Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

FEITOS & DESFEITAS > ‘VEJA’ & ‘ÉPOCA’

O que as revistas poderiam aprender com Sweig

Por Washington Araujo em 04/06/2014 na edição 801

Basta um rápido giro pelo que é notícia para se ter ideia da falta que faz um jornalismo minimamente decente, conectado com a realidade, desses que preza o respeito à sua essência, a busca da verdade. Porta-vozes de realidade enviesada, atravessada e atravancada é o que nos vem à mente quando folheamos rapidamente em banca de jornal, mas sem comprar, as duas principais revistas semanais do Brasil – Veja e Época.

A quem interessa manter a imagem autossabotadora de um país que só dá certo se for localizado no futuro? Não seria melhor para o país se as revistas iniciassem um saudável exercício de autocrítica.

Está claro que as recentes edições das duas semanais são resposta ao discurso do ex-presidente Lula da Silva que, mesmo um tanto atrasado, clama por um debate aberto sobre a necessidade de regulação de nossa mídia, algo previsto desde 1988 em nossa Constituição e até hoje, 26 anos depois, ainda sem regulamentação. Lula não é de fazer gracejo com coisa séria. O que Lula disse habita corações e mentes de intelectuais e acadêmicos, lideranças de movimentos sociais, parte considerável dos chamados formadores de opinião – não aqueles que recebem contracheques das tradicionais empresas de comunicação do país. É um debate já travado nos Estados Unidos há décadas, no Reino Unido, na França. E também em países vizinhos como Argentina, Equador e Venezuela.

Veja, do grupo Abril/Civita, continua apostando alto no reles desmerecimento do Brasil, na trucagem de fatos e informações, e na manipulação de seus leitores para que tirem o brilho da Copa e, com isso, o brilho do país no cenário internacional.

A capa de Veja (edição 2375, de 28/05/2014) é um primor de jornalismo aloprado: cria-se um personagem para representar o alter ego dos donos da revista e, como se podia esperar, não dá outra: o Brasil é um país atrasado, arcaico, cartorial, pobre, miserável, com uma população mal educada, com péssimo sistema de saúde, um povo preguiçoso, um governo inepto, um país que fosse escrito a lapiseira precisava ser apagado com a borracha importada do Grande Irmão do Norte – este sim, o país dos sonhos dos Civita e de boa parte da redação de sua revista em marcha batida para o declínio total e irreversível.

E a derrocada de Veja acontece sem que precise de qualquer contra-ataque do governo. Não se tem notícia que um dos grandes anunciantes do país, o governo federal, tenha sequer ameaçado deixar de anunciar em Veja. E podia. Mas não faz. Além da migração de público de plataforma impressa para plataforma virtual, do papel para o computador, fenômeno mundial que vem desde fins dos anos 1990, o que bate os pregos e entorta as pontas do ataúde de Veja é a sua miopia crônica em se recusar a praticar o bom jornalismo que lhe fez a fama, aquele que vai dos anos 1960 aos 1980. Hoje, Veja não passa de panfleto espectral de tempos áureos que se recusam a voltar para a casa dos Civita.

Espelho fiel

Época (edição 834, de 26/05/2014), do grupo Globo/Marinho, também segue o caminho pantanoso, e sem volta, que sua concorrente Veja. O país chamado Brasil só é bom se continuar a ser indefinidamente “o país do futuro”, aquele profetizado ainda nos anos 1940 por Stefan Sweig. A reportagem de capa daquela edição é uma farsa do início ao fim. A forma adotada para desancar o país que tem feito a fortuna dos bilionários Marinho é situá-lo em um futuro 30 anos à frente, onde tudo é bom e onde escorre continuamente o maná do leite e do mel. É um acinte chamar a matéria de reportagem.

A publicação das Organizações Globo assemelha-se a panfleto político contra o governo atual e um reforço a mais em sua campanha para influenciar nos destinos do país. Mas o que deixa ver é um imenso senso de frustração com o progresso que o Brasil alcançou nos últimos anos: 6ª ou 7ª economia do planeta, mais efetiva política de distribuição de renda do mundo, sede da Copa do Mundo 2014 e das Olimpíadas 2016, mais de década cumprindo com metas de inflação, ainda sem nenhuma necessária lei de regulamentação da mídia.

Qual a moral de uma empresa como a Globo de se mostrar infeliz com o país que temos, de apontar o dedo para mazelas sociais existentes, algumas inventadas outras em maior parte?

O que é a Globo, afinal? Vamos lá: apoiou o golpe de 1964. Está nas capas de seu O Globo dos dias que vão de 25 de março a 25 abril de 1964. Documentos recém-liberados pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos mostram além do apoio a complacência de Roberto Marinho aos ditadores que sequestraram nosso país em 1964 – Castelo, Médici, Costa e Silva, Geisel e Figueiredo.

É difícil esperar que uma empresa assim, por mais abonada e bilionária que seja, possa conviver com sinceridade e senso de missão em um regime democrático. A Globo foi condenada, por decisão unânime de uma junta de auditores fiscais da Receita Federal do Brasil, a pagar R$ 615 milhões em 2006 por ter se beneficiado de uma fraude fiscal nas Ilhas Virgens Britânicas. Corrigido hoje, esse valor ultrapassaria R$ 1 bilhão. Existe até campanha nas redes sociais a favor que a empresa dos Marinho apresente o Darf comprovando o pagamento do que é devido à Receita. Do que deve ao Brasil.

Não fica difícil perceber o que querem Veja e Época. Que o Brasil seja imensa fazenda agrícola comandada a ferro e fogo por capatazes bem escolados e a população miserável receba o que lhe é devido por direito, a miséria, já que justiça é dar a cada um o que é seu. No mais, assumem partidarismo político que sempre tiveram, mas que se torna mais explícito que nunca.

Recomendo que os cabeças dos clãs Civita e Marinho se reúnam uma tarde dessas e se ponham a refletir sobre o seguinte trecho da carta que o escritor alemão Stefan Sweig (1881-1942) escreveu pouco antes de cometer suicídio, em 1942, em Petrópolis:

“Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida…”

O que falta a esses poderosos clãs é exatamente o que nunca faltou a Sweig: demonstrar gratidão ao Brasil por tudo o que país fez e faz por eles; reconhecer que o Brasil é realmente um país maravilhoso; expressar a satisfação por terem encontrado no Brasil guarida gentil e hospitaleira; aprender com Sweig que a cada dia se pode amar o Brasil mais e mais; e, finalmente, entender que no Brasil, mais do que em parte alguma do mundo, poderia alguém reconstruir a vida, mesmo e vindo de uma Europa arrasada pela guerra, como foi o caso do casal Stefan e Lotte Sweig.

O jornalismo de nossas semanais não deixa de ser uma forma de suicídio – aquele que mata a essência do bom jornalismo –, um espelho fiel da realidade.

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Washington Araújo é jornalista e escritor; mantém o blog http://www.cidadaodomundo.org

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