Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O que o UOL tem a ver com isso?

Por Fábio Fonseca Figueiredo em 10/11/2009 na edição 563

Entre 28 e 30 de outubro aconteceu em São Paulo a Expocatadores, evento promovido pelo Movimento Nacional de Catadores cuja finalidade foi promover o diálogo entre governo, iniciativa privada e sociedade para estimular políticas públicas e iniciativas voltadas para a melhoria das condições de vida dos catadores. Convidado de honra, o presidente Lula compareceu ao evento e não sem demora discursou para o grande público.

Visitando o site do UOL durante o período da Expocatadores, encontrei três reportagens sobre o evento que simplesmente reproduziam a fala do presidente Lula. Por ser o maior portal de internet da América Latina, como menciona em sua propaganda, o UOL deve ter a responsabilidade de confrontar o que disse o presidente na Expocatadores com outros olhares sobre a questão – por exemplo, consultar o que se tem investigado no meio acadêmico sobre a problemática dos resíduos sólidos urbanos no Brasil. Ficar somente com a versão oficial soa mais como propaganda governamental, o que desvincula o objetivo da mídia nacional de compromisso com o leitor.

No dia 28/10/2009, às 07h00, o UOL publicou a reportagem ‘Com exposição, catadores buscam visibilidade para poder cobrar pela reciclagem’. O texto menciona a situação precária em que vivem os catadores de lixo no país e ressalta a importância da Expocatadores para a categoria. Já no dia 29/10/2009, 14h41, a reportagem ‘Lula diz a catadores que prefere muitos ganhando pouco que poucos ganhando muito’ reproduz o discurso do presidente Lula na Expocatadores.

Outras atividades laborais

É unânime que os catadores compõem o estrato mais fragilizado sócio, econômico, ambiental e cultural do país. Originadas de múltiplos processos de exclusão social e pobreza econômica, estas pessoas denominadas vulgarmente de catadores de lixo encontram na atividade da coleta e venda de materiais recicláveis uma estratégia de sobrevivência. Essa constatação sensibiliza o presidente, de maneira que em seu discurso na Expocatadores e reproduzido na reportagem da UOL do dia 29/10/2009, ele comentou: ‘O dinheiro é consequência. A maior virtude de vocês [catadores] é que ninguém nunca me pediu para sair dessa profissão. Pedem respeito e condições para que possam trabalhar sem ter que baixar a cabeça.’

O presidente Lula certamente não teve acesso aos escritos de André Gorz quando o autor franco-austriaco fala da significação do trabalho, ou seja, que uma sociedade que pretenda ser justa deve proporcionar formas de trabalho de maneira que o homem (trabalhador) seja feliz com a realização do trabalho, e não trabalhe por falta de opção laboral. Seguindo a mesma linha de raciocínio, Marcel Burztyn afirmou no livro No meio da rua que por mais que os catadores estejam formalizados e remunerados, o estigma de pessoa (ou profissional da reciclagem, se o presidente preferir) que vive do lixo dos outros permanecerá. Neste sentido, ‘o catador será sempre catador’, comentário de um catador de Natal que participa do programa oficial de coleta seletiva da Prefeitura, entrevistado por mim em 2007.

Faltou também ao presidente Lula a leitura do importante relatório produzido pela Coordenadoria de Desenvolvimento e Planejamento (Codeplan) de Brasília, com os catadores da capital federal no final dos anos 90. Segundo o relatório, praticamente a totalidade dos catadores entrevistados desejavam continuar na atividade de coleta de material reciclável, todavia e contraditoriamente desejavam atuar em outras atividades laborais, caso houvessem possibilidades.

Coleta gera benefícios ambientais

A literatura acadêmica confirma a realidade das ruas e lixões, nos mostrando – e as muitas reportagens do UOL já apresentaram – que uma pessoa passa a sobreviver da coleta de materiais recicláveis justamente por não conseguiu inserir-se no mercado de trabalho formal ou informal. Logo, a coleta de recicláveis, e em muitos casos a coleta de restos de alimentos para o consumo direto, é a última possibilidade de sobrevivência do catador. Sendo assim, por piores que sejam suas condições laborais, o catador ‘nunca pedirá para sair dessa profissão’, como bem disse o presidente Lula, o qual pode até ser visto no vídeo postado pelo UOL na sua reportagem do dia 29/10.

