Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DE CLAUDIA

O aborto em discussão

Por Ligia Martins de Almeida em 10/06/2008 na edição 489

A revista Claudia parece ter reencontrado sua vocação de pioneirismo na discussão dos temas femininos com ‘O mapa do aborto’. A matéria – seis páginas da edição de junho – é ilustrada por um infográfico que mostra a situação mundial em relação ao aborto: de países (em vermelho) onde é proibido aos países (em verde) onde é permitido sem restrições. E, em um convite para as leitoras, toma posição: ‘Leia esta reportagem e entre no debate para pressionar o Congresso Nacional – se depender dos parlamentares, nossa legislação vai andar para trás.’

Sem tratar de casos pessoais e sem apelar para argumentos emocionais, a revista presta um serviço às leitoras com as estatísticas que revelam os efeitos dos abortos clandestinos, mostra os projetos relacionados ao tema e explica o que está acontecendo hoje no Brasil:

‘O Projeto de Lei nº 1.135/91, que elimina a pena de prisão (de um a três anos) para quem aborta e que pode tirar o Brasil da zona vermelha para alinhá-lo com os países modernos, corre risco de engavetamento. Depois de ser rejeitado na Comissão de Seguridade Social e Família, aguarda um parecer na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, onde a possibilidade de vitória é remota: quem a preside é o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), membro da bancada evangélica e um dos signatários da proposta que torna o aborto um crime hediondo.’

Um problema que é de todos

Além de discutir a pressão religiosa no Congresso, a revista fala de propostas que classifica como ‘pérolas do atraso’: a concessão do pagamento de um salário mínimo por mês (por dezoito anos) para mulheres vítimas de estupro que tenham o filho e o projeto quer criar um registro público de gravidez. E mostra o que o governo tem feito para ajudar mulheres vítimas de práticas inseguras.

Sem discutir aspectos éticos, religiosos ou morais da opção pelo aborto, a revista preferiu discutir a realidade – os dados sobre a prática ilegal, a situação no resto do mundo e convocar as leitoras ao debate, argumentando:

‘Mesmo que você seja contra o aborto e tenha certeza de que jamais irá praticá-lo, deve entrar nessa discussão, já que a proibição não impede que, a cada ano, conforme estimativas, 1 milhão de abortos sejam realizados no Brasil, sendo que 220 mil deles levam a infecções graves e perfurações no útero, entre outras complicações. Concordar com a descriminalização não é endossar a prática como método de planejamento familiar. Trata-se de respeitar o direito de quem pensa diferente, numa sociedade diversa e plural como a nossa.’

Sem dúvida, uma maneira jornalisticamente eficiente de trazer para suas páginas um assunto que diz respeito às leitoras e a todas as mulheres: um assunto sério, discutido com seriedade, sem menosprezar a inteligência de quem lê.

Fica agora, além do convite para as leitoras de Claudia, um convite para os demais veículos da mídia, principalmente aqueles que se autoclassificam como preocupados com os problemas da sociedade como um todo: que sigam o exemplo da revista e também discutam, sem entrar no terreno da religião, um problema que é de toda a nação.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 08/12/2009 Ines godoy

    Ola! sera que vcs poderiam me fornecer algum e-mail para contato do Editor
    Regis Tadeu? obrigado

  2. Comentou em 14/06/2008 Ivo Lucchesi

    Prezado Dr. Bandarra, não invoquemos ritos bárbaros, tampouco alusões aos horrores do nazismo e equivalentes. Fui claro na minha primeira intervenção. Reproduzo o princípio geral de minha avaliação a respeito:
    ‘O ideal a ser perseguido é o de se poder viver numa sociedade na qual cada pessoa possa ser proprietária de seu próprio corpo, e não se sentir mero inquilino. A democracia supõe a liberdade no usufruto do corpo e na autonomia da consciência.’
    O que está acima afirmado não tem nada a ver com eugenia e outros. Igualmente, não há nenhum ‘contorcionismo’ na idéia exposta.

