Domingo, 24 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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FEITOS & DESFEITAS > DIRETAS JÁ, 20 ANOS

O último favor aos generais

Por Gilson Caroni Filho em 13/04/2004 na edição 272

Quando o então deputado Dante de Oliveira protocolou, em 1983, uma emenda restabelecendo eleições diretas para a presidência da República, o regime militar vivia seu ocaso. O país, imerso em profunda recessão, assistia ao fortalecimento de diversos movimentos sociais organizados. Para os principais atores políticos, a percepção de que estavam dadas as condições históricas para a redemocratização ampla era nítida. Esse sentimento animaria sindicalistas, estudantes, parlamentares de oposição, trabalhadores rurais, artistas engajados, enfim, parcela expressiva da população, no movimento que tomaria vulto no ano seguinte.

A campanha das Diretas-Já, em 1984, foi um dos momentos mais expressivos da história recente do Brasil. A mobilização popular dava o tom da retórica dos palanques. Havia uma liturgia mágica em cada comício. O que enlevava a multidão, e ampliava sua energia transformadora, era a sensação de protagonizar a própria história. O espetáculo não estava nos oradores, mas no mar de gente e bandeiras que mudava a geografia das ruas. Nunca o sentimento republicano foi tão visceral. Vinte anos depois, o grito, represado pelos porões da tortura e pela cumplicidade do baronato da imprensa, parecia querer retornar no tempo e desfazer a farsa. Algo como uma retomada impossível do passado, um desmentido cabal à declaração de vacância de cargo com o presidente ainda em solo brasileiro.

Adotando o amarelo como cor-símbolo, o movimento tinha uma musa, a cantora Fafá de Belém; um hino, Coração de estudante, de Milton Nascimento e Wagner Tiso; um locutor, o radialista Osmar Santos; um símbolo, Teotônio Vilela e, acima de tudo, um corpo vivo: o homem comum que nele se embriagou de identidades perdidas. Mas a tudo isso não faltaria um contraponto: a empresa monopolística de televisão que tentaria reduzir a festa da democracia a ruídos longínquos e imagens esmaecidas.

Se a ditadura estava nos seus estertores, qual o risco da vitória do movimento? Sem dúvida, receavam que dali surgisse um regime que fosse além da restituição dos mecanismos representativos do sistema político e do ordenamento jurídico. A possibilidade de uma democracia efetivamente social que levasse de roldão os interesses tanto do universo político conservador quanto os dos grupos empresariais mais fortes, aí incluída a grande imprensa. As demandas, saídas da panela de pressão do autoritarismo, davam um tom de imprevisibilidade ao processo político. E esse ponto era nevrálgico para as classes dominantes e seus esteios simbólicos. Como lidar com o imponderável da práxis democrática?

Vida penosa

Era necessário, mais uma vez, para os mesmos setores, conspirar, trair e sair com alguma legitimação política. Um verniz de mantenedor da ordem que agiu no momento exato. Outro golpe que assegurasse uma transição negociada, por alto, sem riscos. Antônio Carlos de Andrada, presidente de Minas, em 1930, voltaria a reencarnar como ícone da palavra de ordem das elites brasileiras: ‘Façamos a revolução antes que o povo a faça’. A TV Globo, prestes a pular do barco, não poderia se furtar, até em nome dos seus próprios negócios, a prestar um último favor ao estamento militar que tanto a favoreceu em duas décadas: sabotar a esfera pública que saía de seu controle. Calar a cidadania que tomava consciência da força que a ação política lhe emprestava.

Na edição de sábado (10/4) o jornal O Globo relembrou os 20 anos do Comício da Candelária. Desta vez não arriscou um caderno especial. Em matéria assinada por Letícia Helena, o episódio é narrado como uma tarde de ‘terça-feira, 10 de abril de 1984, em que não houve fila na porta dos cinemas cariocas que exibiam o documentário Jango, de Sílvio Tendler’. Segundo a repórter ‘em vez de assistir, na tela, às manifestações pró e contra que haviam marcado o governo de João Goulart, o carioca preferiu fazer história: um milhão de pessoas tomou a Avenida Presidente Vargas para pedir Diretas-Já’. Faltou contar que, naquela data, a sociedade civil, pela magnitude do evento, fez a emissora transmitir ao vivo uma campanha que censurava desde a sua origem, uma manifestação em Goiânia, em junho de 83, que contou com cinco mil cidadãos pedindo eleições diretas para a presidência.

