Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & LINGUAGEM

Os nomes e o que eles profetizam

Por Deonisio da Silva em 27/01/2009 na edição 522

É frequente que na mídia, especialmente no alvorecer de um novo ano, conhecidos apedeutas façam profecias, chegando ao cúmulo de dizerem o que vai acontecer com certas celebridades brasileiras. Assim, preveem mortes, doenças e diversas desgraças, mas advertem que se elas se cuidarem, principalmente seguirem seus conselhos ágrafos, tudo pode ser evitado.

Ninguém disciplina esses editores setoriais para deixarem de pautar conhecidos bobalhões. Quanta oportunidade perdida nessas efemérides para boas matérias, se fossem pautadas pessoas que sabem combinar os saberes que dominam com uma linguagem entendida por todos. Mas para isso, é preciso procurá-las. E não apenas com meia dúzia de telefonemas aos mesmos de sempre. Assim, revistas e jornais patinam nas mesmas escassas tiragens. Esse descuido é uma das principais razões de a imprensa não conquistar leitores.

Esclareço que não uso neste artigo o conceito bíblico de profecia, do latim prophetia, mas, sim, o grego prophetéia, formado pelo prefixo pro, antes, e phemí, dizer. Existe a crença de que os nomes anunciam e indicam o que são e fazem as pessoas que por eles são conhecidas. Há autores que vinculam nomes a destinos, mas esse tipo de conhecimento tem base semelhante à dos horóscopos. Fulano é de Libra, logo tem grande amor à Justiça, pois o símbolo do signo é uma balança. Já quem é muito teimoso não é do signo do burro, animal que não dá nome a signo algum, embora exista a expressão ‘teimoso como um burro’, ‘teimoso com uma mula’ etc. Outros veem destino em números, combinando datas, meses e anos. No horóscopo chinês, também invocado eventualmente, há vários animais presidindo aos signos e aos anos.

O apedeuta e o literato

Vamos a alguns nomes e seus significados proféticos, no sentido, reitero, do que manifestam em seus étimos. Saulo é o modo grego de escrever o nome hebraico Saul. O significado de ambos os nomes é ‘desejado’, aquele que era preciso vir, era necessário, pelo qual todos esperavam. Saul, um líder local, foi o primeiro rei dos hebreus.

O fracasso diante dos filisteus pôs em risco a unidade nacional. E então o sucessor, Daví, cujo significado é ‘amado’, armou-se de uma funda (estilingue) e uma pedra e, embora pequenino, lutou contra o gigante Golias e o venceu.

Daví era poeta, fazia versos, recitava, cantava, diziam ser meio lelé da cuca, como se diz de escritores ainda hoje. Ou ‘desligado’, como dizem os jovens. Daví era meio desligado. Mas se alguém é desligado de algumas coisas, é muito ligado em outras. E se é muito ligado em algumas, é desligado de outras tantas. Por exemplo: já notaram como a maioria dos nossos políticos não lê coisa alguma, livro nenhum?

É muito difícil para quem lê entender-se com quem nada lê, a menos que o analfabeto reconheça no outro um saber que ele não tem. Em geral, dá-se o contrário: o apedeuta acha que sabe tudo sem ler nada, e que o outro, coitado, não sabe nada, vive entre livros, só pode ser um ignorante.

Paulo trocou de nome por modéstia

Bem, Daví, o segundo rei de Israel, cantava, dançava, fazia versos e fez a maioria dos salmos da Bíblia. E ainda tocava harpa para louvar ao Senhor, cantando e dançando. Foi um rei alegre, divertido e… genocida. Além de adúltero contumaz. Mandou para a frente da batalha o general Urias para que o militar morresse e assim o rei ficasse com a mulher dele, Betsabéia, mãe de Salomão.

Salomão, cujo significado é ‘pacífico’ – o étimo shalom, paz, está em seu nome – foi o terceiro rei de Israel. E já encontrou Jerusalém construída pelo pai, Daví. Saiu mulherengo como o pai, mas o superou: teve mil mulheres. Amou também a rainha de Sabá.

