O Senhor Mercado foi ao dentista | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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FEITOS & DESFEITAS > RANGIDOS E TRINCADURAS

O Senhor Mercado foi ao dentista

Por Alberto Dines em 09/09/2008 na edição 502

No ano passado, a mídia anglo-saxônica designava amavelmente a crise imobiliária que viraria o mercado financeiro de ponta cabeça como ‘credit crunch’ – rangido, trincadura, do crédito. Coisa passageira.


Um caderno especial de 40 páginas dentro da edição do Economist de 20/10/2007 tinha exatamente este título: ‘Lessons from the credit crunch – a special report on central banks and world economy’. Na capa do caderno a cândida e cínica explicação para a tremenda crise: ‘Only human’ – os bancos centrais são apenas humanos, há que compreendê-los e perdoá-los.


Cerca de 11 meses depois, a surpreendente intervenção estatal nas duas instituições hipotecárias americanas – Fannie Mae e Freddie Mac – desvenda o tamanho dos erros de avaliação cometidos pela mídia especializada em economia & negócios e escancara sua incapacidade de exercer plenamente o senso crítico.


O Senhor Mercado além de trocar a dentadura trincada, foi obrigado a trocar de dentista e apelou para o tratamento de choque.


Dias de folga


Nossa mídia evidentemente está perplexa e obviamente, boquiaberta. Acreditava na infalibilidade das leis de mercado e nos truques macroeconômicos capazes de reverter desastres e, de repente, descobriu que vivia no mundo da fantasia. O Estado ainda é necessário, a regulação é indispensável mesmo no meio de bolhas e do vale-tudo globalizado.


Como se não bastasse, a coisa foi decidida no fim de semana quando as nossas redações estão vazias, encarregadas apenas de jogar na rua as mirradas e insignificantes edições das segundas-feiras. O único jornal que conseguiu explicar a dimensão do acontecido foi a Folha de S. Paulo graças ao repórter Fernando Rodrigues, que está em Nova York por conta da cobertura das presidenciais americanas, e ao colunista Vinicius Torres Freire, cujo trombone soou como tonitruante tuba.


Valor achou mais importante destacar a transformação da Magnesita em multinacional do que registrar com a entonação apropriada a histórica goleada sofrida pelo capitalismo especulativo.


Mais uma vez comprova-se que nossos diários são diários apenas de terça a sábado. Domingos e segundas estão de folga. E como nosso jornalismo digital tem especial apreço pelos comandos recortar & colar nos dias e em horários em que os jornais estão em funcionamento, o jornalismo do futuro ficou órfão, igual ao jornalismo do passado. E, juntos, fartaram-se de comer moscas.

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/09/2008 Ivan Moraes

    1-‘não sou mesmo desse time dador de voz. Não represento quem quer que seja’: so pode ser por isso que ‘quem quer que seja’ nao te tolera! 2-‘Em pouco tempo o que virá à tona é o fortalecimento do capitalismo. Só estão acabando com a farra especulativa’. Farra especulativa dos ricos pode, quando todo mundo tem acesso ao computador nao pode? 3-Mas adoraria ver voce reconciliar essas duas sentencas, Magalhaes: 1–‘Por uma atitude que beirou a arrogância, antes mesmo de livrar sua moeda da condição de lastro, os norte-americanos atentaram ainda mais contra a segurança. Foi quando substituiram o ouro pelo seu dólar, como lastro dos tesouros’. 2–‘Há gente pensando que a intervenção do Estado norte-americano nas duas empresas sinalize alguma mudança no sistema capitalista, em direção a algo mais ‘social’. Bobagem.’ Deixe me entender: a parte ‘confianca’ do dinheiro esta falhando miseravelmente, mas nao precisa de qualquer mudanca ‘no sistema capitalista’ em direcao a algo mais ‘social’. Confianca entao eh parte de… o que? Sistema nao-social?

  2. Comentou em 09/09/2008 Raul Kastrol

    ‘É o contrário da expectativa da esquerda. Não acontecerá nada parecido com a distribuição da riqueza das empresas privadas para ‘o povo’. Ninguém pensa uma bestagem dessas por lá.’. Só o famigerado Thomaz direitista para escrever uma bobeira dessa mesmo. Ele destaca os termos ‘o povo’ entre aspas, pois, como ‘as empresas’, deve se achar muito superior em termos de ser um ser humano: mais inteligente, mais esperto, mais ‘educado’, mais elitizado, mais alienado, mais discursista capitalista e tal e qual. Ele, que bajula até o último fio de cabelo os norte-americanos, deve estar achando graça na falta de recursos de sobrevivência para os mais carentes. E é claro que vai pesquisar na internet o que sejam esses ‘recursos de sobrevivência’, em razão de viver um estado de graça desde a época de FHC, que não explicou o desvio de verbas das privatizações, o abafa abafa das CPIs, os grampos do BNDES, o caixa 2 das campanhas tucanas, inclusive de Arthur Virgílio, o novo ‘Carlos Lacerda’. Thomaz, depois que começou a escrever seu nome com as iniciais em maiúsculas, não deixou de ser mainardista: dirige seu veneno preconceituoso à qualquer lugar ou ser humano que não disponha de luxo e ostentação. Só não digo que a música Pavão Misterioso poderia ser seu hino pessoal, pois temos Serra e Virgílio como mais indicados para tal tema. O lulopetismo está bem nas intenções de voto. Já o P$DB…

  3. Comentou em 09/09/2008 José de Souza Castro

    Para entender o problema, é preciso ler muito mais do que esse texto de Alberto Dines, que tem como objetivo apenas criticar o despreparo da imprensa para tratar da questão, que é muito mais grave. O rombo do sistema financeiro americano é estimado em mais de um trilhão de dólares, e não há solução sem uma intervenção dos governos (não basta o Banco Central dos Estados Unidos intervir, é buraco grande demais até para o Fed). A imprensa não trata como deve da questão, porque, primeiro, não sabe como. Segundo, tem medo do que virá pela frente, quando se tornar incontrolável a perda de confiança no sistema financeiro americano e, por consequência, mundial. É um problema que vem sendo construído desde o fim do lastro da moeda, decretado pelos Estados Unidos no começo da década de 70, numa tentativa de salvar o dólar. Hoje o único lastro que subsiste é a confiança, um artigo cada vez mais raro – e a imprensa nada faz para melhorá-la, pois vem jogando fora, aos poucos, a própria credibilidade, elemento essencial para a construção da confiança pública no sistema financeiro. A solução que os gestores dos bancos esperam é exatamente essa, a socialização do prejuízo. Vamos todos pagar por sua ganância, disso não tenho dúvida nenhuma. E vamos pagar caro, porque não temos como controlar a caixa-preta dos bancos centrais, sobretudo o brasileiro (que o Lula, pobrezinho, acha que controla…)

  4. Comentou em 09/09/2008 Felipe Faria

    os bancos se ferraram porque emprestaram sem garantias. E assim fizeram porque o governo garantiu o empréstimo:- vai, vai, eu sei que ele é mau pagador, mas se ele falhar, eu cubro. Agora cobriu.

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