Como acadêmico, senti a falta de uma análise jornalística que questionasse a proposta esfuziante do presidente Lula de profissionalizar pessoas para recolher e separar resíduos nas cidades brasileiras. Também não encontrei nas três reportagens da UOL qualquer contestação ao fato de que quase um milhão de brasileiros e brasileiras sobrevivam das sobras dos resíduos alheios, catando-os em ruas e lixões do país. Pergunto ainda se alguém da redação do UOL já investigou o por que dos catadores se denominarem catadores. Será que a origem desse nome tem alguma relação com a exclusão e expulsão do meio rural, no qual estas pessoas excluídas e expulsas migram para a cidade e vão catar o lixo para sobreviver?

Como já comentei neste espaço (‘O lixo fora da lata’, de 27/10/2009), é preocupante a falta de conhecimento técnico da imprensa brasileira sobre a questão dos resíduos sólidos no país. A falta de informação/conhecimento faz a imprensa apoiar sem debater a profissionalização dos catadores, já que a coleta de materiais recicláveis gera benefícios ambientais à sociedade.

Situação econômica inusitada

O lugar-comum desse debate mostra que à medida que os resíduos são desviados à reciclagem, menos resíduos são tirados em lixões, rios, montanhas, praias, etc. Essa análise linear fez o presidente Lula dizer na Expocatadores, reproduzido pelo UOL no dia 29/10/2009: ‘Essas pessoas [catadores] estão fazendo um bem extraordinário para a sociedade.’

Na visão do presidente, e penso que também dos jornalista que produziram a matéria da UOL, a importância sócio-ambiental dos catadores está em que sua atividade tem contribuído para a diminuição da contaminação ambiental dos resíduos. Também pelo fato dos materiais coletados terem como destino a reciclagem, prática ambientalmente satisfatória desde uma perspectiva de destinação final dos resíduos.

Segundo os empresários do Compromisso empresarial para a reciclagem (Cempre), um dos motivos que dificultam o crescimento da indústria de reciclagem no país é a falta de material reciclado. Tentando mudar este quadro, muitas recicladoras têm financiado cooperativas de catadores no sentido de aumentar a produtividade e a qualidade do material reciclado coletado pelos catadores. Por outro lado, os catadores desejam que aumente a quantidade de materiais reciclados disponíveis no lixo, já que há demanda industrial para a compra destes materiais. Temos, portanto, uma situação econômica inusitada na qual a demanda é maior que a oferta.

Por que a mera reprodução?

Tomando como referência a Agenda 21 global, qualquer plano ambientalmente satisfatório de manejo de resíduos deve ser elaborado sobre o critério da prevenção, começando por desenvolver estratégias de não geração dos resíduos. O Greenpeace vem acenando que as administrações públicas devem investir no programa Resíduo Zero, dando maior relevância à diminuição na quantidade de resíduos gerados na origem e não na reciclagem destes resíduos, como tem se mostrado presente no discurso da área ambiental do atual governo e referenciado pela quase totalidade da midia nacional.

Apesar dos benefícios ambientais conseguidos com a reciclagem, não devemos esquecer de que a reciclagem é uma atividade econômica com objetivos de lucro capitalista. Na reportagem do UOL ‘Em feira, empresários buscam aproximação com catadores de rua’ (28/10/2009, 19h00), está claro que a reciclagem é uma atividade econômica, sujeita, portanto, às nuances do mercado. A reportagem cita como exemplo a aproximação de uma empresa com catadores de rua que recolhem as garrafas PET para a transformação do material em varal de uso doméstico.

Não entendo por que os jornalistas do UOL se limitaram a reproduzir a fala do presidente Lula, sem questionar o verdadeiro ‘benefício extraordinário que os catadores estão fazendo para a sociedade’. Que beneficio é esse uma vez que quanto maior for a geração de resíduos (desejo dos catadores pois assim aumentam suas rendas), um tanto pior será para o meio ambiente e consequentemente para a sociedade? Nas três reportagens sobre a Expocatadores entre 28 e 30 de novembro faltou indagar a importância dos catadores para o país, fato tão ressaltado pelo presidente Lula. Contrapondo a fala do presidente na Expocatadores, por que os jornalistas do UOL não vislumbraram a possibilidade de inclusão social do catadores por outros caminhos que não fossem coletar e separar resíduos – por exemplo, pela via da melhor distribuição de renda no país e pela melhoria no sistema educacional brasileiro?

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Doutorando em Geografia, Universidade de Barcelona, Espanha

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