Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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O raciocínio simplista de que não somos racistas

Por Bárbara Lobato em 08/09/2009 na edição 554

O Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) realizou uma pesquisa de opinião com cerca de mil pessoas sobre a destinação de cotas para as universidades públicas. Toda a discussão veio à tona quando o partido Democratas (DEM), ex-PFL, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a suspensão de cotas raciais na Universidade de Brasília (UnB).

A pesquisa aponta que ‘75% dos brasileiros preferem que as cotas nas universidades federais sejam destinadas a alunos pobres que estudaram em escolas públicas, contra 11% que preferem a cota racial’, segundo reportagem de O Globo online desta quarta-feira (2/9).

Esses dados, reproduzidos como estão, geram argumentos falaciosos e reproduzidos em raciocínio simplista. A proposta do DEM é deixar bem claro que, no Brasil, não há racismo. Ou pior: excluir, das cadeiras acadêmicas públicas, os negros.

Antes de formar uma opinião simplista a respeito do assunto, é importante destacar que o governo Lula, em janeiro de 2005, implantou o Programa Universidade Para Todos (ProUni). Entre os vários questionamentos que rondavam o programa destaca-se a argumentação de que não era possível mensurar ao certo qual seria o resultado do desempenho dos alunos egressos do ensino médio da rede pública, favorecidos por bolsas integrais ou parciais, frequentando cursos de graduação em instituições privadas do ensino superior.

Quatro anos depois, a resposta: desde a implantação do ProUni, já foram distribuídas mais de 500 mil bolsas de estudo. Não há dados do governo federal em relação ao impacto do ProUni nas universidades privadas, mas sabe-se que o estudante não pode repetir nem perder matéria, sob pena de ter a bolsa cancelada.

Palanque eleitoral

Então, por que a concessão de cotas para universidades públicas ‘irrita’ tanto? Será que é porque a maioria dos alunos dessas instituições públicas tem os estacionamentos lotados, em grande parte, por carros novos? Ou porque a maioria dos alunos das universidades públicas estudou em escolas particulares? Ou porque boa parte desses estudantes são de classe média ou média alta?

Eu apóio, sem restrições, as cotas para negros: primeiro, o Brasil tem uma dívida histórica com os quatro milhões de negros escravizados no Brasil, entre os séculos 16 e 19, e seus descendentes. Há contra os negros brasileiros um preconceito social, econômico, político e estético – realmente, isso nunca foi superado. O sistema de cotas foi a primeira ação do Estado a enfrentar, de fato, essa situação. Por isso incomoda tanto.

Em segundo lugar, e não por último: a defesa de quem é a favor unicamente de cotas sociais e não étnicas, vê, num futuro próximo, um palanque eleitoral enorme. Os defensores das cotas para os pobres – e nesta condição pode-se burlar o sistema – ganharão novo cenário na política eleitoreira.

De acordo com a pesquisa do Ipespe, 84% dos entrevistados não tomaram conhecimento da ação do DEM em relação às cotas na UnB. Após serem informados sobre o teor da proposta, 54% disseram apoiá-la.

A propósito, o Ipespe é coordenado pelo cientista político Antonio Lavareda, que presta consultoria ao DEM.

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Jornalista, Brasília, DF

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