Saulo, nome do grande perseguidor de cristãos, era um fariseu, um daqueles a quem Jesus chamou de ‘sepulcros caiados’. Começou a perseguir os cristãos. Tinha cerca de vinte anos quando Jesus morreu. Participou do apedrejamento de Santo Estêvão. Morreu decapitado – era cidadão romano, não podia ser crucificado, uma humilhação – no mesmo ano em que São Pedro foi executado: 67 depois de Cristo.

A caminho de Damasco, na Síria, recebeu um jato de luz na cara, caiu do cavalo, e ouviu a seguinte pergunta: ‘Saulo, Saulo, por que me persegues?’

Saiu dali e depois de algumas peripécias trocou de nome. Adotou Paulo, que quer dizer ‘pequeno’. Fez isso por modéstia: queria ser o menor dos apóstolos. Tornou-se o maior de todos!

Conceito desfavorável dos norte-americanos

Devemos a ele e a seus conhecimentos, já que São Pedro não sabia ler nem escrever, a formulação da doutrina cristã. Aliás, quando Nero começou a perseguir os cristãos, este nome, cristão, khristianós, tinha vindo do grego: Christós, em grego, é messias, que é Mexiah em aramaico, o ungido, aquele de quem se esperava algo muito importante, como a salvação.

Recentemente, para entender a admiração que minha filha Manuela tem pelo primeiro papa, vi um filme chamado Pedro, uma biografia muito interessante do apóstolo que, como profetizado pelo Mestre, antes que o galo cantasse, por três vezes negou que o conhecesse. Estava morrendo de medo.

Pedro é dirigido por Giulio Base, com Sidney Rome, Daniele Pecci, Lina Sastri e Philippe Leroy. Quem faz Pedro é Omar Shariff, um papel extraordinário. Quando mocinho, fez Dr. Jivago, na verdade alter ego do romancista russo Boris Pasternak, Prêmio Nobel de Literatura e autor do livro em que o filme se baseou.

Omar Shariff é pseudônimo do ator egípcio Michel Demitri Shalhoub. A rede terrorista Al Qaida, dirigida por Osama bin Laden, ameaçou de morte o ator quando ele aceitou o papel de Pedro. A coisa piorou quando o papa Bento 16 elogiou o filme e o papel feito pelo ator egípcio, na verdade, franco-árabe, nascido no Líbano. O ator tem conceito desfavorável dos norte-americanos. Disse numa entrevista: ‘Apenas 10% deles têm passaporte. 90% nunca saíram de lá. Qualquer europeu médio tem cultura superior à deles.’

Os trocadilhos de Jesus

Voltemos a Pedro. Outra vez com medo, ele fugia de Roma quando se encontrou com Jesus, a quem perguntou: Quo vadis, Domine?, que em latim significa ‘Para onde vais, Senhor?’ (literalmente, ‘Para onde ides, Senhor?’). Quo Vadis, também transposto para o cinema, é um romance de outro Prêmio Nobel, o polonês Henryk Sienkiewicz.

Pedro, que já se arrependera das três vezes na madrugada da sexta-feira em que Jesus foi crucificado, e chorara amargamente, ouviu em resposta: ‘Vou para Roma para ser crucificado outra vez, pois você está fugindo.’

Pedro voltou a Roma, foi preso e condenado à cruz, mas pediu que o crucificassem de cabeça para baixo, por ser indigno de morrer como o Mestre.

Pedro chamava-se Khephâs em aramaico. Foi traduzido para o grego como Petros, para o latim como Petrus, para o português como Pedro. Jesus, que fazia alguns trocadilhos, pois era um cultista, segundo alguns narradores, diz: ‘Tu és Khephâs e sobre esta Khefa (pedra, em aramaico) edificarei a minha igreja.’

O filme Pedro, originalmente uma minissérie da televisão italiana, exibida em 2005, está disponível nas locadoras.

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Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de Cultura e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da ed. Novo Século); www.deonisio.com.br

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