Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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FEITOS & DESFEITAS >

Os efeitos da altitude na mídia brasileira

Por Guilherme Scalzilli em 09/06/2009 na edição 541

Na noite de quarta-feira (14/2/07), o Flamengo empatou em 2 a 2 com o Real Potosí, pela Copa Libertadores. O jogo foi realizado na Bolívia, a quase 4 mil metros do nível do mar. Alguns jogadores brasileiros passaram mal no segundo tempo e chegaram a utilizar um cilindro de oxigênio para recuperar o fôlego.

A diretoria flamenguista declarou que o time jamais voltaria a jogar em tais condições. Advogados e diretores foram mobilizados. A assessoria de imprensa do clube afirmou ter recebido a denúncia de que um jogador mexicano morrera em plena partida, na mesma altitude. O assunto alimentou o noticiário sensacionalista sobre fatalidades envolvendo atletas profissionais e amadores.

O apoio da crônica esportiva foi imediato, generalizado e radical. Até desafetos notórios, como Juca Kfouri e Milton Neves, uniram-se na onda de indignação. ‘A Fifa está esperando alguém morrer’, acusou o primeiro. ‘Ainda morrerá algum jogador nas altitudes’, o outro vaticinou, em comentário separado. A cruzada envolveu Ricardo Teixeira, que conseguiu extrair da Fifa a suspensão de partidas acima de certa altitude.

Nenhum distúrbio grave

Um ano depois, a entidade anulou o veto e o assunto caiu no esquecimento. Tamanha reviravolta não se explica apenas pela pressão dos dirigentes e governantes sul-americanos, embora alguns comentaristas tenham feito vasto uso ideológico do caso. Antes de Evo Morales e Rafael Correa, ninguém ameaçou tolher o trunfo geográfico dos times de seus países. Criticar o presidente Lula por defendê-los foi uma forma sutil de contaminar as discussões com meneios político-eleitorais.

A campanha contra a realização de jogos em altitude fracassou porque logo ficou evidente que ela visava apenas a proteger os interesses dos grandes times brasileiros. A tese de que a altitude traz riscos para a saúde dos atletas nunca foi endossada tecnicamente. Os palpites dependem do fisiologista ou clínico entrevistado e os jornalistas escolhem as opiniões que lhes convêm. Sintomaticamente, os veículos resistem a investigar boatos sobre mortes (a do mexicano jamais foi confirmada) e a divulgar os estudos disponíveis sobre o assunto. E eles existem.

Em abril de 2000, por exemplo, o Journal of Exercise Physiology apresentou uma pesquisa realizada por nove fisiologistas, coordenados pela especialista alemã Hilde Spielvogel, do Instituto Boliviano de Biologia da Altitude. O estudo acompanhou e comparou jogadores profissionais divididos em dois grupos, de aclimatados e não-aclimatados, em ambientes díspares (La Paz, a 3.600 m, e Santa Cruz, a 420 m).

Os efeitos da altitude atingiram todos os jogadores, mas o rendimento aeróbico e a tolerância à acidose lática variaram segundo características individuais, independentes da aclimatação. Ainda assim, a maioria dos atletas ficou imune a sintomas negativos: 66,4% não sentiram dores de cabeça, 73% tiveram apetite normal, 58,2% não apresentaram cansaço nem debilidades, 83,2% não tiveram alterações no sono, 88,5% não reclamaram de vertigens ou tonturas. E, mais importante, tampouco houve qualquer distúrbio que pudesse levar a danos físicos graves ou à morte.

O tabu dos malefícios físicos

As conseqüências da altitude podem ser amenizadas com precauções rotineiras e medicamentos leves. Mesmo desmaios, vômitos e outros sintomas são relativamente raros. Afirmo-o por experiência pessoal. Completei a árdua travessia da Trilha Inca, de Cuzco a Machu Picchu (Peru), há vinte anos. Foram alguns dias em escarpas que passam de quatro mil metros acima do mar. Eu e meus colegas sofremos com os efeitos, mas nunca julgamos que não terminaríamos a jornada. E nosso preparo físico era pífio.

Atletas profissionais bem remunerados, dispondo de infra-estrutura propícia e acompanhamento especializado, podem e devem estar aptos a desempenhar suas atividades em condições adversas. Esportistas respeitados de outras modalidades, sem contar com as regalias dos futebolistas, mantêm altos rendimentos em relevos e situações incomparavelmente piores. Basta citar a corrida de aventura, onde a maioria dos participantes é amadora, para se ter idéia da capacidade de superação humana.

Depois que a ciência derrubou o tabu dos malefícios físicos, ganha força o mito da igualdade de condições. Jogadores genética e biograficamente preparados para a altitude seriam beneficiados a priori contra adversários de regiões menos altas. Aqui há uma dupla distorção, que exige análise individualizada.

Preocupação com a ‘justiça’

Em primeiro lugar, o pretexto dos obstáculos naturais pouparia times de jogar em quase todo território brasileiro. E a final do Mundial Interclubes, no gélido inverno japonês, também seria cancelada. Os jogos da Copa dos EUA, com sol de 40º a pino, nem teriam existido (e na África do Sul só aconteceriam à noite).

A capacidade de adaptação a percalços naturais contribui para a imprevisibilidade e a competitividade em qualquer esporte. Seria insano querer neutralizar a superioridade dos atletas europeus na neve (ou sob as cruéis tempestades de ‘raspadinha’), dos africanos no calor e até dos sul-americanos na altitude. A padronização do rendimento esportivo é uma quimera impossível e indesejável, pois destruiria o próprio fundamento da disputa.

E finalmente chegamos ao aspecto mais constrangedor da questão. Por que defender a isonomia em competições que já transcorrem sob as mais gritantes disparidades financeiras e materiais? A superioridade técnica da festejada elite do futebol mundial (times brasileiros inclusos) nasce de inúmeros privilégios econômicos e políticos inacessíveis à esmagadora maioria dos clubes. Fosse verdadeira essa preocupação com a ‘justiça’ das competições, haveria um vasto leque de medidas eficazes a discutir.

Mas, claro, isso levaria a um nivelamento muito diverso daquele proposto pelos torcedores da mídia nacional.

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Historiador e escritor, Campinas, SP

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