Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Os brutos também pensam

Por Joêzer Mendonça em 10/02/2009 na edição 524

Jornalistas e teóricos do evolucionismo, uma gente dotada de brilhantismo e bons postos de observação nos periódicos, têm obstinadamente alertado os cidadãos para os males da religião. Concentram-se nas caricaturas de um cristianismo barulhento e pernóstico e na beligerância totalitária de povos muçulmanos. Demonstram como dois e dois é igual a um ancestral comum a nadar no caldo amniótico de uma terra primitiva e sair para o vestibular da seleção natural. Isso é ciência, escrevem.

E para que discordar, quando apregoam as boas novas de um mundo melhor sem religião, sem Deus? E como discordar, se aos intelectuais neo-pós-darwinianos franqueia-se a palavra e aos cristãos acadêmicos concede-se o silêncio (ou a seção de cartas do leitor, que é a mesma coisa)? Às vezes, submergem suas páginas no fotolito do rancor e do preconceito que costumam atribuir aos crentes. Não é difícil notar que esse furor tem uma face anticristã, já que a mesma verve crítica raramente é destilada contra o espiritualismo light de horóscopos e cristais.

A coluna de André Petry na revista Veja (04/02) é mais um petardo da frente antirreligião camuflada de ataques ao criacionismo. ‘É assustador que, às vésperas do bicentenário do nascimento de Charles Darwin, …escolas brasileiras estejam ensinando criacionismo nas aulas de ciências.’ Ele dá nomes: ‘Já se sabia que as escolas adventistas fazem isso.’ Exagero se digo que ele parece nauseado ao chamar o ensino do criacionismo de’isso’?

‘Lembra-te de Darwin’

Em seu ataque, ele diz que essa rede de escolas – também aponta os colégios Mackenzie como os mercadores da má-fé educacional – ‘contrabandeia o criacionismo para as aulas de biologia’. E arremata: ‘É inaceitável que o criacionismo seja ensinado em biologia para explicar a origem das espécies. Em biologia, vale o evolucionismo de Darwin… a melhor (e por acaso a mais bela) explicação que a ciência encontrou sobre a aventura humana na Terra.’

O evolucionismo é algo definitivo e inquestionável, por acaso (com trocadilho, por favor)? Não se pode mostrar na aula de ciências os constructos sociais e científicos erguidos pelo pensamento humano? Não se podem contrapor os modelos criacionista e evolucionista, apontando virtudes e falhas de ambos?

André Petry, com sua escrita articulada e provocadora, permeia seu evolucionismo ortodoxo com os termos do encantamento e da religião: o evolucionismo ‘é a melhor (e não por acaso a mais bela) explicação’; no título, escreve ‘lembra-te de Darwin’ (nos dias da tua mocidade?). Em seu texto, os cristãos criacionistas são seres embrutecidos porque não encontraram a luz da verdade evolucionista e, nas escolas, misturariam crença com ciência, superstição com razão, alhos com bugalhos.

‘Embrutecimento’ não é contagioso

Petry teceu algumas simplificações. Dizer que as instituições do Mackenzie e da rede adventista embrutecem o aluno por fazerem o evolucionismo dividir a lousa com o criacionismo é generalizante (para não dizer ofensivo à razão). E creio que os hospitais e colégios ligados a instituições confessionais não compuseram seus quadros com gente mentalmente embrutecida. Os empregadores que acreditarem no seu artigo talvez se perguntem quanto de gente embrutecida contrataram, já que esses’ignorantes criacionistas’ atrasam o correr deste país que vai pra frente!

Para André Petry, o criacionismo é uma fábula, e lugar de fábula é na aula de religião (ele quase escreveu aula de contos de fada). Como o cristianismo bíblico aceita a criação divina, logo esse cristianismo é um conto da carochinha que será satirizado pelo cinismo genial dos desenhos animados no estilo Shrek.

Caro Petry, você lerá cartas mais bem escritas que esta comentando seu texto. Algumas, respeitosas e até amigáveis. Muitas, furiosas e desatinadas. Outras, elogiosas e concordantes. Após a leitura delas, considere também: grandes pensadores e leigos fiéis teriam erigido sua fé e seus valores éticos sobre uma fábula de areia? A filosofia educacional cristã tem mesmo brutalizado as mentes de seus alunos?

Meus filhos são da segunda geração familiar a cursar o ensino básico em uma escola da rede adventista. Eu o convido a visitar um desses colégios e conversar com os professores de biologia e religião. Aproxime-se sem medo; nosso suposto’embrutecimento’ não é contagioso. E pode ser que, além de já saber que os brutos também amam, você conclua que os brutos também pensam.

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Editor do blog Nota na Pauta

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