Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > FOLHA DESVAIRADA

O lamentável retorno do jornalismo-badalo

Por Alberto Dines em 30/10/2007 na edição 457

A Folha perdeu as estribeiras. Ou a compostura. Arquivou a sutileza, o savoir-faire, botou para quebrar – já não esconde que deseja apenas fazer barulho. O jornal a serviço do Brasil assumiu o jornalismo-badalo, apelação. Recebeu o espírito da falecida irmã dos anos 60, a sensacionalista Folha da Tarde, e manda dizer que o esculacho está de volta.


No domingo (28/10), no alto da primeira página, sem provas, na base de uma informação policial off the record, o jornal acusou o padre Júlio Lancelotti de manter um relacionamento sexual com um ex-interno da Febem.


No dia seguinte, segunda-feira (29/10), também na primeira página, a Folhona ressuscita o Rolex roubado do televisivo Luciano Huck, agora com uma fanfarronada social de outra figura do showbiz, o cantor e compositor Zeca Baleiro.


A cretinice progressista do rapper Ferréz deu o que tinha para dar e, sossegados os freqüentadores do ‘Painel do Leitor’, os sensores do departamento de marketing indicaram que estava na hora de esquentar o jornal novamente.


‘Huck precisou ser roubado para atacar a exclusão social’, proclamou o excelso Zeca Baleiro na chamada da primeira página, remetendo ao artigo da nobilíssima página 3.


Na falta de pitbulls hidrófobos da extrema-direita, a Folha desta vez foi buscar um exemplar da New New-Left, padrão Pet Shop. O latido é o mesmo.


‘Vanguardismo muderno’


Enquanto o Estadão se esvai, a Folhona dissipa-se – este é o retrato da paulicéia midiática. O Estadão fica menos mal, empurrado pela força da gravidade, com um resquício de grandeza, mangas puídas, porém limpas. Já a rival, Folhona, escolheu o salto no escuro, o vanguardismo marron-glacé, sócio-pop, ‘muderno’.


Apesar das diferenças, o pensamento único, homogêneo, nivelado: em duas ocasiões da mesma semana os dois jornalões duplicaram suas manchetes. Na terça, 23/10 (o dia em que foi revelado o escândalo do leite fraudado), escolheram a mesma chamada principal na primeira página, com as mesmas palavras: ‘Remessa de lucros piora as contas externas’.


As almas-gêmeas exibiram-se novamente no sábado, 27/10, com fraseado ligeiramente diferente: ‘Ação da Bovespa sobe 52% na estréia (Folhona); ‘Ações da Bovespa sobem 52% no dia do lançamento’ (Estadão).


Ambos querem os mesmos mauricinhos e as mesmas patricinhas. Para esses leitores altamente qualificados é que os departamentos de publicidade das imobiliárias preparam anúncios de cinco páginas para vender edifícios de apartamento com nomes franceses em ruas ‘de um bairro tipicamente americano’.


Pagamento atrasado


No mesmo dia do retorno do jornalismo-badalo, a mesma Folhona, na mesma página 3, publica outra aberração: o artigo do imortal educador Arnaldo Niskier. Desta vez, o cachê demorou: geralmente as idiotices do lobista-chefe das universidades privadas são publicadas logo em seguida aos especiais produzidos pela Folha para agradar os barões da indústria do diploma.


O último, ‘Guia das Profissões’, saiu no domingo, dia 7/10, e o pagamento só veio agora, três semanas depois. Classificação: indecente. Recortaram-se depoimentos de profissionais liberais (e duas estrelas da equipe do jornal) para encher um tablóide de 24 páginas saturadas de anúncios e matérias promocionais sem qualquer validade jornalística, para atrair inocentes vestibulandos. A autoria da maioria das matérias é trambicada (Da Redação) e apenas três são assinadas – por colaboradores eventuais.


Na página A-6 da edição de domingo (28/10), o ombudsman Mario Magalhães reclamou das sucessivas manchetes dominicais produzidas na base de percentuais e dados estatísticos que não querem dizer absolutamente nada. Este observador agradece: o mesmo vem sendo dito aqui há meses.


Aguardemos as suas ponderações sobre o jornalismo-badalo.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/11/2007 Fabio Passos

    Tomara que a voz dos excluídos e marginalizados seja ouvida cada vez mais pela imprensa. Talvez seja a sua salvação, afinal, não há nada mais tedioso que o trololó da nossa elite afrikaaner, que abunda na Globo, Veja, FSP e Estadão. A linha editorial destas empresas é uma ode a frívolidade dos grã-finos e pretende ser um guia para o curral – classe média – que sai repetindo os mesmos bordões enfadonhos e preconceituosos. A voz dos excluídos é muito mais rica, densa e criativa. Ar puro.

  2. Comentou em 31/10/2007 Mauro Augusto

    O texto de Zeca baleiro é primoroso. O articulista Dines se perde em invectivas desnecessárias, vis, deselegantes. Põe-se no execrável papel de censor, algo que é muito caro a tão defendida liberdade de expressão. Um artigo para ser esquecido, uma lição de desonestidade intelectual e ética de um pretenso árbitro….

  3. Comentou em 30/10/2007 Marco Antônio Leite

    A imprensa em geral esta se arrastando igual uma cobra no deserto à procura de alimento. A imprensa de papel, encontra-se na UTI, moribunda no leito de morte, esta aguardando somente alguém desligar a aparelhagem. Após seu passamento para o outro lado do mistério, todos estarão no velório do defunto fresco. Essa apelação pelas coisas menores ou pérfido, veio com o objetivo de tentar tomar um fôlego, para ter uma chance de sobreviver pôr mais um tempo. No entanto, é bom avisar o doente que nem mesmo milagre ira resolver a sua trajetória, com final melancólico e triste, mas em compensação vestido num lindo terno de madeira.

  4. Comentou em 30/10/2007 Manassés Augusto Dos Santos Nóbrega

    ‘Os latões com menos conteúdo são os que mais produzem barulho.
    E a falta de conteúdo deixam-os mais leve para se carregar…’

    Só faço duas perguntas:
    Até quando nossa saúde,educação,informação,e,outras prioridades
    continuam fora dos interesses de ‘mercado’?
    Até quando os ‘latões’ vazios serão os melhores cotados no ‘mercado’?

  5. Comentou em 28/06/2007 Ricardo Ferreira

    Caro Dines:
    Concordo com quase todas as suas opiniões, exceto quando se trata de mexer com a ‘liberdade de imprensa’ que vc defende com vigor.
    Não creio que seja censura coibir os excessos dos meios de comunicação de massa.
    A TV, principalmente, é um meio formador de opinião muito forte e deveria canalizar esta força para ajudar o país a se desenvolver e informar e educar o povo da melhor maneira possível, não somente gerar lucros para os detentores das concessões.
    Sou a favor da classificação indicativa da programação feita por um grupo de pessoas escolhido pelo governo, através de uma página da Internet onde os interessados se inscreveriam e que seriam periodicamente substituídos.
    É bem melhor o governo classificar e os pais liberarem, ou não, os filhos para assistir, do que as emissoras transmitirem o que quiserem e os pais proibirem os filhos de assistir, gerando mal estar entre eles.
    A programação também deveria ser, dentro de cada faixa de horário; um terço regional para estimular as produções locais, um terço ao vivo para gerar emprego e formar mão de obra especializada, e um terço livre.

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