Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > ENTREVISTA / TEREZA CRUVINEL

Os desafios da EBC para formar uma rede pública

Por FNDC em 09/09/2008 na edição 502

A jornalista Tereza Cruvinel preside a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) desde a sua criação, há pouco mais de 10 meses. Solicitada a fazer um balanço deste período, ela avaliou que o maior avanço produzido até agora foi a realização de um grande debate sobre o setor. A infra-estrutura sucateada, amarras administrativas e o orçamento limitado constituíram os maiores entraves para a consolidação da nova emissora pública de radiodifusão, que tem como proposta formar uma rede de emissoras associadas e com compartilhamento da programação, para ‘fazer a diferença’.

Em visita ao Rio Grande do Sul para fazer a palestra da aula inaugural do curso de Comunicação Social e do Programa de Pós-graduação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo, no último dia 25 de agosto, Tereza Cruvinel defendeu a proposta de construção de uma rede e do compartilhamento de grades para dar autonomia à televisão pública do país. ‘Estamos discutindo com as TVs universitárias e comunitárias um modelo de associação e buscando também associações bilaterais – onde for possível, também, procuramos desenvolver co-produções. Que sejam boas para todos’, idealiza.

Segundo a presidente da EBC, hoje a emissora oferece 47,8% da programação para as educativas estaduais. ‘Infelizmente, no Rio Grande do Sul, a TVE não está em rede conosco e tampouco numa situação tranqüila, do ponto de vista de sua sobrevivência. Não vejo aqui (RS) vontade de reestruturá-la de forma a fortalecê-la e depois se integrar à TV Brasil,’ lamentou Tereza.

A EBC, empresa criada para prestar serviços em radiodifusão pública, tem na TV Brasil o desafio mais ousado, de acordo com sua presidente, pois se propõe a ser a primeira rede nacional de TV pública do país. ‘A TV Brasil é, sem duvida, o projeto mais importante da EBC. Implantá-la e fazer com que seja reconhecida como uma TV pela cidadania, uma TV generalista, é nosso desafio’, afirmou a jornalista.

Tereza citou as principais dificuldades a serem superadas, entre elas, a renovação da programação e a infra-estrutura. ‘O sistema público é complicado, sujeito a muitas regras. Estamos tentando criar, este ano, bases estruturais para alterarmos esse complexo de comunicação, para torná-la cada vez mais pública e com uma gestão mais eficiente’, explicou. Ela foi entrevistada pelo e-Fórum em 25/08/2008. A seguir, uma síntese das suas principais considerações.

***

Qual a sua avaliação sobre esses 10 meses de atuação na EBC? Quais as maiores dificuldades?

Tereza Cruvinel – As dificuldades são muitas, sobretudo não conseguir até agora, por exemplo, produzir a renovação da programação no sentido desejado. E não é por falta de vontade, mas por amarras administrativas. Nós só conseguimos orçamento próprio da EBC em junho. Então, produzimos pouca coisa nova esse ano.

Também a infra-estrutura é muito ruim, vamos fazer uma grande licitação. Esse foi um ano de enfrentar um grande debate – o que fizemos. Mas eu acho que a gente ainda não fez muita diferença. Já fizemos alguns produtos importantes, como organizar o calendário das festas populares. Mas, como ainda estamos em plena época implantação, estamos mais é criando condições para que no próximo ano a gente venha a fazer a diferença.

Quais os maiores desafios da TV pública brasileira?

T. C. – Na TV pública não podemos apelar para conquistar audiência. Nós temos artistas, programas educativos, culturais, informativos que contribuem para a cidadania. Assim, não podemos apelar, queremos fazer uma programação diferenciada, e acho que o segredo está em combinar o conteúdo de qualidade elevada com um formato interessante. Esse é o desafio – um formato que atraia o telespectador, que está cansado das receitas que estão por aí. Eu reconheço que não é um trabalho fácil. Além disso, o setor público é lento, depende de licitação, concurso público, tudo é muito difícil. Temos que encontrar a forma de gestão adequada e com agilidade.

E sobre a realização de um novo Fórum de TVs Públicas? Qual é a sua opinião sobre a retomada do debate?

T. C. – Eu não sei exatamente para o que seria esse novo fórum. Se for uma revisão do modelo da EBC, sou contra, porque isso já foi vencido. Foi tão duro aprovar uma lei, que se for para aprovar outra, não vejo sentido. Ouvi dizer, no encontro da Abepec (Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais), em Belém, que era para discutir o marco regulatório das TVs estaduais. Se for para isso, acho que tem que acontecer nos estados e não no âmbito federal.

Como conseguir que a TV Brasil cubra o território nacional, considerando as particularidades de cada região? Que políticas precisam ser adotadas?

T. C. – A construção de uma rede, em associação com as TVs estaduais, educativas, universitárias e comunitárias, é a forma de conseguir autonomia para esse tipo de televisão que pretendemos, assim como o compartilhamento de grades que permita mais dinâmica.

Estamos propondo às TVs estaduais oito horas de transmissão simultânea – quatro da TV Brasil e quatro da própria emissora. Discutimos com emissoras universitárias e comunitárias um modelo de associação e buscamos ainda parcerias bilaterais para desenvolver co-produções. Buscamos um modelo de associação que seja bom pra todos.

Críticos da TV Brasil afirmam que a grade da emissora há pouco espaço para a produção audiovisual e muito para o jornalismo…

T. C. – É o contrário! O jornalismo não constitui nem 5% da grade na TV Brasil. Há dois telejornais numa grade de 20 horas – um com duração de uma hora e outro de 30 minutos. Isso é mentira, coisa de quem não vê a televisão. Acho que é porque eu sou jornalista que gostam de dizer que eu só vou fazer jornalismo na TV pública. Mas é uma calúnia.

Qual sua opinião a respeito da realização da Conferência Nacional de Comunicação?

T. C. – A EBC apóia e espera que ela se realize, porque só uma conferência nacional de pode rever completamente esses marcos regulatórios velhos, que já não mais combinam com o momento tecnológico que a gente vive.

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