Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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FEITOS & DESFEITAS >

Os erros da mídia

Por Ricardo Lima Neiva em 18/08/2009 na edição 551

A pressa em dar notícias em primeira mão ou a falta de cuidados com a mesma tem ocasionado publicações que chegam a ser um ato de desrespeito com quem lê, ouve ou vê uma matéria. Alguns dos casos são cômicos, outros são trágicos mesmo, como veremos a seguir.

Vamos exemplificar fatos que aconteceram na mídia nacional, porém a maioria dos exemplos de erros que serão mencionados está na Bahia. Isso não quer dizer que esse estado seja o campeão de falhas. Não é isso. A questão de notícias publicadas na Bahia serem muito mencionadas para compor este artigo se deve ao fato, única e exclusivamente, deste jornalista que aqui escreve residir na ‘Boa Terra’, o que, evidentemente, facilita a análise do jornalismo local.

Começaremos pelo erro jornalístico mais recente. Este aconteceu no sábado (8/8). Pouco antes do início da partida entre Bahia e Vila Nova, o repórter interrompe a transmissão para dar o seguinte furo: ‘Cerca de 50 homens assaltaram as Lojas Riachuelo do shopping Center Lapa, no centro de Salvador, e fizeram arrastões nas imediações da região. A polícia está fazendo ronda no local para prender os bandidos.’

Notícia velha e errada

Pois bem, algumas horas depois todos os veículos de comunicação começavam a dar a verdadeira versão do fato: ‘Nas proximidades de um grande shopping do centro de Salvador, alguns seguranças de lojas da região se desentenderam com um policial militar e tentaram agredi-lo. Para se defender, o PM à paisana sacou a arma e desferiu alguns tiros que atingiram duas pessoas, o que gerou grande corre-corre por parte dos transeuntes que estavam passando por perto.’

Do rádio para a televisão. Neste veículo, os erros são mais evidentes, pois além do som, a gente tem imagens para reforçar os equívocos. A notícia veiculada em um telejornal matinal de uma das líderes de audiência no horário foi a seguinte: ‘O time do Vitória está na 9ª colocação do campeonato Brasileiro’. Você deve estar se perguntando: onde está o erro? Ok, vamos lá…

O erro está no simples fato de que na noite anterior, ou seja, na quarta-feira, tiveram jogos do campeonato. O Vitória estava, sim, em 9º lugar, mas até antes dessa rodada terminar. Após a conclusão da mesma, o time caiu para a 10ª colocação na classificação geral.

A jornalista, sem verificar como estava a tabela do campeonato naquele momento, deu uma notícia velha e errada para o torcedor. Para evitar esse erro, não se fazia necessário ela ir a lugar algum para apurar os fatos, como se fazia na notícia anterior. Bastava que ela acessasse o site da CBF para que pudesse publicar a informação de forma correta e atualizada.

Fecho com ‘chave de ouro’

Nesta mesma emissora, os erros são constantes e, o pior, não pela suposta falha da jornalista, como no caso anterior, mas por descaso e desrespeito, não do veículo de comunicação, e sim do ‘jornalista-apresentador’.

Em um dos principais telejornais da hora do almoço, o seu apresentador, quase diariamente, apresenta o programa literalmente perdido, dá informações que não têm nada a ver com o fato a ser exibido no ‘noticiário’ ou, pior, não sabe nem o que vai passar na matéria seguinte. Isso sem contar o notório traço de mau-caratismo do rapaz, ao pedir que empregadas domésticas aproveitem que as suas patroas não estão em casa, peguem o telefone e liguem para determinado número de celular para poderem concorrer a alguns reais escondidos em envelopes.

Para fechar com ‘chave de ouro’, o apresentador volta e meia anuncia matérias em seu programa que acabam não sendo veiculadas e, sem ter o mínimo respeito pelo seu telespectador que tanto lhe dá audiência, ele sequer dá alguma satisfação sobre isso. Apenas termina o programa como se nada faltasse noticiar.

Apenas uma grande piada

Mas esse jornalista veio de uma outra emissora e apresentava um programa popularesco e sensacionalista, igualzinho ao que apresenta hoje. Com a sua saída da emissora, o programa não acabou e em seu lugar assumiu um, até então, respeitado repórter de rua.

Depois que o mesmo virou apresentador do programa antigo, passou a falar como se fosse para internos de um hospício, onde estes, além de loucos, são também surdos, pois o tal jornalista só fala gritando, claramente aos berros.

Há alguns meses, em um dos grandes jornais impressos de Salvador, outro erro jornalístico – esse, até engraçado. A matéria falava sobre focos da dengue espalhados pela cidade, já que, na época, a capital baiana era uma das recordistas em casos de vítimas da doença no país.

O bairro alvo da matéria era o do comércio, em Salvador. Em frente a uma faculdade da região existe(ia) um local parecido como uma pequena piscina, coberta por vazadas grades em aço. De fato, o local era mesmo para ser foco da matéria sobre foco da dengue (vale o trocadilho). Entretanto, quando a mesma foi feita e publicada, inclusive com foto para ilustrá-la, o local já havia sido reformado e coberto com pedras brancas pela faculdade que adotou a praça em frente à instituição. Resultado: quem comprou o jornal naquele dia e também costuma passar diariamente na região da citada matéria, percebeu que o que deveria se tratar de uma reportagem séria não passou de uma grande piada.

Mais cuidado e respeito

Antes de escrever a notícia, o jornalista não se preocupou em verificar se a região ainda se tratava de um possível foco da dengue. Como era um local que já estava daquele jeito há alguns anos, o jornalista apenas se valeu da intuição e praticidade para elaborar a matéria. Só espero que, depois disso, o nobre colega já tenha passado pela região e percebido a grande barriga que cometeu.

Para terminar, mas não menos importante – muito pelo contrário, talvez até muito mais importante que os demais erros citados acima –, pois este valeu uma vida. Estamos falando do seqüestro da garota Eloá Pimentel, 15 anos, em Santo André, SP, em outubro de 2008. Especialistas em táticas de segurança afirmam que um dos principais motivos pelo fracasso da operação – além da falha da polícia local – se deve ao fato de um programa televisivo matinal de grande audiência no país ocupar a única linha telefônica que o seqüestrador dispunha com o objetivo de conversar com ele com exclusividade e ao vivo para todo o Brasil. Isso inviabilizou o processo de negociação com Lindenberg Alves, já que o telefone estava quase o tempo todo ocupado pela emissora de TV.

Como os leitores puderam perceber, em momento algum mencionei o nome desse ou daquele veículo de comunicação, muito menos dos respectivos jornalistas responsáveis pelas suas falhas. Não fiz isso porque o meu objetivo aqui não é criticar, nem crucificar ninguém. O meu desejo é que nós, jornalistas diplomados, tenhamos mais cuidado e respeito pela nossa profissão, caso contrário iremos cada vez mais reforçar a tese de que qualquer um pode exercer exercê-la.

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Jornalista, Salvador, BA

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