Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 1 E 2/04

O Estado de S. Paulo

04/04/2006 na edição 375


CRISE POLÍTICA
Gabriel Manzano Filho


PT cria nova língua para salvar imagem


‘Vazamento, definem os dicionários Aurélio e Houaiss, é um ‘ato ou efeito de
vazar’, escoamento, vazão e vale também para a divulgação indevida de uma
notícia. Na semana passada, passou a significar também algo bem mais grave:
violação de sigilo. Fez dobradinha com ‘afastamento voluntário’, que substituiu
‘demissão’. Assim os assessores do Ministério da Fazenda puderam informar que
‘em virtude de um vazamento, ocorreu na segunda-feira o afastamento voluntário
do ministro’. Escondiam-se, por trás dessa frase vaga, quase inocente, um dos
mais graves crimes praticados pelo governo contra um cidadão (a divulgação do
extrato bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa) e a demissão do
ministro Antonio Palocci, aceita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


As duas invenções vieram enriquecer o manual de preservação da pureza
ideológica com que o PT procura manter sua imagem, sua inocência, sua militância
e seus objetivos. É um rico anedotário de fórmulas vagas, propositadamente
fluidas, destinadas a enfeitar, esconder ou negar as feiúras da ação política.
Nele o PT não erra nunca e não cabem coisas como roubo, erro, crime, traição,
inveja, vingança.


Uma descoberta inesquecível desse manual foram os ‘recursos não
contabilizados’, invenção apresentada ao País em 2005 pelo então tesoureiro
petista Delúbio Soares. Ele não podia dizer ‘roubo’, que é crime de improbidade,
nem ‘caixa 2’, que é crime eleitoral.


Os ‘recursos não contabilizados’ fizeram escola. O deputado João Magno
(PT-MG) denominou-os ‘desvios dentro da lei’ e o sucessor de Delúbio na
Tesouraria do PT, Paulo Ferreira, chamou-os de ‘fenômeno de informalidade da
política brasileira’. Um pouco mais e já iria parecer elogio.


Esse palavreado oportuno ensina também que a invasão de uma fazenda ou de uma
sede do INSS é ‘ocupação’. Pobres são ‘despossuídos’ – para não ofender – e até
a fome atende nos relatórios por ‘insegurança alimentar’. As crises em que
afundou o partido são ‘desafios’. Erros, quando inevitável mencioná-los, são
‘desvios’. Se envolvem graves questões morais, tornam-se ‘deslizes éticos’. Ao
ceder um avião, o empresário ‘o disponibiliza’. Fica tudo frio, técnico, sem
espaço para julgamentos morais.


Outra pérola do manual é ‘imprecisão terminológica’ – um novo equivalente
para mentira. Foi a contribuição do ex-ministro Palocci ao não explicar o
episódio de sua viagem em um jatinho do empresário e amigo Roberto Colnaghi.
Este revelou ao País que o ministro não dissera a verdade, no depoimento à CPI
dos Bingos, ao contar que o PT tinha alugado o avião. Para se explicar, o
ministro lamentou ter ‘cometido uma imprecisão terminológica’ no depoimento.
‘Recorri inadvertidamente à expressão ‘alugou’, sem me apegar à acepção restrita
do termo’, desculpou-se.


O PT não é o primeiro, nem o único partido no poder a valer-se de tais
recursos. Como lembra a cientista política Luciana Veiga, pesquisadora do
Doxa/Iuperj e professora da Universidade Federal do Paraná, já na Grécia
clássica Aristóteles abordou a relação entre palavras e poder, em sua Arte da
Retórica. A esquerda desde sempre diferenciou ‘roubo’, que é praticado pela
burguesia corrupta, de ‘expropriação’, ato revolucionário do poder operário. Nos
anos 40 George Orwell antecipou, em 1984, a novilíngua, a linguagem do poder do
futuro. Em nome do poder, verdade podia tornar-se mentira, sempre era nunca e
submissão era o verdadeiro nome da liberdade. Lenin também escreveu que ‘uma
mentira é muitas vezes justificada pelo fim’. Delúbio atualizou a obra ao
discordar da idéia de obrigar um partido a prestar contas à sociedade.
‘Transparência assim é burrice’, ensinou o professor goiano.


A estratégia que se adota, observa Luciana Veiga, é ‘obscurecer qualquer
associação desse ato (o roubo) com uma atitude premeditada’. É tudo sempre
casual, uma brevíssima falha corrigida com imediata volta aos trilhos. Por isso,
diz a professora, Palocci ‘admite ter viajado de avião, mas argumenta que não
sabia que ele estava sendo emprestado ao partido’. Se não sabia, não cometeu
crime. Argumento semelhante ao apresentado pelo presidente Lula, que por duas
vezes declarou-se ‘traído’ – quando veio à luz o mensalão e quando soube da
violação de sigilo do caseiro. ‘O que está por trás desse discurso’, observa
Luciana, ‘é mostrar que ações do partido devem ser julgadas no máximo como erros
ou deslizes. Atos desprovidos de má-fé, nunca delitos procedentes da
perversidade.’’




ENTREVISTA / BOECHAT
Renata Gallo


Ricardo Boechat: ‘A notícia não vale nada’


‘Ele passou a vida toda com duas gravatas, mas agora, âncora, diz que virou a
Imelda Marcos das gravatas


Os mais de 30 anos de jornalismo produziram um caderno velho, cheio de
rabiscos que invariavelmente fica em cima da mesa de Ricardo Boechat. O tal
caderno pode passar despercebido para muita gente, mas gera cobiça em qualquer
profissional da área. Nele, há telefones e mais telefones de fontes, de
motoristas de fontes, de mulheres de fontes…


A agenda é a bisavó de três caderninhos surrados herdados por ele de algum
repórter relapso que trabalhou com Ibrahim Sued nos idos de 1970. E, mesmo
depois de três gerações, continua com o mesmo problema: com o passar dos anos,
as folhas se soltam e a solução é agrupá-las em um saco plástico ou tirar um
xerox colorido e encaderná-la novamente. ‘Elas têm um problema de formação
congênita, é hereditariedade’, explica.


Boechat não gosta que falem que é preciso digitalizar todo esse seu acervo.
Tanto que até já desenhou um plug em uma das folhas soltas da agenda para dizer
que ela é eletrônica. Criou também uma série de códigos, como as estrelinhas. Na
agenda de Boechat estrelinhas é sinal de morte. ‘Em alguns, que me eram mais
caros como amigos, coloco várias estrelinhas. Quando a pessoa era um merda eu
sepulto, meto um liquipaper em cima’, diz.


O jornalista que passou pelos principais jornais do País está hoje no Jornal
da Band e comemora a boa audiência do horário – média de 6 pontos. Disse que a
vida inteira planejou se aposentar aos 50 anos, mas hoje, aos 53, deixou seu
plano um pouco de lado. Anda entusiasmado para entender o mecanismo de comandar
um telejornal diário na TV e também com sua sexta filha que nasceu há duas
semanas.


Como começou no jornalismo?


Precisava trabalhar. Larguei a escola com 17 anos e, antes de me meter com o
jornal, vendi livro e material de escritório. Poderia ser um grande vendedor de
aspirador de pó, mas daí fui para o Diário de Notícia. Virei limpador de mesa,
atendedor de telefone… Até que um dia um editor me sugeriu um bico. Fui ao
endereço que ele me passou e dei de cara com o Ibrahim Sued, que estava no auge
do seu poder. Para mim, militante apaixonado do Partidão, ele era o símbolo do
que havia de mais pervertido na imprensa. Mas o turco era um personagem único,
me deu três caderninhos de telefone surrados e disse: ‘Vai ligando e pede para
dar notícia para cá.’ O Ibrahim tinha uma sensibilidade cutânea para distinguir
cascata de informação. Aprendi muito.


Continua usando os três caderninhos?


Cultivo minhas fontes diariamente. Devo ser a maior conta telefônica de todas
empresas por onde passei. Hoje estou garimpando menos notícia, estou mais
cultivando.


O que acha da pulverização do jornalismo na TV?


Acho ótimo. Mas não tenho dúvida que há um caráter próprio de cada grupo. A
Globo é da dramaturgia, chora quando morre o papa. Acho que há um DNA de show de
auditório no jornalismo do SBT. Quando o SBT se permite colocar duas atrizes na
bancada é porque de fato para eles interessa o show, o plástico. E eu acho que a
origem da Band é jornalística. Agora tem a Igreja Universal… Acho muito bom
que pelo menos parte do dízimo volte para a sociedade. Eles dão parte em
bênçãos, parte em informação, mas acho que a informação é mais útil para a
felicidade humana.


Como você analisa os telejornais hoje?


Acho que o Estado (governo) ocupa espaço demais na imprensa. É preciso que o
noticiário pare de falar de qualquer traque que esses vagabundos dão. Fulano
disse, fulano prometeu. Esse negócio de mostrar a cotação da bolsa de Kuala
Lumpur não dá. Quero trazer a notícia para a minha vida. O que me interessa que
o Mantega acha que o Brasil vai crescer 5%, amanhã ele diz 1%, 3%. A gente fica
sempre repetindo essa ladainha, damos espaço como se isso fosse a verdade. É uma
ficção que a gente fica produzindo para encher uma lingüiçona e passar para o
público que aquilo é o mundo real. Não é. A porrada está comendo lá fora, todo
mundo está se devorando.


