Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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FEITOS & DESFEITAS >

O QI, o avestruz e a imprensa baiana

Por Manuel Muñiz em 13/05/2008 na edição 485

A semana que passou deixou a Bahia em polvorosa. Tudo porque um professor de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Antonio Natalino Manta Dantas, afirmou que os baianos têm QI (Quociente de Inteligência) baixo. Deixou transparecer, também, um certo desdém para com os alunos da raça negra que passaram a integrar a Universidade Federal (reduto, até bem pouco tempo, de filhinhos de papai) e que, por isso, teriam feito baixar a qualidade do ensino, avaliada pelo Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes).

Ora, o próprio argumento é míope. Se os alunos são despreparados, o curso deveria ajudá-los a se formar melhor. Mas o professor quis dizer mais: que os alunos que entraram por força das ‘cotas’ são despreparados desde a base, embora o mestre tenha atingido, em cheio, o orgulho do povo: ‘O baiano toca berimbau porque tem uma corda só; se tivesse mais cordas não tocaria’, fuzilou.

No dia seguinte à malfadada opinião, o coordenador foi execrado em programas de rádio, TV e jornais. O assunto foi parar até na boca do governador do estado, que não perdeu a oportunidade de repreender o magistrado. No foco dos holofotes estava o professor, coordenador do curso, que uma semana depois pediu o boné e partiu, solicitando dispensa do cargo.

‘Somos burros?’

Não tivesse ocorrido o fato na Bahia, acredito que a repercussão teria sido quase a mesma em todos os lugares do país: achincalhe, afobação, veleidades, emoção, irracionalidade. A imprensa agiu como a torcida que invade o gramado e bate no juiz depois de discordar de uma marcação.

Mostrou na condução do ocorrido toda a força de intolerância, a mesma que está fazendo com que o país se torne um líder em violência, capaz de cometer diabruras inimagináveis – como pais e mães sendo acusados de assassinar seus próprios filhos.

O espetáculo proporcionado pela mídia teve o mesmo destempero dispensado pelo infeliz professor para reagir contra um mau resultado dos testes de seus alunos. O que surpreendeu, no entanto, foi o clima de linchamento que se viu. E tal fato ganhou densidade tamanha que pareceu até que o professor não estava totalmente errado.

‘Somos burros?’, perguntavam os baianos, incrédulos, levados a refletir por programas eletrônicos e impressos, muitos construindo listas de figuras notáveis, num cenário de completo surrealismo. ‘Não somos, somos?’

Haverá luz no fim do túnel?

A imprensa perde a oportunidade para, realmente, fazer uma análise profunda e séria do atual quadro de formação educacional na Bahia. E, por que não, tratar a educação com a importância devida. Sabe-se, por exemplo, que inúmeras escolas públicas são capazes de aprovar alunos que não sabem, ao menos, ler. E o governador, mesmo sabendo disso, não empreende políticas concretas para mudar a situação.

Grande número de estudantes passa pelos anos escolares sem a capacidade de fazer reflexão, sem entender textos ou ser capaz de atuar com um mínimo de cidadania, ética e consciência. A Secretaria de Educação do estado sabe disso, mas faz pouco para transformar a situação. Por que?

As escolas superiores viraram verdadeiros colejões, instituições que vendem diplomas, pouco se importando com a capacidade dos formados em empreender seus ofícios, depois de deixarem essas arapucas.

Em Camaçari, por exemplo, há uma faculdade que está transformando os coordenadores em agentes de negócios, com participação nos lucros e na condução do alunado até a formação. O que diz o MEC sobre tudo isso? Onde é o final deste túnel escuro? Haverá luz?

O pior índice do país

Este esquema arquitetado pelos empresários da educação na Bahia será capaz de elevar o QI dos baianos? Será capaz de melhorar o serviço oferecido pelos novos profissionais liberais? Isso está ocorrendo? Qual é a avaliação dos médicos atualmente?

