Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA RADIOFÔNICA

O rádio cearense já morreu?

Por Francisco Djacyr Silva de Souza em 16/12/2008 na edição 516

Podemos afirmar com certeza que o rádio cearense está em fase terminal, não só pela falta de atitude dos que o fazem e os que o ouvem bem como pelo total desinteresse do empresariado que domina as concessões e faz o que quer com elas sem nenhum tipo de fiscalização ou ação do Ministério das Comunicações, que é omisso, ineficiente e desconectado da realidade em que vivemos e da importância deste meio de comunicação tanto histórica como social.


Não podemos aceitar tanta falta de respeito dos que compõem a sociedade com o nosso rádio, que certamente está presente em todos os locais, desde os mais inusitados aos diversos ambientes de vivência de nosso povo.


Quem ouve rádio tem de deixar a passividade de lado e exigir comunicação interativa, de qualidade, respeitosa, limpa na emissão, evidenciada por um processo de mudança que coloque neste meio comunicadores afinados com o que pensa o povo, e não com conveniências econômicas ou políticas. O rádio deve ter como bandeira a luta pela democracia, pela comunicação ética, pela valorização do ser humano e pelo respeito a quem ouve – que não é idiota e sabe distinguir o bem do mal ou o joio do trigo.


A passividade do sindicato


Não podemos aceitar que a cada ano sejam colocados no mercado vários profissionais de rádio que, com certeza, não terão emprego assegurado e só poderão desempenhar sua profissão se conseguirem publicidade para seus programas, que só irão ao ar através do arrendamento (salvo raras exceções). Em vários momentos, os que se organizaram em busca do rádio verdadeiro e cidadão buscaram apoio para esta luta e tentaram efetivar uma ação verdadeira em prol da melhoria do rádio, só encontrando portas fechadas, até nas instituições de ensino superior ligados às comunicações.


Por outro lado, onde está o Sindicato dos Radialistas neste momento de crise? Ao lado dos patrões, não cobrando emprego para radialistas por eles formados nem exigindo o mínimo de condições de trabalho para seus sindicalizados, que têm de ter outra profissão para viver. Muitos dos que viviam do rádio, quando o deixam acabam por passar dificuldades e condições precárias de vida. Não podemos aceitar a passividade de um sindicato que não cobra Código de Ética ou a legislação das comunicações no rádio que é utilizado da maneira que os supostos proprietários querem.


Apenas uma lembrança…


Muitos varrem a crise do rádio para baixo do tapete, mas os que fazem isto são os que vivem muito bem no rádio graças ao jogo de interesses de que participam, aos alôs que mandam em troca de dinheiro e ao espetáculo de bajulações tão comum em um rádio que esquece seu papel e sua importância. A crise no rádio cearense AM é uma realidade e vai acabar destruindo este meio de comunicação que, apesar de ainda resistir, tem nos seus supostos donos uma mera máquina de fazer dinheiro sem importância social, nem valor cidadão. O rádio precisa de uma reciclagem urgente, precisa de investimentos em qualidade, precisa de novos profissionais que queiram fazer comunicação e precisa que a sociedade se organize para o efeito verdadeiro da mudança que será benéfica para todos.


É triste ver o rádio cearense em rede nacional tendo suas emissões locais interrompidas em meio a um debate por um chamado da rede que cobre e faz o que quer – transmite notícias repetitivas e desconectadas de nossa cultura. Não podemos aceitar que grupos evangélicos e políticos dominem o rádio e o transformem em um caminho de única via de venda de água milagrosa, exorcismo e um lugar no céu. Não somos contra a religião, mas entendemos que lugar de religião é nos templos, e não no rádio.


O rádio AM cearense agoniza e está em fase terminal. Poucos querem ver isso e por isso são discriminados, desrespeitados e desacreditados na luta por um processo de conveniência e na luta desenfreada por dinheiro, que muda concepções, causa traições e cala vozes. Se continuar do jeito que está, o rádio cearense será apenas lembrança e a informação, a comunicação interativa e o papel cidadão, que sempre foram sua característica, serão apenas sonhos de uma noite de verão…

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Vice-presidente da Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará, Fortaleza, CE

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