Que lição teve com sua saída de ‘O Globo’? (Foi acusado pela revista ‘Veja’
de trabalhar a serviço do empresário Nelson Tanure, sócio do ‘Jornal do Brasil’
e aliado do grupo canadense TIW, na briga do TWI com o Banco Opportunity, em
2001. Boechat foi demitido do ‘Globo’ por isso)


Achava que estava acima deste tipo de risco, jamais poderia imaginar que
alguém colocaria meu caráter profissional em questionamento. Isso me
desconcertou. Diziam: ‘Ah, mas você leu a notícia para a fonte.’ Eu li trocentas
notícias para fontes, milhões de vezes. Até para a fonte se sentir prestigiada.
É isso que faz esse caderno aqui (aponta para a agenda). Quem você quer achar no
planeta? Me dá meia hora que vou achar a partir disso aqui. Eu não faria a
coluna que fiz, não daria os furos que dei, não teria essas merdas de prêmios
que tenho se não fosse como eu era. Sempre fui assim. E me colocaram como se eu
fosse um bandidaço, um vagabundo da mídia.’




ECOS DA GUERRA
Peter Bergen


O inimigo de nosso inimigo


‘Defensores do governo Bush, blogueiros de direita e publicações
neoconservadoras estão exultando com os documentos iraquianos recém-divulgados
pelo Pentágono que, dizem eles, provam que a Al-Qaeda e Saddam Hussein tinham
conexões. Apesar de a comissão sobre os ataques de 11 de setembro de 2001 não
ter identificado um ‘relacionamento de cooperação’ entre o ultrafundamentalista
Osama bin Laden e o secular Saddam, as reiterações, pelo governo, de uma suposta
conexão – o vice-presidente Dick Cheney tem dito que a evidência dessa aliança é
‘esmagadora’ – convenceram dois em cada três americanos de que eles tinham
‘fortes’ vínculos.


Alguns defensores do governo traçaram uma analogia com o pacto
Molotov-Ribbentrop de 1939, no qual Stalin e Hitler deixaram de lado a ideologia
em favor de objetivos pragmáticos. Mas a história não é boa referência neste
caso: a separação ideológica entre a Al-Qaeda e o Iraque baathista era muito
maior que aquela entre os dois ditadores do século 20 e, diferentemente da
Alemanha nazista e da URSS, os dois lados nada tinham a ganhar agindo juntos.


Segundo a tradução da ABC News de um dos documentos mais confiáveis, no
início de 1995 Bin Laden (então vivendo no Sudão) encontrou-se com um
representante do governo iraquiano e discutiu ‘a realização de operações
conjuntas contra forças estrangeiras’ na Arábia Saudita. O documento também
observa que o ‘desenvolvimento da relação entre as duas partes … ocorreria
segundo o que surgisse com base em diálogo e concordância sobre outras formas de
cooperação’. Os resultados dessa reunião foram nulos. Dois ataques subseqüentes
a forças americanas na Arábia Saudita – um carro-bomba naquele ano e o ataque às
Torres Khobar em 1996 – foram realizados, respectivamente, por nativos que
disseram ter sido influenciados por Bin Laden e pelo braço saudita do Hezbollah,
grupo xiita ajudado pelo Irã.


Quanto aos outros documentos, há um de 15 de setembro de 2001 delineando
contatos entre Bin Laden e o Iraque, mas ele se baseia num informante afegão
discutindo uma conversa com outro afegão. É um ouvir dizer de terceira mão.
Curiosamente, outro documento, do serviço de inteligência do Iraque, com data de
17 de agosto de 2002, dizia que havia ‘informações de fonte confiável’ de que
duas figuras da Al-Qaeda estavam no Iraque e agentes deveriam procurá-los em
locais turísticos. Se Saddam e a Al-Qaeda se relacionavam, por que a
inteligência iraquiana precisaria vasculhar o país atrás de membros da rede
terrorista? Além disso, desde a queda do Taleban nenhum dos milhares de
documentos encontrados no Afeganistão substancia a alegada aliança.


Tudo isso conduz ao problema central enfrentado pelos proponentes da conexão
Al-Qaeda-Iraque. Já se sabe que autoridades iraquianas estavam flertando com a
Al-Qaeda em meados dos anos 90, mas esses contatos inconstantes nunca resultaram
em cooperação. E por que deveriam? A Al-Qaeda foi capaz de realizar os ataques
às embaixadas na África em 1998, o atentado contra o destróier Cole em 2000 e o
11/9 sem a ajuda do Iraque. E os serviços de inteligência iraquianos podiam
lidar sozinhos com trabalhos de pouca monta, como eliminar dissidentes no
exterior. Depois da tentativa frustrada de assassinar o ex-presidente George H.
W. Bush (pai do atual presidente americano) no Kuwait em 1993, Saddam nunca mais
tentou usar o terror contra um alvo americano.


Sabemos, também, que Bin Laden tinha uma antiga desconfiança de Saddam. Meses
antes da invasão do Kuwait em 1990, ele advertiu iradamente seus colegas de que
o Iraque tinha intenções sobre países do Golfo. Chegou a oferecer os próprios
combatentes aos sauditas naquela guerra, deixando claro seu interesse de que o
ditador ‘infiel’ fosse derrubado.


Se havia método na loucura de Saddam, este era o de que ele queria permanecer
no poder. Já a Al-Qaeda queria um Oriente Médio controlado por regimes
teocráticos. Seus objetivos e visões de mundo eram totalmente opostos, e nenhum
documento esquemático de espionagem conseguirá aproximá-los. TRADUÇÃO DE CELSO
M. PACIORNIK


*Peter Bergen, autor do livro ‘The Osama bin Laden I Know: An Oral History of
al-Qaida’s Leader’, escreveu este artigo para ‘The New York
Times’’




MUNDO ÁRABE
Flávia Guerra


Um guia eficaz para compreender o mundo árabe


‘Em tempos em que notícias sobre conflitos entre palestinos e israelenses,
atentados terroristas e polêmicas caricaturas satirizando a religião islâmica
estão diariamente nos noticiários, é mais do que necessário conhecer o mundo
árabe. Entender as raízes e a verdadeira cultura muçulmana torna-se uma arma
para escapar de generalizações e preconceitos.


Na esteira dessas discussões, a edição atual da Biblioteca EntreLivros acende
uma luz neste breu de ignorância em que muitos ocidentais se encontram. Com
edição de Oscar Pilagallo, a revista tem como destaque principal de capa o
artigo Para Entender o Mundo Árabe, que explica como os donos de uma cultura
milenar foram capazes de se manterem firmes diante da ameaça da colonização
cultural, preservando sua fé e identidade.


Esta não é tarefa das mais fáceis. Para isto, os muçulmanos contaram com a
força de sua filosofia, literatura e história. O mundo árabe é analisado por
especialistas e profundos conhecedores das nuances que cobrem com um ‘véu
diáfano’ de fantasia e mitos, que passaram a povoar o imaginário ocidental. Quem
abre a seqüência de ensaios é Mamede Mustafá Jarouche, professor de língua e
literatura árabe da USP e responsável pela tradução integral de O Livro das Mil
e uma Noites. Jarouche explica o surgimento dos povos de origem árabe. Em linhas
gerais, mostra que estes povos ocupam do Marrocos ao Iraque e que sua história
teve início muito antes do Islã – surgiu no século 7º, se constitui e se firmou
em pouquíssimo tempo e persiste até hoje.


Em seguida, é o especialista em língua e cultura árabe Richard Max de Araújo
que discute o pensamento islâmico. Desde o fim do século 8º, quando a técnica
chinesa de fabricação de papel e encadernação chega a Bagdá, o trabalho de
historiadores árabes tem ganhado importância, estimulado leituras e discussões.
Araújo destaca os grandes pensadores do Islã, como Attabari, Almas’udi e Ibn
Battuta.


A tão polêmica questão geopolítica não poderia faltar na edição. É Paul
Achcar, jornalista e correspondente na América Latina dos jornais Al Hayat
(panarabe) e As Safir (Líbano), que discute a multiplicidade dos árabes, sempre
dividido entre a África e a Ásia – um mundo cortado pelo deserto, detentor de
mananciais petrolíferos, com múltiplas paisagens e tesouros. Achcar oferece um
mapa para compreender as diferenças deste universo multifacetado.


Em um mundo cético após tamanha profusão de conflitos, o artigo O Iraque
Antes e Depois de Saddam, do professor de Sociologia da USP, Ricardo Musse,
discute o livro Bush na Babilônia, de Tariq Ali, que relata a história iraquiana
desde os povos otomanos. Musse discorre sobre a luta anticolonial no Oriente
Médio e revela a ignorância ocidental diante das dificuldades para se
implementar politicamente hoje o Estado-nação.


Diante da polêmica onda de atentados e protestos islâmicos contra as
caricaturas publicadas por um jornal dinamarquês, entender a filosofia árabe é
ferramenta para enxergar além dos desenhos borrados. Pensar em árabe é entender
as origens do termo falsafa, surgido no século 8º para definir uma escola de
pensadores, que seguiu a tradição e o curso de transformações da filosofia e da
ciência originadas na Grécia. Destaque especial do filósofo Miguel Attie Filho
para Ibn Rushd, o Averróis, autor de um dos textos fundamentais para se
compreender a filosofia islâmica.


A historiadora Arlene Clemesha discute o valor que o povo palestino dá à
educação como arma eficaz na luta por um futuro melhor. O sufismo ganha análise
detalhada de Sylvia Leite, que explica a forma de humanizar Deus e divinizar o
homem neste conjunto de conceitos.


A prolífica literatura árabe não poderia ficar de fora. Mamede Mustafa
Jarouche esclarece que, ao contrário do que pensa erroneamente o senso comum, a
literatura árabe, que tem em O Livro das Mil e uma Noites seu maior expoente,
não se resume à tradição oral, mas é uma das produções escritas mais antigas do
mundo.


