Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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FEITOS & DESFEITAS > GLOBO.COM

O marrom e o rosa no jornalismo esportivo

Por Tiago Figueiró em 18/03/2008 na edição 477

Como se não bastasse a pecha de palpiteiros, muitos jornalistas esportivos parecem não temer a possibilidade de serem taxados de integrantes das imprensas rosa e marrom. Grande parte desses profissionais lança mão do sensacionalismo – tipo de postura editorial adotada regular ou esporadicamente, caracterizada pelo exagero, pelo apelo emotivo e pelo uso de imagens fortes – na cobertura dos fatos jornalísticos. E o leitor brasileiro, complacente, lê, agradece e estimula a multiplicação das matérias pobres em conteúdo.


O Código de Ética dos Jornalistas é enfático: ‘O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo’. Deve evitar promover a imprensa marrom, ou seja, o sensacionalismo que busque alta audiência e vendagem por meio da divulgação exagerada de acontecimentos apelativos, e a imprensa rosa, nome que se dá ao jornalismo acostumado a cobrir o cotidiano das pessoas, principalmente as celebridades.


No jornalismo esportivo não é diferente. Não se deve alimentar rumores, boatos e fofocas. Além disso, os profissionais da área lidam com alto grau de risco de parcialidade, pois tanto jornalistas quanto leitores têm preferências por determinados times ou atletas. Por isso, devem tomar cuidado com a paixão ou repúdio que as matérias podem facilmente provocar no público. O profissional da imprensa esportiva deve ter uma atuação baseada nos princípios consagrados do bom jornalismo – esforço, independência, imparcialidade e criatividade –, como considera Paulo Vinicius Coelho em seu livro Jornalismo Esportivo.


Se os boatos e fofocas não são evitados, os veículos tornam-se verdadeiras revistas de celebridades, focadas na vida íntima de pessoas conhecidas na sociedade, como os jogadores de futebol mais famosos. É o caso das últimas matérias publicadas pela Globo.com sobre a repercussão da comemoração do atacante palmeirense Denílson no último jogo contra o Bragantino (9/3), pelo Campeonato Paulista. Uma prova de que a imagem do indivíduo está mais exposta do que em outros tempos deste jornalismo que observa voyeristicamente a vida particular das celebridades.


‘L’ de lambança


Na comemoração dos dois gols na vitória de 5 a 2 sobre o Bragantino, Denílson fez um ‘L’ com os dedos das duas mãos. Ao deixar o campo, declarou: ‘A pessoa que eu homenageei sabe. Não preciso dizer quem é’. Foi quando começaram as especulações sobre quem seria a pessoa lembrada pelo jogador.


Na segunda-feira (10/3), às 09h51, a Globo.com publica: ‘Atacante afirma que o gesto em `L´ foi em homenagem a uma amiga’. Anexa à matéria, a foto da ex-atacante do Internacional e da seleção brasileira sub-20 e capa de uma revista masculina em março, Laisa Andrioli, possível affair do jogador. Às 19h05 do mesmo dia, o mesmo site estampa: ‘Musa gaúcha quer ver jogo de Denílson’ e ‘Modelo diz que comemoração do atacante foi em homenagem ao seu aniversário’. E a notícia traz também: ‘Ela diz que a imprensa já colocou até aliança em seu dedo’.


Na tarde seguinte, às 12h32, mais especulações no portal: ‘`L´ de Denílson é da ex de Richarlyson’. ‘Na semana do clássico, Letícia, ex do são-paulino, assume namoro com o palmeirense’, diz a matéria. Mais tarde, às 16h16, as fofocas continuam: ‘Triângulo Amoroso – Gaúcha diz que `L´ de Denílson não foi para a ex de Ricky’. Às 19h49, mais rumores: ‘Denílson não revela próxima comemoração’; ‘Laisa ou Letícia?’; ‘Ao que parece, Denílson vai aposentar a famosa comemoração com a letra `L´’.


Não é preciso ser especialista em análise do discurso para avaliar a construção do texto das matérias veiculadas pela Globo.com na semana posterior à partida. Invasão de privacidade, inconseqüência e sensacionalismo retratam um jornalismo despreocupado com os códigos de ética profissional, mercantil e focado num objetivo da imprensa: atingir a grande massa dos leitores ‘comuns’. Sem caráter crítico, as matérias publicadas passam por cima da privacidade do jogador e das mulheres citadas, no intuito de criar um enredo chamativo para leitores mais curiosos por fofocas.


Por fazerem sua cobertura de forma invasiva na vida de pessoas – que, embora famosas, não querem ter sua intimidade devassada – os profissionais do portal compactuam com as vertentes rosa e marrom do jornalismo esportivo. Já os leitores, gentis com esse estilo de imprensa, consomem as notícias e estimulam a sua proliferação.


De Nelson para Homer


Quando em 2005, ao conversar com estudantes de jornalismo, o apresentador e editor-chefe do Jornal Nacional Willian Bonner comentou que o programa deveria ser feito para o Homer, deixou claro como são as práticas de comunicação das Organizações Globo. Segundo ele, por transmitir notícias às pessoas das mais variadas classes sociais, o Jornal Nacional deveria focalizar no telespectador médio, ou no Homer Simpson, personagem do desenho norte-americano Os Simpsons, famoso pela inteligência limitada e obtusa.


Assim como o Jornal Nacional, o jornalismo esportivo da Globo.com parte do princípio que os telespectadores e leitores têm muita dificuldade para entender notícias complexas, são preguiçosos e têm o raciocínio lento, como o personagem do desenho animado estadunidense. Assim, lançam em suas editorias matérias de cunho sensacionalista, as preferidas pelo brasileiro médio.


Mas o Homer brasileiro também lia as crônicas recheadas de drama e poesia que Nelson Rodrigues publicava nos jornais. Como conta Paulo Vinícius Coelho, até um jogo violento, como o entre Bangu e Flamengo que decidiu o Campeonato Carioca de 1966 (a partida não completou o tempo regulamentar porque o jogador Almir, do Flamengo, armou grande confusão), era tratado por Nelson com rara dramaticidade. As crônicas motivavam o torcedor a ir ao estádio para o jogo seguinte e, especialmente, a ver seu ídolo em campo.


Resta saber se os fãs de Denílson irão ao estádio assistir ao próximo jogo em que o ídolo atuará motivados pela leitura das matérias sobre rumores de triângulo amoroso na Globo.com.

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Jornalista, Brasília, DF

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