado de Assis com o dinheiro. Aliás, este ano ele já nos deu um belo livro: A Economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista (Editora Zahar).


‘Acionistas são ovelhas ou tigres’, disse, antes que Machado de Assis nascesse, o lendário banqueiro israelita Mayer Amschel Rothschild (1744-1812), fundador da casa de crédito que levaria seu nome. A família obteve muita fortuna com suas operações, especialmente com o financiamento de várias guerras européias.


No final do século 19, os Rothschild lideravam o ranking dos bancos, mas depois outras casas de créditos os superaram. A família distinguiu-se também na política, tendo vários membros barões do então poderoso império austríaco, além de um descendente ter sido o primeiro judeu a entrar para o Parlamento britânico.


Ovelhas e tigres


A frase indica o comportamento dos acionistas diante de operações que dão lucro ou prejuízo. Mas, como vem destacando Gustavo Franco em suas pesquisas sobre o ‘bruxo do Cosme Velho’, Machado teve prejuízo com ações e apólices, e ele e seus herdeiros arrostaram os infortúnios como ovelhas, sem que seus tristes balidos fossem ouvidos. Aliás, no caso de Machado de Assis, ele nem tossiu nem mugiu sobre sua vida de intelectual mal remunerado.


Ler um gênio – Machado, mais que gênio, é também oxigênio da inteligência brasileira – tem vantagens inesperadas. O fulgor de sua prosa levou até economistas, aparentemente seres insensíveis, a se interessarem por ela.


Ou alguém acha que o atual presidente do Banco Central, o doutor Henrique Meireles, tem coração? Ou que o ministro Paulo Bernardo, do Planejamento, também tem o órgão? Aliás, a este último os eleitores de Curitiba deram um duro recado, reelegendo o prefeito Beto Richa (PSDB) com 77,27% dos votos e creditando a Gleisi Hoffman (PT), esposa do ministro, apenas 18,17%. Talvez os eleitores também sejam ovelhas ou tigres.


Bom cabrito não berra


Até a efeméride de 1929, o ano do crack da Bolsa de Nova York, é evocada no centenário da morte de Machado, lustrando-se assim com um velho verniz o crack atual de Wall Street, que põe os maiores bancos dos EUA de joelhos, sendo socorridos, não pelo mercado, o deus diante do qual viveram até então ajoelhados, mas pelo Estado, a maior vítima de suas idéias e de suas ações.


Como lembrou Frei Betto em artigo publicado na Folha de S.Paulo (6/9/2008, pág. 3), ‘o programa Bolsa-Fartura de Bush reúne quantia suficiente para erradicar a fome no mundo. Mas quem se preocupa com os pobres?’.


E quem pagará a conta? O frade e escritor pergunta e ele mesmo responde:




‘A resposta é óbvia: o contribuinte. Prevê-se o desemprego imediato de 11 milhões de pessoas vinculadas ao mercado de capitais e à construção civil. Os fundos de pensão, descapitalizados, não terão como honrar os direitos de milhões de aposentados, sobretudo de quem investiu em previdência privada.’


Os leitores de Machado de Assis têm, pelo menos, o consolo surrupiado a outros: a economia não tem a hegemonia que nos fazem crer que tenha. Outros valores podem mais alto ser alevantados. O nosso escritor desfraldou muitas outras bandeiras, entre as quais uma em especial: o olhar desconfiado diante dos vencedores de ocasião.


Mas seus leitores não podem, como os acionistas, ser divididos apenas entre ovelhas e tigres. Os bichos usados por Jesus nos Evangelhos para metáfora dos tempos escatalógicos são outros: ovelhas e cabritos.


Como o Brasil inteiro diz, ‘o bom cabrito não berra’. O bom cabrito em nosso país não é o pecador, para o qual não haverá mais possibilidade de salvação, mas o contribuinte.

******

Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de Cultura e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da ed. Novo Século); www.deonisio.com.br

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