Em outros artigos, a revista contextualiza e apresenta a arquitetura, a arte
e o teatro. Esgotar o assunto em uma edição é tarefa impossível, mas a
Biblioteca EntreLivros chega às bancas com a digna missão de informar leitores
interessados em compreender melhor os noticiários e avançar para além do
lugar-comum num assunto complexo.’




MEMÓRIA / ERAZÊ MARTINHO
O Estado de S. Paulo


Jornalista Erazê Martinho


‘Faleceu ontem, aos 74 anos, em Jundiaí, o publicitário, escritor e
jornalista Erazê Martinho. Parceiro e biógrafo do também publicitário Carlito
Maia, Martinho foi vereador em dois mandatos pelo PT da cidade, partido que
ajudou a fundar ao lado do velho amigo Carlito. Ele criou o bloco carnavalesco
Refogado do Sandi, que sai às sextas-feiras antes do carnaval pelas ruas do
centro de Jundiaí. Entre os amigos, Martinho era famoso pelo bom humor
constante, a integridade e a indignação com as mazelas sociais. Há dois anos,
lançou pela Editora Boitempo a biografia de Carlito Maia. Ambos se conheceram na
década de 1960 e a coincidência de ideais políticos estreitou a amizade. O corpo
de Martinho, que deixa os filhos Cássio e Ivan, foi velado na Câmara Municipal
de Jundiaí.’




INTERNET
Edward Tenner


Sites de busca emburrecem os estudantes?


‘Conversas sobre declínio eram coisa antiga na academia já em 1898, quando
tradicionalistas fustigavam Harvard por ter eliminado a exigência do idioma
grego para o ingresso na universidade. Mas hoje há um viés novo: os sites de
busca estarão emburrecendo os estudantes?


Em dezembro, o Centro Nacional para Estatísticas da Educação, dos EUA,
publicou um relatório sobre a capacidade de ler e escrever. Revelou que a
proporção de universitários capazes de interpretar textos complexos havia caído
de 40% para 31% desde 1992. Como diz Mark S. Schneider, comissário de
estatísticas da educação do centro, ‘o inquietante é que a avaliação não
pretendia testar a compreensão de Proust, mas a habilidade de ler rótulos’. Uma
pesquisa britânica teve resultados semelhantes.


A grande mudança foi a internet. A partir do início da década de 1990,
escolas, bibliotecas e governos adotaram a internet como o portal para o acesso
universal à informação. E no âmago de suas esperanças estavam mecanismos de
busca, como o Google e seus rivais, Yahoo e MSN. Os novos sites não só encontram
mais, eles geralmente apresentam informação utilizável na primeira tela.


O Google modestamente declara que sua missão é ‘organizar a informação do
mundo e torná-la universalmente acessível e útil’. Mas a conveniência pode ser
problema. Nos primórdios da internet, o mecanismo de busca mais sério era o Alta
Vista. Para usá-lo bem, o pesquisador precisava aprender a construir um
enunciado como ‘Engelbert Humperdinck e não Las Vegas’ – para o compositor de
ópera, não o cantor contemporâneo. Agora, graças a uma programação brilhante,
uma simples consulta produz uma primeira página pelo menos adequada.


A eficiência decorre de sua capacidade de analisar conexões entre sites. O
Google classifica páginas pela freqüência com que são conectados a outros sites
altamente classificados. Conseguiu isso usando uma variação de um conceito
familiar em ciência natural, a análise de citações. Em vez de procurar quais
estudos são mais citados nas publicações influentes, ele afere com que
freqüência as páginas são conectadas a sites altamente classificados –
classificados por conexões com eles mesmos.


A análise de citações tem sido atacada em círculos bibliotecários por inflar
as classificações (e indiretamente os preços) de algumas publicações. Os
mecanismos de busca têm o problema oposto: a dispersão em vez da concentração de
interesse. Apesar do ajuste fino, suas fórmulas exibem sites medíocres no mesmo
pé que os especializados.


Curioso sobre o campo acadêmico de história do mundo? Consulte ‘história do
mundo’ no Google. Quando tentei, o único artigo sobre o movimento de história do
mundo, da Wikipedia, só aparece na quinta tela e era breve e concêntrico. Só na
sétima tela descobri o site World History Network, nada bom para iniciantes.


Muitos estudantes parecem não ter habilidade para estruturar suas buscas. Em
2002, pediram a estudantes de graduação da Universidade de Tel-Aviv que
encontrassem na internet, sem limite de tempo, uma imagem da Monalisa, o texto
completo de Robinson Crusoe ou David Copperfield e uma receita de torta de maçã
com fotografia. Só 15% executaram as três tarefas.


Hoje, o Google acelerou essas tarefas, mas o problema persiste. Bibliotecária
da Associação Histórica Americana, Pamela Martin observou que ‘a simplicidade e
a impressionante proeza de busca do Google engana os estudantes, fazendo-os crer
que são bons pesquisadores em geral’.


A educação superior está contra-atacando. Bibliotecários estão ensinando
‘capacitação para obter informação’. Alunos de pós estão começando a discutir a
adesão à Wikipedia em vez de combatê-la, como muitos ainda fazem
quixotescamente.


Uma melhor informação numa sala de aula poderá produzir a sociedade que a
internet um dia prometeu? Há duas maneiras de avançar. Mais proprietários de
conteúdo gratuito de qualidade deveriam aprender as manhas para incrementar seus
sites de forma a melhorar sua classificação nos mecanismos de busca. E o Google
pode fazer mais para educar os usuários sobre o poder – e freqüente conveniência
– de suas opções de busca avançada. Seria uma vergonha se uma tecnologia
brilhante acabasse ameaçando o intelecto que a produziu.


* Autor de ‘Our Own Devices: How Technology Remakes
Humanity’’




TELEVISÃO
Beatriz Coelho Silva


Amaury tipo ‘tv pirata’


‘Na próxima sexta-feira, depois do Globo Repórter, Luiz Fernando Guimarães
apresenta ao público Jorge Horácio, colunista social eletrônico, às voltas com a
falta de dinheiro, as rusgas com a ex-mulher, Silvana (Maria Clara Gueiros), e a
educação do filho de 8 anos, Hélio (David Lucas), adequada e com amor. É o
primeiro episódio de Minha Nada Mole Vida, outra parceria com o casal Fernanda
Young e Alexandre Machado e o diretor José Alvarenga (de Os Normais e do quadro
Super Sincero), que fica no ar pelo menos até a Copa do Mundo.


Apesar da semelhança do programa fictício com os reais de celebridades que
inundam a TV (o veterano e mais famoso é o de Amaury Jr, na Rede TV!), Luiz
Fernando nega ser esta sua inspiração. Nem poderia admitir a paródia, pois a
Rede Globo não permite referências a outras emissoras. Segundo o ator, a idéia é
explorar comédia e relacionamentos. ‘Falo de pai e filho, um assunto pouco
explorado na dramaturgia, mas a gente usa um assunto para falar de outros, como
uma família moderna, em que pai e mãe são separados, o amor acabou e sobrou uma
criança’, explica Luiz Fernando que também quer contracenar com crianças. ‘É
interessante. Nós adultos, quando representamos, ficamos infantis e os meninos
agem como se fossem adultos.’


Hélio amadurece mais cedo devido às disputas dos pais. Jorge Horácio cobre
eventos sociais e vive sem dinheiro, num mundo de fortunas e glamour, e sente-se
cobrado pela mulher o tempo todo. No primeiro episódio, a determinação judicial
de passar os fins de semana com o filho o obriga a se organizar para dividir-se
entre trabalho e aquela criança a quem ama, mas com a qual não tem intimidade ou
tempo disponível. É uma comédia, com momentos tocantes, que evitam a pieguice ou
o exagero.


‘Tal como Jorge Horácio começa a conhecer o filho, eu aprendo a contracenar
com o ator que o representa e a descobrir meu persoangem’, fala Luiz Fernando.
Ele propôs o tema aos autores e à Rede Globo, que aceitou de imediato.
‘Trabalhamos numa relação muito aberta. Eles dão dicas sobre minha atuação e eu
dou palpites no texto e na direção. Acho que isso vem de minha origem, no grupo
Asbrubal Trouxe o Trombone, em que todo mundo se envolvia em todas as etapas dos
espetáculos.’


Dos cenários de Jorge Horácio (um apart hotel decadente e as festas de
celebridades) à representação tudo é bem realista, sem esquecer o texto, com
espaço para muita improvisação. Luiz Fernando começou na televisão em 1984 (em
Vereda Tropical). Desde o TV Pirata, nunca mais deixou de freqüentar o riso na
TV. Vide Comédia da Vida Privada, Programa Legal, Programa de Auditório e Vida
ao Vivo.


‘Desde o TV Pirata, dou palpites e ofereço projetos à Globo. Como dou
retorno, nunca foi difícil realizar oque quis’, ensina, sem tom professoral. E
criou uma relação especial com o público. ‘As pessoas me conhecem na rua como
ator e não como o persnagem que faço no momento. Talvez porque represento
mostrando a situação e sinto um pouco eu mesmo.’


Minha Nada Mole Vida ocupará as noites de sexta-feira por oito semanas. Se a
audiência gostar, novos episódios podem vir aí. Enquanto isso, o horário mantém
aquele revezamento de diferentes séries nacionais, como tem acontecido, aliás,
desde o fim de Os Normais.’


