Quarta-feira, 16 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

FEITOS & DESFEITAS > ECOS DE BUSH

Os esquecidos da imprensa

Por Júlio Valério Neto em 27/03/2007 na edição 426

A visita do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, fez o Brasil parar em torno da assinatura de um badalado acordo sobre biocombustíveis. Contando com vantagens naturais e técnicas, os produtores brasileiros conseguem produzir etanol pela metade do valor mundial, vantagem competitiva que faz muitos verem o Brasil quase como um Kuwait dos combustíveis renováveis. Talvez a oportunidade de um acordo de cooperação tão importante, a ponto do líder da maior potência mundial se deslocar à América Latina, seja um marco.

Porém, na ampla cobertura midiática que acompanhou a visita de Mister Bush, dois personagens foram esquecidos: o consumidor brasileiro e os cortadores de cana.

200 mil cortadores

Com a transformação do etanol em uma commodity internacional, como ficará a situação do consumidor brasileiro que abastece seu carro a álcool e, em determinadas épocas do ano, já sofre a oscilação de preços devido à entressafra? A cobertura jornalística, embriagada com as possíveis vantagens do acordo Brasil-EUA, não tocou nesse assunto. É interessante compararmos tal fato com a nacionalização das refinarias na Bolívia, há cerca de um ano, quando se repetiu incessantemente, num tom nacionalista meio desbotado, que o gás natural iria subir, que os brasileiros pagariam a conta, que o governo não reagiu à altura etc… De repente, o consumidor tupiniquim desvaneceu-se. Ou, no mínimo, perdeu importância.

Os cortadores de cana também passaram longe da cobertura televisiva. Para quem não conhece os canaviais do interior do Brasil, a impressão que ficou, pelas matérias veiculadas, foi a de que o álcool cristalino talvez brote sozinho, como água, em vaporosas usinas, sem suor ou esforço humano. Quase nada foi dito sobre o exército de duzentos mil trabalhadores que, antes que o sol nasça, se enfileiram pelas plantações de cana para uma jornada extenuante, em troca de um salário mensal de cerca de quinhentos reais (mais ou menos 220 dólares), menos de dois salários mínimos. Sobre as mortes de cortadores de cana por trabalho excessivo, o que volta e meia atinge algum trabalhador, nada foi dito.

Deu no Guardian

Ninguém é louco de julgar que um acordo com os Estados Unidos não seja uma excelente oportunidade de negócio, ainda mais em um momento em que tanto se fala em desenvolvimento e em fontes renováveis de energia, mas a mídia brasileira se esquece de alguns personagens cruciais nessa história toda. Aliás, um certo tipo de esquecimento dos meios de comunicação brasileiros que não começou hoje…

PS -Vale ressaltar que o jornal britânico The Guardian publicou matéria sobre os cortadores de cana da região de Ribeirão Preto em sua edição na internet, matéria que deveria servir para inspirar o jornalismo daqui.

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