Um ato convocado pelo Partido dos Trabalhadores reuniu 10 mil pessoas na Praça do Pacaembu (São Paulo) em 27 de novembro de 1983. Curitiba foi o palco do primeiro grande comício de 1984. As manifestações, desde então, foram adquirindo mais adesões e, em diversas capitais, houve atos públicos de grande porte. Na tela fria da TV Globo, porém, reinava solerte o silêncio do padrão de qualidade. A assepsia de um porão simbólico por onde jamais passaria a voz dos partidos de oposição à ditadura militar. Um espaço refratário à existência dos sindicatos combativos e entidades como UNE, OAB, Andes e ABI. Nunca a não-história foi tão noticiada para recalcar o que deveria ser debelado.

Um estrangeiro que estivesse em visita ao Brasil e assistisse à cobertura da manifestação na Praça da Sé, em 24 de outubro de 84, teria ficado perplexo. Imagens mostravam 300 mil pessoas empunhando faixas e bandeiras, e o telejornal da Globo explicava que aquilo nada mais era do que a comemoração pelo aniversário de São Paulo. Ou ficava evidenciada a farsa ou estávamos assistindo a uma manifestação separatista sem paralelos na história brasileira. Seria cômico se não fosse trágico. A TV Globo vivia um impasse. O papel histórico que lhe cabia punha em risco o maior patrimônio de uma empresa jornalística: a credibilidade.

Longa era a noite dos generais. Penosa a vida dos seus sócios. Os da imprensa (a exceção da época foi a Folha de S. Paulo) e os da elite conservadora congregada na oposição liberal e nas lideranças civis ligadas ao regime militar. Juntos arquitetavam a sabotagem contra o clamor das ruas. Um biólogo diria que era luta pela sobrevivência. Mas o campo de atuação era a história e suas possibilidades éticas.

Formação cúmplice?

Os grandes comícios continuaram até às vésperas da votação da Emenda Dante de Oliveira. Belo Horizonte, Rio de Janeiro e o colossal encerramento da campanha, no ato público que colocou 1,6 milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú, mostravam um país ávido por mudanças. Em todos eles, os participantes gritaram por ‘eleições diretas já’ e ‘o povo não é bobo, abaixo a TV Globo’. A história estava nua e convidativa.

Sob a decretação de medidas de emergência, a emenda foi rejeitada pelo Congresso. O processo sucessório deveria ser decidido, no Colégio Eleitoral, entre Maluf (PDS) e Tancredo (PMDB), este último apoiado pela família Marinho e os liberais de plantão. Mais uma vez a democracia era gravemente ferida por um pacto de elites. As ruas, não sem pranto, se esvaziaram e os cidadãos trocaram de lugar e natureza. Foram assistir ao fim do regime militar em casa, como telespectadores. A política, agora, se reproduzia como ação teatralizada. Olhos fixos na tela. A transição vinha como atração televisiva.

Passado tanto tempo, por que as organizações da família Marinho insistem em reescrever a história? Comentando artigo de Ali Kamel, diretor-executivo de jornalismo da emissora, publicado na edição de 1/10/2003 de O Globo, sob o título ‘A Globo não fez campanha: fez bom jornalismo’, Ivson Alves escreveu no site Comunique-se:

‘Será coincidência que este ‘revisionismo imagético’ aconteça também no momento em que a empresa estrategicamente pretende se arvorar como defensora dos valores culturais da nacionalidade – para confrontar as redes internacionais na arena do mercado internacional de mídia? Fica bem mais difícil atingir este objetivo se o país lembrar que a empresa apoiou a ditadura militar desde a sua fundação até os estertores do regime, chegando a ignorar até quase o fim a maior campanha de massa de sua história política.’

Não pretendendo responder à pergunta do articulista, elaboro outras: a aposta da Globo revela uma sociedade civil frágil e conservadora? É nisso que ela joga suas fichas? Numa estrutura tão anômica que qualquer argumento é aceito passivamente? Haverá, mais que fragilidade, uma formação cúmplice que facilitaria novas releituras? Talvez seja o caso de, citando Marcuse, reafirmar que ‘esquecer o sofrimento do passado é perdoar as forças que o causaram – sem derrotar essas forças’. Se houver, por parte da sociedade, o desejo de esquecer, estaremos todos condenados ao eterno fantasma do retrocesso. Àquelas conjunturas que produziram o ‘bom jornalismo’ que a TV Globo fazia há 20 anos. É hora de a sociedade brasileira dizer a que veio. Se é que veio.

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Professor-titular das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha)

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