Taíssa Stivanin


Ele Dá Conta Do Recado


‘Gabriel Braga Nunes, 34 anos, chega para conversar com o Estado de chinelos,
bermudão, olhos inchados de sono. Puxa uma cadeira na varanda de uma casa da
Fazenda Bela Manhã, onde vem sendo gravada a novela Cidadão Brasileiro,
desculpa-se pelo atraso e engole um bocejo. Eis o protagonista da novela da
Record, o personagem-título da trama, Antônio Maciel. Grava 15 horas por dia,
cinco dias por semana para pôr no ar a história de Lauro César Muniz. O cansaço
de Gabriel é visível, mas isso não abala seu bom humor. Brinca com todo mundo,
dá risada. Nem parece que tem pedigree – é filho do diretor de teatro Celso
Nunes e da atriz Regina Braga – e trata a profissão sem frescuras. Leva a
entrevista como se estivesse em um bate-papo de bar. Antes que a gente se
despedisse, Gabriel ainda teve tempo de alcançar o carro da reportagem para
dizer: ‘ei, põe aí que vou casar esse ano e é a primeira vez que quero ter
filhos.’ Esse Antônio Maciel…


Como é lidar com um personagem ao mesmo tempo protagonista e antagonista?


Eu faço um herói cheio de conflitos. Ele está o tempo todo em contato com
dúvidas do tipo: ser pobre e honesto ou me corromper para enriquecer? Isso é uma
questão tipicamente brasileira, e o fato de estar com várias mulheres ao mesmo
tempo. Um herói brasileiro é necessariamente um herói erotizado. A coragem de
arregaçar as mangas e construir coisas, sem medo de errar. Um cara simples,
popular, com pouca instrução, mas que consegue circular bem nas elites. Ao mesmo
tempo é capaz de botar tudo a perder por um gesto absurdo de ingenuidade.


Há alguns anos, em uma entrevista, o diretor Jayme Monjardim, da Globo, disse
que você fazia parte de uma geração promissora de atores. Era, portanto, um galã
em potencial da casa. Por que trocou de emissora?


Ele falou isso de mim? Deve ser por causa de Terra Nostra, que fizemos
juntos. Bom, eu não mudei de emissora. Eu sempre fui frila, nunca fui da Rede
Globo. Fiz seis novelas lá, mas nunca fui da casa. Eu tive propostas da Record
mais interessantes. As condições de trabalho que eu tenho aqui são melhores. E
também aconteceu que na Globo meus personagens estavam se repetindo. Eu não
estava conseguindo fazer um herói. Fazer um homem íntegro como fiz em Essas
Mulheres era o que eu procurava.


E você veio para cá nesse pacote? Fazer ‘Essas Mulheres’ e emendar ‘Cidadão’?


Não, vim fazer Essas Mulheres. Fiz um contrato por obra. A novela deu muito
certo e na reta final pintou um convite, então fiquei na casa. Mas não houve
essa história de ‘abandonei a Globo para vestir a camisa da Record’. Assim que
acabar Cidadão estou livre, não sei o que vou fazer depois. Gosto de
independência.


Você parece que leva a profissão sem nenhum glamour. Como se fosse um
funcionário. É isso mesmo?


(Risos). Eu não sei. Talvez pelo fato de ter mãe e pai ator, desde cedo no
meio do teatro, talvez isso tenha me dado uma visão mais objetiva do que seja a
profissão. Mesmo TV, foi uma coisa que entrou na minha vida aos 25 anos de
idade. Eu era contra TV.


Contra, por quê?


Não sei, nunca tinha chegado perto desse mundo, nunca vi novela. Quando eu
estava fazendo faculdade (é formado em Artes Cênicas pela Unicamp), as
oportunidades que apareceram em TV não me interessaram. Na adolescência, achava
que novela era nocivo para o país. Mas depois, aos vinte e poucos anos, tive um
insight, achava que era cedo para estar preconceituoso com a profissão de ator.


Uma de suas primeiras experiências foi na Record, na minissérie ‘Por Amor e
Ódio’.


Antes fiz Razão de Viver no SBT que eu adorei. Para mim foi especialíssimo,
como eu nunca tinha feito. Depois da novela, fui morar em Londres. Gastei tudo o
que eu tinha ganho, que não era tanto assim, e quando voltei, voltei duro. A
sorte foi que quando eu cheguei o Atílio Riccó me chamou para fazer uma
minissérie na Record, de 30 capítulos, que virou 50.


Como você avalia essa diferença entre atuar na casa em 1997 e agora?


Naquele momento, não tinha estúdio. Gravava tudo em Itu (interior de São
Paulo), era tudo locação. A qualidade técnica era outra. Não dá para se criticar
as pessoas que estavam ali porque as condições que a emissora disponibilizava
para a teledramaturgia eram outras. Muito tempo depois, houve a possibilidade de
fazer o galã da Escrava Isaura, mas não aconteceu.


Por quê?


A falta de um acordo financeiro e também porque eu ainda não confiava na
casa. Eu tinha medo de ficar exposto e pagar pra ver. Mas a Escrava Isaura foi
muito bem, meu grau de confiança aumentou. Fui mais simpático à idéia de
trabalhar na Record. Era uma decisão que ainda envolvia riscos, porque a
emissora ainda não estava estabilizada. Mas eu vim. Essas Mulheres foi muito
legal, tivemos um retorno bom de crítica. A partir dessa novela, a classe de
atores de São Paulo e Rio ganhou muito mais simpatia pela Record, venceu os
preconceitos e começou a ter vontade vir trabalhar aqui. Isso foi significativo
em Essas Mulheres, mesmo que não tenha sido um grande sucesso de audiência.


Em algum momento você se questionou, indo para a Record, pelo fato de a
Igreja Universal estar por trás da emissora?


(Suspira). Essa é uma questão ampla. Se você fizer uma investigação de todos
seus contratantes, vai entrar em um universo muito maluco. Não vejo problemas, a
partir do momento em que a obra não está sendo panfletária. Outra coisa, novela
é obra aberta. A gente nunca sabe os temas que serão abordados no capítulo
seguinte. Então se lá pelo capítulo 100 seu personagem vira gay, não é você que
responde por isso, é o autor.


Era de se esperar alguma patrulha moral na novela. E no entanto somos
surpreendidos com cenas do Antônio Maciel dizendo que é ‘avantajado’. Então
parece que está tudo liberado, é isso?


A gente esbarra em limites morais. Pessoalmente eu acho saudável você
esbarrar em limites morais, porque provoca reflexão. E não acho bom ultrapassar
agressivamente limites morais, porque você pode agredir a família brasileira
(risos). Essa é minha posição. Em Cidadão Brasileiro somos questionados sobre
momentos em que esbarramos nesses limites. Com relação à igreja, não tenho
religião e não tenho nenhum problema em estar trabalhando em uma emissora que
pertence a uma igreja.


Na sua adolescência você tinha banda de rock hardcore. Como foi essa costura
entre a música e o teatro?


Comecei a estudar violão aos dez anos, e foi de longe a coisa que eu mais
gostei de fazer na minha adolescência. Escrevia muito, compunha muito, desenhava
muito. Era muito afeito a atividades de criação solitária. Ficava muito tempo no
meu quarto criando coisas. Aos 13, comecei a fazer aula de teatro na escola. Eu
era tímido e as aulas começaram a trabalhar com o jogo, as relações, a troca.
Fui seduzido. O teatro e me fez abandonar todas as atividades de criação
solitária. Parei de escrever, desenhar tocar e mergulhei no jogo e passei a
aprender mais sobre o outro, a vida e as relações.


E aí você escolheu o ofício de ator.


Essa profissão tem um caráter de descoberta pessoal… (Gabriel interrompe).
Pára, é meio brega essa coisa de descoberta pessoal, é muito brega (risos). É
fascinante porque faz você aprender mais sobre si mesmo pela experiência de
outros, de personagens. E eu melhorei muito socialmente desde que virei ator…
em compensação, meu caráter piorou muito (risos). Personagens como Olavinho, de
Anjo Mau (1998), embora ele fosse um grande fdp, me melhoraram socialmente. A
cara-de-pau, o despudor, essa coisa do Antônio – ‘cheguei e abalei’ -, que o
Gabriel nunca teve.


Como seu pai foi uma referência para você no teatro? Vocês se distanciaram
cedo, quando ele se separou de sua mãe, Regina Braga.


A gente não cresceu perto dele, mas, quando éramos crianças, meu pai
trabalhava muito, emplacando peça atrás de peça. Era comum passar as férias de
verão no Rio de Janeiro, porque ele estava em temporada e a gente ficava morando
no hotel com ele e o acompanhando ao teatro. Com minha mãe também freqüentei
muita coxia, camarim. O contexto de uma educação assim faz que você já cresça e
já esteja inserido, moldado para a cultura daquela profissão.


Como foi o reencontro com seu pai na peça ‘K2’?


Ele me falava muito dessa peça, que ele tinha na gaveta há 15 anos, mas tinha
preguiça de produzir. Meu pai mora em Floripa, tem barco, a vida dele é outra
parada. Então comecei a visitar empresas com meu projetinho debaixo do braço.
Demorou 2 anos e meio para a captação, consegui captar R$ 560 mil, meio milhão.
Primeira produção minha. Aí contratei meu pai! E trouxe ele para me dirigir.


É curioso que no meio de uma família de atores, há o doutor Dráuzio (Varella,
atual marido de Regina Braga). O lado racional dele o influencia?


Muito, convivo com ele há 23 anos. É complementar. Ele teve uma influência
muito positiva na minha educação.


Você já se casou três vezes, não é?


Não é bem assim. Já tive três relacionamentos de morar junto e três
relacionamentos importantes na vida. Três não, estou no quinto, na verdade. Mas,
nesse plano pessoal, considero que estou vivendo a relação mais vertical da
minha vida.


O que é vertical?