  3. Comentou em 14/06/2008 Paulo Bandarra

    Eu, particularmente, penso que se existisse Deus, esta questão seria facilmente resolvida. Deixaríamos ao mesmo resolver esta questão de “ignorância”! Mas com a certeza de que tal legislador não existe de forma alguma, duvido muito daqueles que se consideram com o conhecimento suficientemente “evoluído” para tomar decisões sobre a vida dos outros! Quais vidas se pode livremente ter a “democracia” de eliminá-las pela nossa moderna “sabedoria” que aos outros chamamos prepotentemente de “ignorantes”? Quando os astecas retiravam o coração das suas vítimas do peito dos sacrificados não se consideravam os “ignorantes” da sociedade, mas justamente os sabedores infalíveis das necessidades sociais e seus compromissos com ela! Aqueles que acreditam que a vida humana inicia não no início, mas apenas na metade! Mas já se pensou que aqueles que já passaram da idade de produzir não deviam ser investido recursos públicos escassos. Os esquimós antigamente pensavam assim, os soviéticos modernamente também. Consideraram-se “sábios” para que tirassem das famílias os excepcionais para serem criados em instituições sábias para liberar os pais para trabalhar para o estado sem o “ônus” de criar seus filhos “defeituosos”! Todos se achavam capazes de possuir “a qualificação crítica das consciências” para assim agirem. Os exemplos de homens “sábios” assim abundam na história! Eunucos, castratis, etc.!

  4. Comentou em 13/06/2008 Pedro Meira

    Prof. Luchesi, não leve a mal a insistência, mas renovo minha pergunta, para evitar que passe despercebida: Uma vez consolidado o sistema nervoso central, quando, como você disse, há vida consciente e inteligente, como ficamos se a grávida, numa, como foi dito, dada situação da qual ela é a única juíza, resolver fazer um aborto? A vida consciente e inteligente deve ser protegida ou prevalece o direito da mulher de decidir sobre o próprio corpo?

  5. Comentou em 11/06/2008 Alexandre Ramos

    Por que os temas não podem ser discutidos também sob o enfoque religioso? A religiosidade sempre esteve presente na vida humana (desde os primórdios) e, pelo que parece, não será descartada tão cedo ou talvez nunca. Você, por um acaso, está defendendo a censura e é contra a liberdade de opinião. A ciência (essa nova ‘deusa’, hoje tão idolotrada por muitos) já conseguiu resolver os problemas humanos? A ciência já nos deu todas as respostas? Ela já disse, por exemplo, quando inicia a vida, esse patrimônio tão precioso mas tão negligenciado. Por outro lado, toda e qualquer decisão a respeito do assunto será sempre uma decisão política, ética ou moral. Não existe ciência para dizer o que é certo ou o que é errado, o que é ético ou não etc. Se, por exemplo, para se decidir quanto ao destino de embriões congelados (que são seres humanos com vida mas que acabariam sendo descartados mais cedo ou mais tarde) houve tanta polêmica e a decisão foi tão apertada (6 contra 5), imagina uma decisão a respeito da situação de embriões ou fetos em desenvolvimento no útero materno? Ainda mais quando a morte dos mesmos não irá contribuir com a ‘ciência’ e não beneficiará, deste modo, a humanidade, assim como ocorre, inclusive, com outros seres vivos (os animais) em laboratórios. São decisões políticas, éticas e morais que precisam ser tomadas, sem preconceitos religiosos ou anti-religiosos.

  6. Comentou em 10/06/2008 Marcelo de Santi

    Não interessa se é 1 milhão, 500 mil ou 2 mil abortos por ano, o fato é que ele é amplamente feito de forma clandestina no Brasil e precisa ser amplamente discutido. Vamos chutar uma cifra: 20 mil abortos por ano. Será que todas essas mulheres vão ser processadas? Imagine processar, prender e julgar 20 mil mulheres, mais os cúmplices do ato, mais ou menos um total de 50 mil pessoas!!! Para quê manter então essa lei inútil? Chega de hipocrisia!!

  7. Comentou em 10/06/2008 Marcelo de Santi

    Não interessa se é 1 milhão, 500 mil ou 2 mil abortos por ano, o fato é que ele é amplamente feito de forma clandestina no Brasil e precisa ser amplamente discutido. Vamos chutar uma cifra: 20 mil abortos por ano. Será que todas essas mulheres vão ser processadas? Imagine processar, prender e julgar 20 mil mulheres, mais os cúmplices do ato, mais ou menos um total de 50 mil pessoas!!! Para quê manter então essa lei inútil? Chega de hipocrisia!!

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