Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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O zoológico na televisão

Por Robson Terra em 19/08/2008 na edição 499

A TV está prestigiada com programas da vida no campo. E do mundo selvagem. O Globo Rural é referência do assunto nos domingos pela manhã, com matérias didáticas e prodigiosamente elaboradas. Promove uma volta às origens rurais de brasileiros que vivem nas cidades grandes, mostra os que labutam no campo ou aqueles que estão voltando para o interior. A folclorização da vida do interior representa uma saturação do modelo da polis que prometia o futuro promissor e definitivo.

Atrações como Pantanal, Late Show, Globo Repórter, os bichinhos no palco do Faustão, no Gugu, a Belinha do Mais Você, os leilões de gado e programas de agronegócios, enfim, a composição do zoológico no circo eletrônico motiva audiência, business e emoções. Proibidos no picadeiro tradicional, por causa dos maus tratos, os animais têm trânsito livre na televisão. Dificilmente a novela não tem um mamífero que amplia o sentimentalismo e abocanha a simpatia de telespectadores que, sabiamente, amam os bichos.

O saudoso Mundo Animal foi pioneiro na utilização dos irracionais na tela. Encantava a série com leões, tigres, zebras e elefantes em seu habitat natural. As mosaicas edições do Globo Repórter incorporam efeitos de edição, de última geração, para realçar o espetacular da vida selvagem, rural, lugares exóticos, mundos desconhecidos e aves raras. Nada mais belo que o ataque de um leão, em câmera lenta, com a juba em movimentos sensuais. Um alívio perceber o mundo sem a velocidade do trânsito, rodízio de placas, bichos de pelúcia ou chaminés de São Paulo.

Saudade das origens

A venda do modelo de felicidade, harmonia e tranqüilidade dos programas podem representar o conto de fadas contemporâneo, um bálsamo em tempos de aquecimento global, volta da inflação ou, como classificou o mago da análise da TV, Artur da Távola, ‘por um relacionamento de natureza emotivo-artística com as necessidades do receptor… sejam elas cultas, incultas, instintivas, folclóricas, kitsch ou de qualquer outra natureza’. Ou seja, de segunda a sexta-feira a vida é um inferno. Depois das nove da noite e, aos sábados e domingos, até a hora dos ‘Fantásticos’, a vida é sonho. Não tem programação com tensão. Só A Favorita. Não será um ponto favorável a reprise de Pantanal? Se a Globo excita com Donatela & Cia, o SBT relaxa com a bela música e banhos de rio de Juma Maruá. Daí para a cama, é um pulo… Um sono perfeito.

O estímulo ao êxodo rural, nos anos 1960, promoveu um processo de urbanização perverso, com a descaracterização e desorganização dos sentido e existência da população rural brasileira. Na cidade perdeu-se a identidade, virou-se um número, o chamado CPF, o desemprego sufocou, marginalizou e a saudade das origens e a solidão urbana continuam a perturbar o sono.

‘O preço da liberdade’

Segundo Edgar Morin, o papa de todos nós, ‘a cultura de massa promove a desagregação dos elementos arcaicos da festa. Reunião de vizinhos, parentesco e amizade não constituem mais relações de proximidade. Com a aglomeração urbana, com a indiferença quanto à identidade e origem das pessoas, o ser humano busca uma reação contra um universo abstrato, quantificado, objetivado, fazendo uso de um retorno às fontes primeiras da afetividade. As atividades e o lazer voltam-se para o homem arcaico que cada um traz dentro de si’. Novelas como Cabocla, Pantanal e o núcleo interiorano de A Favorita são chiclete para os olhos. A trilha sonora com clássicos sertanejos completa a harmonia do quadro.

Assim, o homem arcaico precisa reencontrar a memória perdida, respirar o ‘ar puro’ televisivo que lhe resta, renascer com a evocação do passado ou sensações que podem ser de grande utilidade no presente como suporte para o existir. Buscar raízes sólidas na relação com o mundo. Na tela da TV, os animais, em paisagens plácidas, ensinam, em Cyrulnik, ‘que o mundo dos homens, embora sujeito a um constante processo de criação, permanecerá sempre por inventar. É neste trabalho de invenção que reside a nossa transcendência e a nossa inclinação para a loucura. Este é, talvez, o preço da nossa liberdade’.

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Jornalista, professor e mestrando em comunicação; Juiz de Fora, MG

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