Fundamental, mais importante. Ih, não fala importante – as outras vão me
ligar para reclamar, porque somos amigos.Gabriel Braga Nunes vem gravando 15
horas por dia a novela ‘Cidadão Brasileiro.’ Antônio Maciel é o segundo
protagonista de sua carreira. E o segundo na Record’




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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 1 E 2/04

O Estado de S. Paulo

04/04/2006 na edição 375


CRISE POLÍTICA
Gabriel Manzano Filho


PT cria nova língua para salvar imagem


‘Vazamento, definem os dicionários Aurélio e Houaiss, é um ‘ato ou efeito de
vazar’, escoamento, vazão e vale também para a divulgação indevida de uma
notícia. Na semana passada, passou a significar também algo bem mais grave:
violação de sigilo. Fez dobradinha com ‘afastamento voluntário’, que substituiu
‘demissão’. Assim os assessores do Ministério da Fazenda puderam informar que
‘em virtude de um vazamento, ocorreu na segunda-feira o afastamento voluntário
do ministro’. Escondiam-se, por trás dessa frase vaga, quase inocente, um dos
mais graves crimes praticados pelo governo contra um cidadão (a divulgação do
extrato bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa) e a demissão do
ministro Antonio Palocci, aceita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


As duas invenções vieram enriquecer o manual de preservação da pureza
ideológica com que o PT procura manter sua imagem, sua inocência, sua militância
e seus objetivos. É um rico anedotário de fórmulas vagas, propositadamente
fluidas, destinadas a enfeitar, esconder ou negar as feiúras da ação política.
Nele o PT não erra nunca e não cabem coisas como roubo, erro, crime, traição,
inveja, vingança.


Uma descoberta inesquecível desse manual foram os ‘recursos não
contabilizados’, invenção apresentada ao País em 2005 pelo então tesoureiro
petista Delúbio Soares. Ele não podia dizer ‘roubo’, que é crime de improbidade,
nem ‘caixa 2’, que é crime eleitoral.


Os ‘recursos não contabilizados’ fizeram escola. O deputado João Magno
(PT-MG) denominou-os ‘desvios dentro da lei’ e o sucessor de Delúbio na
Tesouraria do PT, Paulo Ferreira, chamou-os de ‘fenômeno de informalidade da
política brasileira’. Um pouco mais e já iria parecer elogio.


Esse palavreado oportuno ensina também que a invasão de uma fazenda ou de uma
sede do INSS é ‘ocupação’. Pobres são ‘despossuídos’ – para não ofender – e até
a fome atende nos relatórios por ‘insegurança alimentar’. As crises em que
afundou o partido são ‘desafios’. Erros, quando inevitável mencioná-los, são
‘desvios’. Se envolvem graves questões morais, tornam-se ‘deslizes éticos’. Ao
ceder um avião, o empresário ‘o disponibiliza’. Fica tudo frio, técnico, sem
espaço para julgamentos morais.


Outra pérola do manual é ‘imprecisão terminológica’ – um novo equivalente
para mentira. Foi a contribuição do ex-ministro Palocci ao não explicar o
episódio de sua viagem em um jatinho do empresário e amigo Roberto Colnaghi.
Este revelou ao País que o ministro não dissera a verdade, no depoimento à CPI
dos Bingos, ao contar que o PT tinha alugado o avião. Para se explicar, o
ministro lamentou ter ‘cometido uma imprecisão terminológica’ no depoimento.
‘Recorri inadvertidamente à expressão ‘alugou’, sem me apegar à acepção restrita
do termo’, desculpou-se.


O PT não é o primeiro, nem o único partido no poder a valer-se de tais
recursos. Como lembra a cientista política Luciana Veiga, pesquisadora do
Doxa/Iuperj e professora da Universidade Federal do Paraná, já na Grécia
clássica Aristóteles abordou a relação entre palavras e poder, em sua Arte da
Retórica. A esquerda desde sempre diferenciou ‘roubo’, que é praticado pela
burguesia corrupta, de ‘expropriação’, ato revolucionário do poder operário. Nos
anos 40 George Orwell antecipou, em 1984, a novilíngua, a linguagem do poder do
futuro. Em nome do poder, verdade podia tornar-se mentira, sempre era nunca e
submissão era o verdadeiro nome da liberdade. Lenin também escreveu que ‘uma
mentira é muitas vezes justificada pelo fim’. Delúbio atualizou a obra ao
discordar da idéia de obrigar um partido a prestar contas à sociedade.
‘Transparência assim é burrice’, ensinou o professor goiano.


A estratégia que se adota, observa Luciana Veiga, é ‘obscurecer qualquer
associação desse ato (o roubo) com uma atitude premeditada’. É tudo sempre
casual, uma brevíssima falha corrigida com imediata volta aos trilhos. Por isso,
diz a professora, Palocci ‘admite ter viajado de avião, mas argumenta que não
sabia que ele estava sendo emprestado ao partido’. Se não sabia, não cometeu
crime. Argumento semelhante ao apresentado pelo presidente Lula, que por duas
vezes declarou-se ‘traído’ – quando veio à luz o mensalão e quando soube da
violação de sigilo do caseiro. ‘O que está por trás desse discurso’, observa
Luciana, ‘é mostrar que ações do partido devem ser julgadas no máximo como erros
ou deslizes. Atos desprovidos de má-fé, nunca delitos procedentes da
perversidade.’’




ENTREVISTA / BOECHAT
Renata Gallo


Ricardo Boechat: ‘A notícia não vale nada’


‘Ele passou a vida toda com duas gravatas, mas agora, âncora, diz que virou a
Imelda Marcos das gravatas


Os mais de 30 anos de jornalismo produziram um caderno velho, cheio de
rabiscos que invariavelmente fica em cima da mesa de Ricardo Boechat. O tal
caderno pode passar despercebido para muita gente, mas gera cobiça em qualquer
profissional da área. Nele, há telefones e mais telefones de fontes, de
motoristas de fontes, de mulheres de fontes…


A agenda é a bisavó de três caderninhos surrados herdados por ele de algum
repórter relapso que trabalhou com Ibrahim Sued nos idos de 1970. E, mesmo
depois de três gerações, continua com o mesmo problema: com o passar dos anos,
as folhas se soltam e a solução é agrupá-las em um saco plástico ou tirar um
xerox colorido e encaderná-la novamente. ‘Elas têm um problema de formação
congênita, é hereditariedade’, explica.


Boechat não gosta que falem que é preciso digitalizar todo esse seu acervo.
Tanto que até já desenhou um plug em uma das folhas soltas da agenda para dizer
que ela é eletrônica. Criou também uma série de códigos, como as estrelinhas. Na
agenda de Boechat estrelinhas é sinal de morte. ‘Em alguns, que me eram mais
caros como amigos, coloco várias estrelinhas. Quando a pessoa era um merda eu
sepulto, meto um liquipaper em cima’, diz.


O jornalista que passou pelos principais jornais do País está hoje no Jornal
da Band e comemora a boa audiência do horário – média de 6 pontos. Disse que a
vida inteira planejou se aposentar aos 50 anos, mas hoje, aos 53, deixou seu
plano um pouco de lado. Anda entusiasmado para entender o mecanismo de comandar
um telejornal diário na TV e também com sua sexta filha que nasceu há duas
semanas.


Como começou no jornalismo?


Precisava trabalhar. Larguei a escola com 17 anos e, antes de me meter com o
jornal, vendi livro e material de escritório. Poderia ser um grande vendedor de
aspirador de pó, mas daí fui para o Diário de Notícia. Virei limpador de mesa,
atendedor de telefone… Até que um dia um editor me sugeriu um bico. Fui ao
endereço que ele me passou e dei de cara com o Ibrahim Sued, que estava no auge
do seu poder. Para mim, militante apaixonado do Partidão, ele era o símbolo do
que havia de mais pervertido na imprensa. Mas o turco era um personagem único,
me deu três caderninhos de telefone surrados e disse: ‘Vai ligando e pede para
dar notícia para cá.’ O Ibrahim tinha uma sensibilidade cutânea para distinguir
cascata de informação. Aprendi muito.


Continua usando os três caderninhos?


Cultivo minhas fontes diariamente. Devo ser a maior conta telefônica de todas
empresas por onde passei. Hoje estou garimpando menos notícia, estou mais
cultivando.


O que acha da pulverização do jornalismo na TV?


Acho ótimo. Mas não tenho dúvida que há um caráter próprio de cada grupo. A
Globo é da dramaturgia, chora quando morre o papa. Acho que há um DNA de show de
auditório no jornalismo do SBT. Quando o SBT se permite colocar duas atrizes na
bancada é porque de fato para eles interessa o show, o plástico. E eu acho que a
origem da Band é jornalística. Agora tem a Igreja Universal… Acho muito bom
que pelo menos parte do dízimo volte para a sociedade. Eles dão parte em
bênçãos, parte em informação, mas acho que a informação é mais útil para a
felicidade humana.


Como você analisa os telejornais hoje?


Acho que o Estado (governo) ocupa espaço demais na imprensa. É preciso que o
noticiário pare de falar de qualquer traque que esses vagabundos dão. Fulano
disse, fulano prometeu. Esse negócio de mostrar a cotação da bolsa de Kuala
Lumpur não dá. Quero trazer a notícia para a minha vida. O que me interessa que
o Mantega acha que o Brasil vai crescer 5%, amanhã ele diz 1%, 3%. A gente fica
sempre repetindo essa ladainha, damos espaço como se isso fosse a verdade. É uma
ficção que a gente fica produzindo para encher uma lingüiçona e passar para o
público que aquilo é o mundo real. Não é. A porrada está comendo lá fora, todo
mundo está se devorando.


