Quarta-feira, 24 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1010
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FEITOS & DESFEITAS >

Os adivinhadores do passado

Por Luciano Martins Costa em 02/12/2008 na edição 514

A imprensa tem agora um grande dilema moral para resolver: o que fazer com suas milícias de analistas, futurólogos, gurus e opinadores de todo tipo, depois de revelado que a economia americana está, de fato, em recessão há um ano?


A notícia é manchete em praticamente toda a imprensa: o Escritório Nacional de Pesquisa Econômica dos Estados Unidos anuncia oficialmente que o país está em recessão desde dezembro de 2007. Embora o Produto Interno Bruto americano tenha aumentado no primeiro trimestre de 2008, os números do desemprego indicam que a recessão se consolidou um ano atrás.


Pode parecer estranho ao leitor de jornais que as notícias se refiram à constatação atual de um fato que vem ocorrendo há doze meses. Isso porque o público está habituado a acreditar que a imprensa não apenas noticia os últimos acontecimentos, mas também é capaz de indicar possibilidades futuras pela análise do conjunto de fatos presentes.


Ledo engano: a imprensa funciona como uma lanterna apontada para trás, mas vende a idéia de que pode clarear o que ainda não aconteceu.


Dogmas econômicos


No caso da recessão americana, que já dura um ano, o que se questiona não é a suposição dos dotes proféticos da imprensa, mas sua disposição para discutir a natureza cíclica do sistema econômico mundial e suas vulnerabilidades.


Até poucos meses atrás, jornais, revistas e outros meios estimulavam o leitor a acreditar que a economia mundial se expandia indefinidamente. A própria situação econômica do Brasil, ainda privilegiada em relação aos países mais desenvolvidos – todos já em recessão – era apresentada como resultado exclusivo do expansionismo global.


Desde setembro deste ano, a imprensa vem se comportando de forma inversa: agora tudo é crise, tudo é catástrofe, e os jornais disputam a ‘primazia’ de adivinhar um futuro cada vez mais sombrio. Talvez o leitor devesse refletir se de fato o noticiário que lhe chega às mãos é suficientemente consistente para que ele formule uma visão de longo prazo.


Se a imprensa se nega a questionar certos dogmas econômicos, e se os economistas avalizados pela imprensa foram incapazes de constatar que a recessão americana já dura um ano, que valor têm, afinal, todas aquelas páginas de palpites que foram publicadas nesse período?


***


Sem espaço para debates


Há muito tempo os especialistas em sustentabilidade vêm alertando para as fragilidades do sistema econômico mundial, provocadas pela falta de cuidados com a preservação do patrimônio ambiental e com o desprezo pelo potencial de criação de riqueza dos milhões de cidadãos excluídos do acesso ao bem-estar. Da mesma forma como ignora certas teorias sobre a natureza cíclica do capitalismo, sempre sujeito a crises, a imprensa tem evitado dar espaço a economistas e outros estudiosos que apontam a necessidade de novos paradigmas para a análise dos fatos econômicos.


Pesquisadores experientes como o francês Ignacy Sachs e o brasileiro Ladislau Dowbor têm pouco espaço na mídia. Jornais e revistas preferem os economistas ortodoxos, em especial aqueles que migraram do Banco Central e outros postos do governo para a iniciativa privada. A economista americana Hazel Henderson, que administra um dos maiores fundos de ações sustentáveis do mundo, é tida como uma curiosidade. E a própria questão da preservação ambiental fica restrita à seção científica ou a uma página semanal nos jornais.


O economista Ignacy Sachs é autor da tese da ‘civilização da biomassa’, que considera o potencial de desenvolvimento a partir da exploração sustentável da Amazônia, mas não encontra espaço para suas idéias no dia-a-dia do noticiário econômico. E nem se pode dizer que são novidades frescas demais para serem assumidas pela mídia.


A luta por um modelo sustentável para a Amazônia já é parte da História.

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