Essas e outras questões deveriam estar sendo buscadas pela imprensa. Ao invés disso, somente blá-blá-blá e um verdadeiro campeonato de bairrismo. O que a oportunidade solicita, os leitores não vão encontrar nos jornais: matérias críticas sobre os verdadeiros caminhos da educação na Bahia. Por que não fazem isso? Até aonde vão os interesses econômicos dos veículos?

O professor Dantas afirmou, em nota, estar arrependido, vítima que foi de um ‘arroubo de emoção’. O que o professor não foi capaz de observar, graças também à imprensa, é que a sua voz, tão ecoada no estado e no Brasil, não foi capaz de ser ouvida integralmente. Afinal, este ‘arroubo’ atingiu muita gente. E feriu a imagem que não se vê nos índices de educação.

Sete municípios baianos estão entre as 20 cidades brasileiras com pior Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (Ideb). O indicador, divulgado pelo governo federal, avalia a qualidade de ensino das escolas públicas. Entre as capitais pesquisadas, Salvador tem o pior índice do país.

A gravidade do tema

Entre as capitais com os piores índices, Salvador lidera com a nota 2,8. Na lista dos 20 municípios com o pior desempenho nas escolas da primeira à quarta série, há sete cidades da Bahia. Maiquinique tem o segundo pior ensino do país, com a nota 0,7. Os outros municípios são: Biritinga, Itarantim, Inhambupe, Lamarão, Serrinha e Sítio do Mato.

De acordo com relatório da liderança do PT na Assembléia Legislativa da Bahia, apenas 18,0% dos jovens baianos com idade entre 15 e 17 anos estão cursando o ensino médio. Nesse quesito, a Bahia ocupa a sétima pior posição entre os estados brasileiros, estando bem abaixo da média nacional que é de 34,7% dos jovens entre 15 e 17 anos cursando o ensino médio. Somente 3,1% dos jovens baianos entre 18 e 24 anos estão cursando o ensino superior. Nesse quesito, a Bahia ocupa a quinta pior posição entre os estados brasileiros, estando bem abaixo da média nacional que é de 7,4% dos jovens entre 18 e 24 anos cursando o ensino superior.

Estará totalmente errado o tal professor, ex-coordenador de Medicina da UFBA ao afirmar que o baiano tem baixo QI? Talvez sim, no que se refere à intenção de ferir. Mas, diante dos números frios, talvez não, muito embora não seja uma questão de ‘burrice’. Se não é, qual é a questão para desempenhos tão esquálidos? Por que a situação da educação beira a calamidade? Diante da gravidade do tema, o alerta do professor não poderia ser visto com maior profundidade? Se isso ocorresse na França, o esquentado professor seria enxotado de suas funções?

‘Gerentes’ de negócios

O ex-coordenador, com quase 70 anos, está saindo de cena. Ficam o governador, Jaques Wagner, o senador Antonio Carlos Magalhães Júnior, entre tantos outros políticos, educadores e líderes sociais que têm responsabilidade sobre a área, mas que, como vimos, pouco fazem para mudar o descalabro da educação na Bahia. Por que será? Quais são os verdadeiros interesses desses senhores?

Para a imprensa da Bahia, no entanto, agora parece que tudo vai bem outra vez. Afinal o coordenador já deixou o cargo e o ‘ódio destilado’ foi plenamente justificado. Com isso, resolve-se o problema, pelo menos da imagem dos baianos. Já que a realidade é bem diferente. Estão aí os meninos e meninas analfabetos já na quinta e sexta séries. Estão aí os milhares de profissionais liberais formados e, paradoxalmente, sem uma verdadeira formação. As faculdades continuam ‘vendendo’ diplomas, lideradas não por coordenadores, mas por gerentes de negócios – de forma escancarada ou não. Embora tudo isso seja indecente, a imprensa continua a tratar o assunto com distanciamento.

Qual é o QI do avestruz que enterra a cabeça diante do desafio? Será a imprensa baiana a maior das aves?

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Jornalista, Salvador, BA

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