Que lição teve com sua saída de ‘O Globo’? (Foi acusado pela revista ‘Veja’
de trabalhar a serviço do empresário Nelson Tanure, sócio do ‘Jornal do Brasil’
e aliado do grupo canadense TIW, na briga do TWI com o Banco Opportunity, em
2001. Boechat foi demitido do ‘Globo’ por isso)


Achava que estava acima deste tipo de risco, jamais poderia imaginar que
alguém colocaria meu caráter profissional em questionamento. Isso me
desconcertou. Diziam: ‘Ah, mas você leu a notícia para a fonte.’ Eu li trocentas
notícias para fontes, milhões de vezes. Até para a fonte se sentir prestigiada.
É isso que faz esse caderno aqui (aponta para a agenda). Quem você quer achar no
planeta? Me dá meia hora que vou achar a partir disso aqui. Eu não faria a
coluna que fiz, não daria os furos que dei, não teria essas merdas de prêmios
que tenho se não fosse como eu era. Sempre fui assim. E me colocaram como se eu
fosse um bandidaço, um vagabundo da mídia.’




ECOS DA GUERRA
Peter Bergen


O inimigo de nosso inimigo


‘Defensores do governo Bush, blogueiros de direita e publicações
neoconservadoras estão exultando com os documentos iraquianos recém-divulgados
pelo Pentágono que, dizem eles, provam que a Al-Qaeda e Saddam Hussein tinham
conexões. Apesar de a comissão sobre os ataques de 11 de setembro de 2001 não
ter identificado um ‘relacionamento de cooperação’ entre o ultrafundamentalista
Osama bin Laden e o secular Saddam, as reiterações, pelo governo, de uma suposta
conexão – o vice-presidente Dick Cheney tem dito que a evidência dessa aliança é
‘esmagadora’ – convenceram dois em cada três americanos de que eles tinham
‘fortes’ vínculos.


Alguns defensores do governo traçaram uma analogia com o pacto
Molotov-Ribbentrop de 1939, no qual Stalin e Hitler deixaram de lado a ideologia
em favor de objetivos pragmáticos. Mas a história não é boa referência neste
caso: a separação ideológica entre a Al-Qaeda e o Iraque baathista era muito
maior que aquela entre os dois ditadores do século 20 e, diferentemente da
Alemanha nazista e da URSS, os dois lados nada tinham a ganhar agindo juntos.


Segundo a tradução da ABC News de um dos documentos mais confiáveis, no
início de 1995 Bin Laden (então vivendo no Sudão) encontrou-se com um
representante do governo iraquiano e discutiu ‘a realização de operações
conjuntas contra forças estrangeiras’ na Arábia Saudita. O documento também
observa que o ‘desenvolvimento da relação entre as duas partes … ocorreria
segundo o que surgisse com base em diálogo e concordância sobre outras formas de
cooperação’. Os resultados dessa reunião foram nulos. Dois ataques subseqüentes
a forças americanas na Arábia Saudita – um carro-bomba naquele ano e o ataque às
Torres Khobar em 1996 – foram realizados, respectivamente, por nativos que
disseram ter sido influenciados por Bin Laden e pelo braço saudita do Hezbollah,
grupo xiita ajudado pelo Irã.


Quanto aos outros documentos, há um de 15 de setembro de 2001 delineando
contatos entre Bin Laden e o Iraque, mas ele se baseia num informante afegão
discutindo uma conversa com outro afegão. É um ouvir dizer de terceira mão.
Curiosamente, outro documento, do serviço de inteligência do Iraque, com data de
17 de agosto de 2002, dizia que havia ‘informações de fonte confiável’ de que
duas figuras da Al-Qaeda estavam no Iraque e agentes deveriam procurá-los em
locais turísticos. Se Saddam e a Al-Qaeda se relacionavam, por que a
inteligência iraquiana precisaria vasculhar o país atrás de membros da rede
terrorista? Além disso, desde a queda do Taleban nenhum dos milhares de
documentos encontrados no Afeganistão substancia a alegada aliança.


Tudo isso conduz ao problema central enfrentado pelos proponentes da conexão
Al-Qaeda-Iraque. Já se sabe que autoridades iraquianas estavam flertando com a
Al-Qaeda em meados dos anos 90, mas esses contatos inconstantes nunca resultaram
em cooperação. E por que deveriam? A Al-Qaeda foi capaz de realizar os ataques
às embaixadas na África em 1998, o atentado contra o destróier Cole em 2000 e o
11/9 sem a ajuda do Iraque. E os serviços de inteligência iraquianos podiam
lidar sozinhos com trabalhos de pouca monta, como eliminar dissidentes no
exterior. Depois da tentativa frustrada de assassinar o ex-presidente George H.
W. Bush (pai do atual presidente americano) no Kuwait em 1993, Saddam nunca mais
tentou usar o terror contra um alvo americano.


Sabemos, também, que Bin Laden tinha uma antiga desconfiança de Saddam. Meses
antes da invasão do Kuwait em 1990, ele advertiu iradamente seus colegas de que
o Iraque tinha intenções sobre países do Golfo. Chegou a oferecer os próprios
combatentes aos sauditas naquela guerra, deixando claro seu interesse de que o
ditador ‘infiel’ fosse derrubado.


Se havia método na loucura de Saddam, este era o de que ele queria permanecer
no poder. Já a Al-Qaeda queria um Oriente Médio controlado por regimes
teocráticos. Seus objetivos e visões de mundo eram totalmente opostos, e nenhum
documento esquemático de espionagem conseguirá aproximá-los. TRADUÇÃO DE CELSO
M. PACIORNIK


*Peter Bergen, autor do livro ‘The Osama bin Laden I Know: An Oral History of
al-Qaida’s Leader’, escreveu este artigo para ‘The New York
Times’’




MUNDO ÁRABE
Flávia Guerra


Um guia eficaz para compreender o mundo árabe


‘Em tempos em que notícias sobre conflitos entre palestinos e israelenses,
atentados terroristas e polêmicas caricaturas satirizando a religião islâmica
estão diariamente nos noticiários, é mais do que necessário conhecer o mundo
árabe. Entender as raízes e a verdadeira cultura muçulmana torna-se uma arma
para escapar de generalizações e preconceitos.


Na esteira dessas discussões, a edição atual da Biblioteca EntreLivros acende
uma luz neste breu de ignorância em que muitos ocidentais se encontram. Com
edição de Oscar Pilagallo, a revista tem como destaque principal de capa o
artigo Para Entender o Mundo Árabe, que explica como os donos de uma cultura
milenar foram capazes de se manterem firmes diante da ameaça da colonização
cultural, preservando sua fé e identidade.


Esta não é tarefa das mais fáceis. Para isto, os muçulmanos contaram com a
força de sua filosofia, literatura e história. O mundo árabe é analisado por
especialistas e profundos conhecedores das nuances que cobrem com um ‘véu
diáfano’ de fantasia e mitos, que passaram a povoar o imaginário ocidental. Quem
abre a seqüência de ensaios é Mamede Mustafá Jarouche, professor de língua e
literatura árabe da USP e responsável pela tradução integral de O Livro das Mil
e uma Noites. Jarouche explica o surgimento dos povos de origem árabe. Em linhas
gerais, mostra que estes povos ocupam do Marrocos ao Iraque e que sua história
teve início muito antes do Islã – surgiu no século 7º, se constitui e se firmou
em pouquíssimo tempo e persiste até hoje.


Em seguida, é o especialista em língua e cultura árabe Richard Max de Araújo
que discute o pensamento islâmico. Desde o fim do século 8º, quando a técnica
chinesa de fabricação de papel e encadernação chega a Bagdá, o trabalho de
historiadores árabes tem ganhado importância, estimulado leituras e discussões.
Araújo destaca os grandes pensadores do Islã, como Attabari, Almas’udi e Ibn
Battuta.


A tão polêmica questão geopolítica não poderia faltar na edição. É Paul
Achcar, jornalista e correspondente na América Latina dos jornais Al Hayat
(panarabe) e As Safir (Líbano), que discute a multiplicidade dos árabes, sempre
dividido entre a África e a Ásia – um mundo cortado pelo deserto, detentor de
mananciais petrolíferos, com múltiplas paisagens e tesouros. Achcar oferece um
mapa para compreender as diferenças deste universo multifacetado.


Em um mundo cético após tamanha profusão de conflitos, o artigo O Iraque
Antes e Depois de Saddam, do professor de Sociologia da USP, Ricardo Musse,
discute o livro Bush na Babilônia, de Tariq Ali, que relata a história iraquiana
desde os povos otomanos. Musse discorre sobre a luta anticolonial no Oriente
Médio e revela a ignorância ocidental diante das dificuldades para se
implementar politicamente hoje o Estado-nação.


Diante da polêmica onda de atentados e protestos islâmicos contra as
caricaturas publicadas por um jornal dinamarquês, entender a filosofia árabe é
ferramenta para enxergar além dos desenhos borrados. Pensar em árabe é entender
as origens do termo falsafa, surgido no século 8º para definir uma escola de
pensadores, que seguiu a tradição e o curso de transformações da filosofia e da
ciência originadas na Grécia. Destaque especial do filósofo Miguel Attie Filho
para Ibn Rushd, o Averróis, autor de um dos textos fundamentais para se
compreender a filosofia islâmica.


A historiadora Arlene Clemesha discute o valor que o povo palestino dá à
educação como arma eficaz na luta por um futuro melhor. O sufismo ganha análise
detalhada de Sylvia Leite, que explica a forma de humanizar Deus e divinizar o
homem neste conjunto de conceitos.


A prolífica literatura árabe não poderia ficar de fora. Mamede Mustafa
Jarouche esclarece que, ao contrário do que pensa erroneamente o senso comum, a
literatura árabe, que tem em O Livro das Mil e uma Noites seu maior expoente,
não se resume à tradição oral, mas é uma das produções escritas mais antigas do
mundo.


