Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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FEITOS & DESFEITAS >

O fim das bancas de jornal

Por Luciano Martins Costa em 13/11/2013 na edição 772

Os programas locais de rádio dedicaram bastante tempo, na tarde de terça-feira (12/11), ao projeto de lei que transforma as antigas bancas de jornais e revistas de São Paulo em lojas de conveniência. Tão tradicionais quanto as padarias na paisagem da capital paulistana, as bancas podem agora vender praticamente tudo: aparelhos eletrônicos de pequeno porte, guarda-chuvas, jogos para computador, doces, salgados, bebidas não alcoólicas e serviços, como acesso à internet e entrega de encomendas dos Correios.

Podem também vender jornais, revistas e livros.

Oficialmente, apenas 25% do espaço interno das bancas poderão ser destinados a produtos não relacionados ao mercado editorial. Mas, conforme se podia ouvir nas entrevistas de representantes do setor, o que já ocorre e deverá se tornar padrão é que os clientes se aproximam para comprar outras coisas e, eventualmente, levam uma revista ou jornal.

Na prática, o que acontece é que os estabelecimentos tradicionalmente dedicados à distribuição de produtos da imprensa têm que vender outras mercadorias, porque o comércio de jornais e revistas não é mais suficiente para cobrir as despesas. O assunto, que certamente vai ser registrado por pesquisadores do negócio de informações nesta segunda década do século, foi praticamente ignorado pelos grandes jornais da quarta-feira (13/11). Apenas a Folha de S. Paulo fez o registro da sanção da lei por parte do prefeito, em uma nota de pé de página.

A rigor, a medida apenas legaliza uma situação de fato: há alguns anos, os donos desses pequenos comércios são obrigados a oferecer qualquer coisa para garantir o faturamento, porque as vendas de publicações estão praticamente estagnadas. Segundo dados do sindicato do setor, São Paulo, que tinha cerca de 5 mil bancas em 2007, perdeu mais de mil desses estabelecimentos até 2012, principalmente por causa da mudança de hábitos dos leitores, que progressivamente trocam as edições de papel pela leitura em aparelhos eletrônicos.

A queda das vendas afeta principalmente empresas como a Editora Abril: a venda avulsa em quiosques significa 50% da circulação de seus títulos. Um jornal como o Estado de S. Paulo, por exemplo, tem menos de 10% de suas vendas feitas em bancas.

Secos e molhados

A transformação desses tradicionais pontos – que representam o último elo na cadeia de produção do jornalismo impresso – em minimercados de conveniência pode representar a pedra tumular do período industrial da imprensa, que não parece encontrar um lugar no mundo pós-impressão. A rigor, as bancas vinham funcionando apenas como vitrinas de produtos editoriais, e é comum encontrar em algumas delas publicações antigas cujos editores esqueceram de fazer o recolhimento.

Na impossibilidade de sobreviver atrelados à indústria de informação, os donos desses pequenos estabelecimentos foram obrigados a buscar alternativas, negociando sua permanência no congestionado comércio da cidade. A falta de reação dos jornais, que praticamente ignoraram o assunto, pode significar que, também para a imprensa, a transformação dos quiosques em lojas de conveniência é uma chance de continuar exibindo suas manchetes. Quem sabe, entre um refrigerante e um pacote de amendoim se vende algum jornal.

O problema é que o negócio da imprensa não pode depender basicamente da compra por impulso, estimulada por uma fotografia chocante na primeira página, ou pela promessa de uma história instigante exibida por um título bem elaborado. Ao contrário do que se podia observar há poucas décadas, a relação do cidadão com a notícia se dá, cada vez mais, como um complemento de seus vínculos sociais.

Se antes a posse da informação determinava o valor social do indivíduo, agora o sinal se inverte e a posição do cidadão no jogo das vinculações é que pode fazer uma informação circular, ganhar credibilidade ou desaparecer. Não é por outra razão que as agências de marketing digital investem na identificação dos protagonistas das redes sociais que conseguem agregar em torno de si o maior número de ativistas da comunicação.

A mídia tradicional perde sua posição de centralidade no ecossistema da comunicação e da cultura. A transformação das bancas de jornais em lojas de secos e molhados é parte desse processo. 

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