Quinta-feira, 22 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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FEITOS & DESFEITAS >

O sitcom nacional

Por Erre Moreira em 23/02/2009 na edição 526

O gorducho Jô Soares desempenha um papel curioso: ele leva há anos o nosso sitcom nacional. Meu pai falava, quando comecei a trabalhar em televisão, que a minha missão em vida era tirar as ‘risadinhas imbecilizantes’ dos seriados americanos. Dizia que esse era o tipo de tradição americana ridícula, que nos ditava quando rir, quando chorar e quando lamentar os fatos acontecidos na telinha. Não somos aptos a decidir por nós mesmos quando rir; muito mais fácil rir junto com uma massa indefinida, como se estivéssemos em um teatro ou uma sala de cinema.

E, como dizem por aí, rimos com uma coleção de pessoas mortas. Essas pessoas que riem a cada nova piada de diferentes maneiras, fazem todas elas parte de uma biblioteca de sons gravados há mais de cinqüenta anos – vêm junto com o latido do cão, o som da ambulância, o tiro de pistola ou de trabuco (ou melhor, de gun ou de shotgun, já que não somos os brasileiros a rir e a dar tiros).

Pois bem, se precisamos de uma coleção de pessoas para nos dizer quando rir em uma série que já não tem assim tanta graça, no programa de Jô Soares quem desempenha esse ingrato papel também está lá há muitos anos e é o segredo caseiro do programa de entrevistas: o Bira.

Um talento genuíno

Esse sujeito simpático, que você imagina indo com você à sinuca ou ao estádio de futebol, ri sempre dos momentos engraçados do programa, mesmo quando não é para rir (ou quando não é engraçado). E nos habituamos há séculos a rir com ele (ou da risada dele) quando vemos o programa. Esse mesmo sujeito funciona como censor: se ele não riu, é porque não tem graça. (E não adianta falar que os ‘ahhh’ – que também tem em bibliotecas de som – em finais de entrevista são genuínos. Isso é prática comum em programas de auditório. E, ao contrário das outras platéias, esses aí juntam grupos na faculdade e na escola de idiomas e vão mesmo como se estivessem indo aos jogos de futebol.)

Esse entrevistador, de formato copiado de tantos Jay Lenos e David Lettermans, já não consegue se reinventar. Antes, a piada do início do programa não parecia tanto alguém lendo um TP; as perguntas em seqüência pareciam vir mesmo da cabeça dele, e não do pauteiro; os convidados surpreendiam e não faziam com que esperássemos o retorno do ‘Matador de Passarinhos’ ou do Luís Fernando Guimarães. E por falar no formato americano, ali eles têm a Nicole Kidman em apenas 20 minutos e o Radiohead tocando uma música para fechar o programa. Aqui, de um bloco passamos a dois, quando o convidado tem algo a falar (e quando não tem também). Se um dia vier a Nicole Kidman, cai o jogo do Corinthians e a novela das oito.

Imagino se o Bira é mesmo (bem) pago para rir de todas essas histórias que nosso amigo Jô Soares repete a cada programa. Quando ele fala do livro dele na presença de um escritor, do filme baseado no livro, na presença do cineasta ou do grande ator que trabalhou com ele – e você nunca soube o nome de nenhum ator porque era muito pequeno quando ele tinha o programa de humor – na presença do ator da novela das 8. Será que o Bira ri porque ele é assim puro e ingênuo mesmo? Será que ele é bem pago? Será que o programa já se deu conta de que o segredo (e alma) do programa está nesse músico de bom coração?

Espero que não. Do jeito que vai a nossa televisão, se descobrissem que é o Bira o segredo do índice de audiência do programa noturno, já ele teria seu próprio quadro ou programa de entretenimento, de formato comprado da Endemol ou copiado da BBC inglesa. E aí iria pro buraco um talento genuíno de nossa televisão…

E um programa de entrevistas!

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Radialista e estudante, cursando mestrado em Televisão e Cinema em Barcelona, Espanha

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