Em outros artigos, a revista contextualiza e apresenta a arquitetura, a arte
e o teatro. Esgotar o assunto em uma edição é tarefa impossível, mas a
Biblioteca EntreLivros chega às bancas com a digna missão de informar leitores
interessados em compreender melhor os noticiários e avançar para além do
lugar-comum num assunto complexo.’




MEMÓRIA / ERAZÊ MARTINHO
O Estado de S. Paulo


Jornalista Erazê Martinho


‘Faleceu ontem, aos 74 anos, em Jundiaí, o publicitário, escritor e
jornalista Erazê Martinho. Parceiro e biógrafo do também publicitário Carlito
Maia, Martinho foi vereador em dois mandatos pelo PT da cidade, partido que
ajudou a fundar ao lado do velho amigo Carlito. Ele criou o bloco carnavalesco
Refogado do Sandi, que sai às sextas-feiras antes do carnaval pelas ruas do
centro de Jundiaí. Entre os amigos, Martinho era famoso pelo bom humor
constante, a integridade e a indignação com as mazelas sociais. Há dois anos,
lançou pela Editora Boitempo a biografia de Carlito Maia. Ambos se conheceram na
década de 1960 e a coincidência de ideais políticos estreitou a amizade. O corpo
de Martinho, que deixa os filhos Cássio e Ivan, foi velado na Câmara Municipal
de Jundiaí.’




INTERNET
Edward Tenner


Sites de busca emburrecem os estudantes?


‘Conversas sobre declínio eram coisa antiga na academia já em 1898, quando
tradicionalistas fustigavam Harvard por ter eliminado a exigência do idioma
grego para o ingresso na universidade. Mas hoje há um viés novo: os sites de
busca estarão emburrecendo os estudantes?


Em dezembro, o Centro Nacional para Estatísticas da Educação, dos EUA,
publicou um relatório sobre a capacidade de ler e escrever. Revelou que a
proporção de universitários capazes de interpretar textos complexos havia caído
de 40% para 31% desde 1992. Como diz Mark S. Schneider, comissário de
estatísticas da educação do centro, ‘o inquietante é que a avaliação não
pretendia testar a compreensão de Proust, mas a habilidade de ler rótulos’. Uma
pesquisa britânica teve resultados semelhantes.


A grande mudança foi a internet. A partir do início da década de 1990,
escolas, bibliotecas e governos adotaram a internet como o portal para o acesso
universal à informação. E no âmago de suas esperanças estavam mecanismos de
busca, como o Google e seus rivais, Yahoo e MSN. Os novos sites não só encontram
mais, eles geralmente apresentam informação utilizável na primeira tela.


O Google modestamente declara que sua missão é ‘organizar a informação do
mundo e torná-la universalmente acessível e útil’. Mas a conveniência pode ser
problema. Nos primórdios da internet, o mecanismo de busca mais sério era o Alta
Vista. Para usá-lo bem, o pesquisador precisava aprender a construir um
enunciado como ‘Engelbert Humperdinck e não Las Vegas’ – para o compositor de
ópera, não o cantor contemporâneo. Agora, graças a uma programação brilhante,
uma simples consulta produz uma primeira página pelo menos adequada.


A eficiência decorre de sua capacidade de analisar conexões entre sites. O
Google classifica páginas pela freqüência com que são conectados a outros sites
altamente classificados. Conseguiu isso usando uma variação de um conceito
familiar em ciência natural, a análise de citações. Em vez de procurar quais
estudos são mais citados nas publicações influentes, ele afere com que
freqüência as páginas são conectadas a sites altamente classificados –
classificados por conexões com eles mesmos.


A análise de citações tem sido atacada em círculos bibliotecários por inflar
as classificações (e indiretamente os preços) de algumas publicações. Os
mecanismos de busca têm o problema oposto: a dispersão em vez da concentração de
interesse. Apesar do ajuste fino, suas fórmulas exibem sites medíocres no mesmo
pé que os especializados.


Curioso sobre o campo acadêmico de história do mundo? Consulte ‘história do
mundo’ no Google. Quando tentei, o único artigo sobre o movimento de história do
mundo, da Wikipedia, só aparece na quinta tela e era breve e concêntrico. Só na
sétima tela descobri o site World History Network, nada bom para iniciantes.


Muitos estudantes parecem não ter habilidade para estruturar suas buscas. Em
2002, pediram a estudantes de graduação da Universidade de Tel-Aviv que
encontrassem na internet, sem limite de tempo, uma imagem da Monalisa, o texto
completo de Robinson Crusoe ou David Copperfield e uma receita de torta de maçã
com fotografia. Só 15% executaram as três tarefas.


Hoje, o Google acelerou essas tarefas, mas o problema persiste. Bibliotecária
da Associação Histórica Americana, Pamela Martin observou que ‘a simplicidade e
a impressionante proeza de busca do Google engana os estudantes, fazendo-os crer
que são bons pesquisadores em geral’.


A educação superior está contra-atacando. Bibliotecários estão ensinando
‘capacitação para obter informação’. Alunos de pós estão começando a discutir a
adesão à Wikipedia em vez de combatê-la, como muitos ainda fazem
quixotescamente.


Uma melhor informação numa sala de aula poderá produzir a sociedade que a
internet um dia prometeu? Há duas maneiras de avançar. Mais proprietários de
conteúdo gratuito de qualidade deveriam aprender as manhas para incrementar seus
sites de forma a melhorar sua classificação nos mecanismos de busca. E o Google
pode fazer mais para educar os usuários sobre o poder – e freqüente conveniência
– de suas opções de busca avançada. Seria uma vergonha se uma tecnologia
brilhante acabasse ameaçando o intelecto que a produziu.


* Autor de ‘Our Own Devices: How Technology Remakes
Humanity’’




TELEVISÃO
Beatriz Coelho Silva


Amaury tipo ‘tv pirata’


‘Na próxima sexta-feira, depois do Globo Repórter, Luiz Fernando Guimarães
apresenta ao público Jorge Horácio, colunista social eletrônico, às voltas com a
falta de dinheiro, as rusgas com a ex-mulher, Silvana (Maria Clara Gueiros), e a
educação do filho de 8 anos, Hélio (David Lucas), adequada e com amor. É o
primeiro episódio de Minha Nada Mole Vida, outra parceria com o casal Fernanda
Young e Alexandre Machado e o diretor José Alvarenga (de Os Normais e do quadro
Super Sincero), que fica no ar pelo menos até a Copa do Mundo.


Apesar da semelhança do programa fictício com os reais de celebridades que
inundam a TV (o veterano e mais famoso é o de Amaury Jr, na Rede TV!), Luiz
Fernando nega ser esta sua inspiração. Nem poderia admitir a paródia, pois a
Rede Globo não permite referências a outras emissoras. Segundo o ator, a idéia é
explorar comédia e relacionamentos. ‘Falo de pai e filho, um assunto pouco
explorado na dramaturgia, mas a gente usa um assunto para falar de outros, como
uma família moderna, em que pai e mãe são separados, o amor acabou e sobrou uma
criança’, explica Luiz Fernando que também quer contracenar com crianças. ‘É
interessante. Nós adultos, quando representamos, ficamos infantis e os meninos
agem como se fossem adultos.’


Hélio amadurece mais cedo devido às disputas dos pais. Jorge Horácio cobre
eventos sociais e vive sem dinheiro, num mundo de fortunas e glamour, e sente-se
cobrado pela mulher o tempo todo. No primeiro episódio, a determinação judicial
de passar os fins de semana com o filho o obriga a se organizar para dividir-se
entre trabalho e aquela criança a quem ama, mas com a qual não tem intimidade ou
tempo disponível. É uma comédia, com momentos tocantes, que evitam a pieguice ou
o exagero.


‘Tal como Jorge Horácio começa a conhecer o filho, eu aprendo a contracenar
com o ator que o representa e a descobrir meu persoangem’, fala Luiz Fernando.
Ele propôs o tema aos autores e à Rede Globo, que aceitou de imediato.
‘Trabalhamos numa relação muito aberta. Eles dão dicas sobre minha atuação e eu
dou palpites no texto e na direção. Acho que isso vem de minha origem, no grupo
Asbrubal Trouxe o Trombone, em que todo mundo se envolvia em todas as etapas dos
espetáculos.’


Dos cenários de Jorge Horácio (um apart hotel decadente e as festas de
celebridades) à representação tudo é bem realista, sem esquecer o texto, com
espaço para muita improvisação. Luiz Fernando começou na televisão em 1984 (em
Vereda Tropical). Desde o TV Pirata, nunca mais deixou de freqüentar o riso na
TV. Vide Comédia da Vida Privada, Programa Legal, Programa de Auditório e Vida
ao Vivo.


‘Desde o TV Pirata, dou palpites e ofereço projetos à Globo. Como dou
retorno, nunca foi difícil realizar oque quis’, ensina, sem tom professoral. E
criou uma relação especial com o público. ‘As pessoas me conhecem na rua como
ator e não como o persnagem que faço no momento. Talvez porque represento
mostrando a situação e sinto um pouco eu mesmo.’


Minha Nada Mole Vida ocupará as noites de sexta-feira por oito semanas. Se a
audiência gostar, novos episódios podem vir aí. Enquanto isso, o horário mantém
aquele revezamento de diferentes séries nacionais, como tem acontecido, aliás,
desde o fim de Os Normais.’


Taíssa Stivanin


Ele Dá Conta Do Recado


‘Gabriel Braga Nunes, 34 anos, chega para conversar com o Estado de chinelos,
bermudão, olhos inchados de sono. Puxa uma cadeira na varanda de uma casa da
Fazenda Bela Manhã, onde vem sendo gravada a novela Cidadão Brasileiro,
desculpa-se pelo atraso e engole um bocejo. Eis o protagonista da novela da
Record, o personagem-título da trama, Antônio Maciel. Grava 15 horas por dia,
cinco dias por semana para pôr no ar a história de Lauro César Muniz. O cansaço
de Gabriel é visível, mas isso não abala seu bom humor. Brinca com todo mundo,
dá risada. Nem parece que tem pedigree – é filho do diretor de teatro Celso
Nunes e da atriz Regina Braga – e trata a profissão sem frescuras. Leva a
entrevista como se estivesse em um bate-papo de bar. Antes que a gente se
despedisse, Gabriel ainda teve tempo de alcançar o carro da reportagem para
dizer: ‘ei, põe aí que vou casar esse ano e é a primeira vez que quero ter
filhos.’ Esse Antônio Maciel…


Como é lidar com um personagem ao mesmo tempo protagonista e antagonista?


Eu faço um herói cheio de conflitos. Ele está o tempo todo em contato com
dúvidas do tipo: ser pobre e honesto ou me corromper para enriquecer? Isso é uma
questão tipicamente brasileira, e o fato de estar com várias mulheres ao mesmo
tempo. Um herói brasileiro é necessariamente um herói erotizado. A coragem de
arregaçar as mangas e construir coisas, sem medo de errar. Um cara simples,
popular, com pouca instrução, mas que consegue circular bem nas elites. Ao mesmo
tempo é capaz de botar tudo a perder por um gesto absurdo de ingenuidade.


Há alguns anos, em uma entrevista, o diretor Jayme Monjardim, da Globo, disse
que você fazia parte de uma geração promissora de atores. Era, portanto, um galã
em potencial da casa. Por que trocou de emissora?


Ele falou isso de mim? Deve ser por causa de Terra Nostra, que fizemos
juntos. Bom, eu não mudei de emissora. Eu sempre fui frila, nunca fui da Rede
Globo. Fiz seis novelas lá, mas nunca fui da casa. Eu tive propostas da Record
mais interessantes. As condições de trabalho que eu tenho aqui são melhores. E
também aconteceu que na Globo meus personagens estavam se repetindo. Eu não
estava conseguindo fazer um herói. Fazer um homem íntegro como fiz em Essas
Mulheres era o que eu procurava.


E você veio para cá nesse pacote? Fazer ‘Essas Mulheres’ e emendar ‘Cidadão’?


Não, vim fazer Essas Mulheres. Fiz um contrato por obra. A novela deu muito
certo e na reta final pintou um convite, então fiquei na casa. Mas não houve
essa história de ‘abandonei a Globo para vestir a camisa da Record’. Assim que
acabar Cidadão estou livre, não sei o que vou fazer depois. Gosto de
independência.


Você parece que leva a profissão sem nenhum glamour. Como se fosse um
funcionário. É isso mesmo?


(Risos). Eu não sei. Talvez pelo fato de ter mãe e pai ator, desde cedo no
meio do teatro, talvez isso tenha me dado uma visão mais objetiva do que seja a
profissão. Mesmo TV, foi uma coisa que entrou na minha vida aos 25 anos de
idade. Eu era contra TV.


Contra, por quê?


Não sei, nunca tinha chegado perto desse mundo, nunca vi novela. Quando eu
estava fazendo faculdade (é formado em Artes Cênicas pela Unicamp), as
oportunidades que apareceram em TV não me interessaram. Na adolescência, achava
que novela era nocivo para o país. Mas depois, aos vinte e poucos anos, tive um
insight, achava que era cedo para estar preconceituoso com a profissão de ator.


Uma de suas primeiras experiências foi na Record, na minissérie ‘Por Amor e
Ódio’.


Antes fiz Razão de Viver no SBT que eu adorei. Para mim foi especialíssimo,
como eu nunca tinha feito. Depois da novela, fui morar em Londres. Gastei tudo o
que eu tinha ganho, que não era tanto assim, e quando voltei, voltei duro. A
sorte foi que quando eu cheguei o Atílio Riccó me chamou para fazer uma
minissérie na Record, de 30 capítulos, que virou 50.


Como você avalia essa diferença entre atuar na casa em 1997 e agora?


Naquele momento, não tinha estúdio. Gravava tudo em Itu (interior de São
Paulo), era tudo locação. A qualidade técnica era outra. Não dá para se criticar
as pessoas que estavam ali porque as condições que a emissora disponibilizava
para a teledramaturgia eram outras. Muito tempo depois, houve a possibilidade de
fazer o galã da Escrava Isaura, mas não aconteceu.


Por quê?


A falta de um acordo financeiro e também porque eu ainda não confiava na
casa. Eu tinha medo de ficar exposto e pagar pra ver. Mas a Escrava Isaura foi
muito bem, meu grau de confiança aumentou. Fui mais simpático à idéia de
trabalhar na Record. Era uma decisão que ainda envolvia riscos, porque a
emissora ainda não estava estabilizada. Mas eu vim. Essas Mulheres foi muito
legal, tivemos um retorno bom de crítica. A partir dessa novela, a classe de
atores de São Paulo e Rio ganhou muito mais simpatia pela Record, venceu os
preconceitos e começou a ter vontade vir trabalhar aqui. Isso foi significativo
em Essas Mulheres, mesmo que não tenha sido um grande sucesso de audiência.


Em algum momento você se questionou, indo para a Record, pelo fato de a
Igreja Universal estar por trás da emissora?


(Suspira). Essa é uma questão ampla. Se você fizer uma investigação de todos
seus contratantes, vai entrar em um universo muito maluco. Não vejo problemas, a
partir do momento em que a obra não está sendo panfletária. Outra coisa, novela
é obra aberta. A gente nunca sabe os temas que serão abordados no capítulo
seguinte. Então se lá pelo capítulo 100 seu personagem vira gay, não é você que
responde por isso, é o autor.


Era de se esperar alguma patrulha moral na novela. E no entanto somos
surpreendidos com cenas do Antônio Maciel dizendo que é ‘avantajado’. Então
parece que está tudo liberado, é isso?


A gente esbarra em limites morais. Pessoalmente eu acho saudável você
esbarrar em limites morais, porque provoca reflexão. E não acho bom ultrapassar
agressivamente limites morais, porque você pode agredir a família brasileira
(risos). Essa é minha posição. Em Cidadão Brasileiro somos questionados sobre
momentos em que esbarramos nesses limites. Com relação à igreja, não tenho
religião e não tenho nenhum problema em estar trabalhando em uma emissora que
pertence a uma igreja.


Na sua adolescência você tinha banda de rock hardcore. Como foi essa costura
entre a música e o teatro?


Comecei a estudar violão aos dez anos, e foi de longe a coisa que eu mais
gostei de fazer na minha adolescência. Escrevia muito, compunha muito, desenhava
muito. Era muito afeito a atividades de criação solitária. Ficava muito tempo no
meu quarto criando coisas. Aos 13, comecei a fazer aula de teatro na escola. Eu
era tímido e as aulas começaram a trabalhar com o jogo, as relações, a troca.
Fui seduzido. O teatro e me fez abandonar todas as atividades de criação
solitária. Parei de escrever, desenhar tocar e mergulhei no jogo e passei a
aprender mais sobre o outro, a vida e as relações.


E aí você escolheu o ofício de ator.


Essa profissão tem um caráter de descoberta pessoal… (Gabriel interrompe).
Pára, é meio brega essa coisa de descoberta pessoal, é muito brega (risos). É
fascinante porque faz você aprender mais sobre si mesmo pela experiência de
outros, de personagens. E eu melhorei muito socialmente desde que virei ator…
em compensação, meu caráter piorou muito (risos). Personagens como Olavinho, de
Anjo Mau (1998), embora ele fosse um grande fdp, me melhoraram socialmente. A
cara-de-pau, o despudor, essa coisa do Antônio – ‘cheguei e abalei’ -, que o
Gabriel nunca teve.


Como seu pai foi uma referência para você no teatro? Vocês se distanciaram
cedo, quando ele se separou de sua mãe, Regina Braga.


A gente não cresceu perto dele, mas, quando éramos crianças, meu pai
trabalhava muito, emplacando peça atrás de peça. Era comum passar as férias de
verão no Rio de Janeiro, porque ele estava em temporada e a gente ficava morando
no hotel com ele e o acompanhando ao teatro. Com minha mãe também freqüentei
muita coxia, camarim. O contexto de uma educação assim faz que você já cresça e
já esteja inserido, moldado para a cultura daquela profissão.


Como foi o reencontro com seu pai na peça ‘K2’?


Ele me falava muito dessa peça, que ele tinha na gaveta há 15 anos, mas tinha
preguiça de produzir. Meu pai mora em Floripa, tem barco, a vida dele é outra
parada. Então comecei a visitar empresas com meu projetinho debaixo do braço.
Demorou 2 anos e meio para a captação, consegui captar R$ 560 mil, meio milhão.
Primeira produção minha. Aí contratei meu pai! E trouxe ele para me dirigir.


É curioso que no meio de uma família de atores, há o doutor Dráuzio (Varella,
atual marido de Regina Braga). O lado racional dele o influencia?


Muito, convivo com ele há 23 anos. É complementar. Ele teve uma influência
muito positiva na minha educação.


Você já se casou três vezes, não é?


Não é bem assim. Já tive três relacionamentos de morar junto e três
relacionamentos importantes na vida. Três não, estou no quinto, na verdade. Mas,
nesse plano pessoal, considero que estou vivendo a relação mais vertical da
minha vida.


O que é vertical?


Fundamental, mais importante. Ih, não fala importante – as outras vão me
ligar para reclamar, porque somos amigos.Gabriel Braga Nunes vem gravando 15
horas por dia a novela ‘Cidadão Brasileiro.’ Antônio Maciel é o segundo
protagonista de sua carreira. E o segundo na Record’




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