Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & SOCIEDADE

O ‘mundo’ dos telejornais: a teoria do agendamento

Por Alfredo Vizeu em 13/11/2007 na edição 459

Os telejornais contribuem de uma forma relevante para que os brasileiros entrem em contato e percebam o mundo que os cerca. A agenda diária de cobertura dos fatos pelos noticiários muitas vezes se confunde com a agenda pública. As conseqüências desse agendamento e do enquadramento dos acontecimentos feito pelos noticiários sugerem que eles não só nos propõem o que devemos pensar, como também nos propõem como pensar.

No processo de produção da notícia, ao selecionarem determinados fatos excluindo outros, os informativos televisivos organizam, sistematizam, classificam e hierarquizam a realidade, emoldurando os acontecimentos, o cotidiano. O mundo a que assistimos diariamente nos telejornais é produzido dentro das normas e regras do campo jornalístico que, ao dar visibilidade aos demais campos do conhecimento, os submete a seus processos e estratégias.

O objetivo deste artigo é propor algumas reflexões sobre como os jornais televisivos, ao selecionarem determinados fatos e acontecimentos, vão estabelecendo um determinado olhar sobre cotidiano. Ou seja, ao decidirem diariamente que notícias devem entrar num telejornal, as empresas jornalísticas e os jornalistas vão definindo o que é realidade. Quais são as informações que devem fazer parte do cardápio. É a realidade da ‘telinha’.

O espetáculo mundano

É dentro deste contexto que temos, por exemplo, o enquadramento jornalístico de Salvador como o carnaval dos trios elétricos ou o Recife do maracatu e do frevo, entre outras tipificações. Esse recorte que o jornalismo faz sob alguns aspectos, algumas características dessas capitais, acaba ganhando na televisão a dimensão da totalidade. A parte passa a representar o todo.

Toda uma série de aspectos culturais e sociais é deixada de lado e as cidades passam a ser a Recife do maracatu e do frevo e a Salvador dos trios elétricos. Consideramos que a reflexão sobre essa questão pode oferecer pistas para entendermos como o campo do jornalístico contribui para a produção social da realidade nas sociedades contemporâneas.

O processo de produção da notícia é extremamente complexo e envolve, desde a captação/elaboração/redação/edição, uma audiência interativa. Envolve momentos de contextualização e descontextualização dos fatos. É resultado da cultura profissional, da organização do trabalho, dos processos produtivos, dos códigos particulares (as regras de redação), da língua e das regras do campo das linguagens, da enunciação jornalística e das práticas jornalísticas.

A imagem que a mídia constrói da realidade é resultado de uma atividade profissional de mediação vinculada a uma organização que se dedica basicamente a interpretar a realidade social e mediar os que fazem parte do espetáculo mundano e o público. O jornalismo não só transmite, mas prepara e apresenta uma realidade dentro das normas e das regras do campo jornalístico.

Centro de atenção

O jornalismo hoje ocupa hoje uma função relevante na sociedade. Os telejornais cumprem uma função de sistematizar, organizar, classificar e hierarquizar a realidade. Dessa forma, contribuem para uma organização do mundo circundante. É como se os telejornais criassem um outro Recife, um outro Pernambuco, uma ‘comunidade imaginada’, construída pelos telejornais. Isso porque homens e mulheres que circulam pela cidade, vivem na cidade e no estado, provavelmente nunca vão se conhecer, nunca se encontrarão e nunca ouvirão falar da maioria uns dos outros – através dos noticiários, terão em mente uma imagem de comunhão.

Eles sabiam que naquele instante, em outras cidades e em outros estados, cidadãos que eles provavelmente nunca encontrarão são brasileiros que nem eles. O telejornalismo ocuparia um lugar de referência. Acreditamos que essa discussão pode contribuir para pensarmos a função social do telejornalismo nas sociedades democráticas. Neste artigo, tomo como base de reflexão autores e teorias que estão implícitos, mas não os menciono em função dos limites do espaço e para ‘fugir’ de um trabalho acadêmico.

Para discutir este poder do jornalismo, o Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Pernambuco (UFPE) traz para uma palestra, no próximo dia 20 de novembro, no Centro de Artes e Comunicação, à tarde, o professor Maxwell McCombs, da Universidade do Texas, em Austin, Estados Unidos, responsável pela teoria do agendamento: o jornalismo contribui para o agendamento e discussão dos temas da esfera pública. O professor é referência internacional nos estudos sobre o agendamento.

De uma forma simplificada, a teoria discute o papel dos meios de comunicação na hora de determinar quais são os assuntos que estão no centro de atenção e de ação públicas. Os exemplos são os mais diversos – os mais recentes são o caso do senador Renan Calheiros e, em Pernambuco, o assassinato de duas adolescentes de classe média alta, em Serrambi, que volta e meia estão na pauta da nossa imprensa. Todos estão convidados e a palestra é gratuita.

******

Jornalista, vice-coordenador PPGCOM/UFPE

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem