Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O nome do jogo

Por Luiz Egypto em 22/03/2014 na edição 790

Vinte páginas, não mais do que isso. Este é o tamanho do texto que o pesquisador Tim Berners-Lee encaminhou à direção de seu departamento no Laboratório Europeu de Física de Partículas, na Suíça, no longínquo março de 1989. O documento continha a proposta do projeto de criação da World Wide Web, o três “dáblius” hoje tão presentes em nossas vidas. Conforme anotou o diário espanhol El País, em reportagem sobre os 25 anos da web, o chefe de Berners-Lee apoiou a ideia com o seguinte despacho: “Proposta vaga, mas emocionante…”

Passado um quarto de século, o mundo viveu grandes transformações na esteira da popularização das tecnologias de informação e comunicação. O mundo mudou e o jornalismo, também.

Primeiro, a mídia clássica não entendeu direito o que era a internet e muito menos a web, como hoje ainda tateia para encontrar o melhor aproveitamento das redes sociais. Depois, passada esse etapa, as análises e reflexões melhoraram de qualidade mas ainda não resolveram o nó cego representado pela crise no modelo de negócio. O ponto central é o seguinte: as empresas de mídia, ainda escravas de um modelo industrial, perderam o monopólio da distribuição da informação – condição que a imprensa, por exemplo, desfrutou por pelo menos três séculos.

O avanço tecnológico – e os novos padrões de conectividade e de interatividade – obrigaram o jornalismo a se reciclar. E neste contexto de mudança constante, o jornalismo, e sobretudo os jornalistas, têm se adaptado mais rapidamente do que as empresas de mídia, que só há pouco começaram a abrir espaços para novas narrativas em suas edições na web. Foi o caso do projeto Snow Fall, do New York Times, em 2012; mais recentemente, a reportagem multimídia da Folha de S.Paulo sobre a construção da usina de Belo Monte, em dezembro passado, e, agora, a série inaugurada pela revista de The Economist, a que batizou de “Ensaios”. Vale prestar atenção ao projeto Indie Journalism, que deverá estrear em breve, tocado por jornalistas brasileiros, e que pretende ser uma “rede global independente de repórteres, fotógrafos, cineastas e outros produtores de conteúdo”; e também à Agência Pública, especializada em reportagens de fôlego.

São todos exemplos que casam o melhor das narrativas digitais com os fundamentos inalienáveis do jornalismo, formulados ainda na era pré-digital, quais sejam a isenção, a clareza, a exatidão, a fidedignidade e compromisso com a verdade factual. Isso sem falar na obrigação ética, que é parte integrante do DNA do ofício.

Credibilidade

O que virou de pernas para o ar o velho modelo é o fato de que, a partir da internet, o discurso unívoco, de um para muitos, virou diálogo, de muitos com muitos. E a própria internet deixou de ser entendida como um meio de comunicação para converter-se em um espaço social. Muitas iniciativas jornalísticas atuais compreendem esse fenômeno, e por isso dão exemplos de inovação. Quanto mais não fosse pelo fato de que, nesse cenário de avalancha informativa, onde se pode saber de tudo a todo tempo e em qualquer lugar, o jornalismo profissional nunca foi tão necessário.

Nesse ambiente mutante, vinte e cinco anos após a sacada genial de Tim Berners-Lee e em meio à barafunda de sites, blogs e redes sociais, a reputação ainda é um valor percebido pelas audiências. É isso que faz e fará a diferença no que respeita à informação jornalística. Antes, como agora, credibilidade é o nome do jogo.

 

Novela sem fim

Era pedra cantada. Na quarta-feira (19/3), outra vez foi adiada no plenário da Câmara dos Deputados a votação do Marco Civil da Internet. Embora o governo tenha recuado em dois pontos sensíveis do projeto, ainda assim não houve acordo com o PMDB do deputado Eduardo Cunha, o líder da bancada e o parlamentar que mais opõe resistência à proposta. Por coincidência, a posição de diversos deputados do PMDB contrários ao conceito de neutralidade da rede é a mesma das empresas de telecomunicações, que veem nesse ponto um complicador para os seus negócios. Mas é apenas uma coincidência.

O governo recuou sobre a obrigatoriedade de empresas de internet armazenarem seus dados no Brasil, e aceitou modificar a redação do artigo que trata da neutralidade. Nova votação está prevista para a terça-feira (25/3). A ver se dessa vez a carruagem anda.

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A novela que se arrasta na Câmara – L.E.

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